Corrimão

Estou feliz, pois estou vendo meu tríceps. Sim. E a musculatura da coxa. E os músculos da barriga, só que não tanto, pois, confesso, tenho tomado muita cerveja. Mas, os exercícios estão em dia. Hoje, é o primeiro dia em que eu realmente não tenho muito o que fazer no isolamento. O trabalho acabou, Chernobyl (a série, tá) já se encerrou, os posts dos amigos no Instagram já rolei até o fim. Comecei dois livros e não consegui terminá-los. Acordei às 9h, hoje, só para não perder o costume de colocar o celular para despertar em algum horário e não começar a levantar às 13h pra tomar café da manhã, como a gente faz nas férias. Penso que é necessário manter um mínimo de civilidade. Não sair de casa nem é o problema, pois, neste momento, sair de casa significa entrar numa sucessão inevitável de grandes paranóias. Como na penúltima vez que passei nos meus pais para pegar a lista de compras e meu primeiro reflexo foi colocar a mão no corrimão do prédio. Olha, posso jurar que a minha mão começou a arder após aqueles poucos segundos em que passei a mão pelo metal. Em casa, ao menos, tenho a falsa sensação de que estou em um ambiente controlado. A gente tira o sapato do pé, quando volta para casa, mas ignora um pouco que as sacolas do mercado estão entrando junto com a gente, que a gente vai colocar essas mesmas sacolas sobre a mesa. Que vai guardar essas sacolas no puxa-saco. Que vai utilizar as sacolas da próxima vez que a gente sair pra passear com o cachorro. Sei lá, não entendo nada de vírus, vou torcer para que ele morra de tédio, assim como eu aqui dentro de casa. E está tudo bem, pois vamos lavar todos os alimentos que acabamos de comprar, tomar uns 15 banhos e passar o resto do dia pensando até quando o dinheiro vai dar. Se a gente estivesse trabalhando normalmente, duvido que teríamos esse tempo todo para higienizar alimentos. Não só duvido, como truco. Tempo para lavar os alimentos, para limpar a casa, passar kiboa nas maçanetas. E no corrimão, claro. Tempo é o que está tendo. Tempo demais. Queria ser produtiva como vocês, mas, pelo menos, eu estou vendo o meu tríceps aqui.

Essa coisa demodê que chamamos de “direitos”

Ser freela, tornar-se freela é fazer parte de uma pequena comunidade de pessoas desconhecidas, que não se falam ou se falam pouco, mas que tentam manter contato via grupos de Facebook ou de WhatsApp. Poderia ser o inferno, mas, ao menos, existe o recurso de silenciar notificações. Fico agradecida por isso.

De todos os assuntos mais discutidos nesses grupos há um que é bastante recorrente, mas, confesso, nunca tenho o ânimo de participar ativamente da discussão dele. Admito que sou uma pessoa de raciocínio lento; preciso sempre de um tempo maior para entrar em discussões; talvez por isso esteja sempre fugindo delas.

O assunto é a autonomia do freela. Na realidade, o assunto é “por que nós, freelas, continuamos comprometendo a maior parte de nossa renda com apenas um cliente?”. É assim: em geral, todos os freelas têm um cliente que paga por uns 80% dos vencimentos, enquanto outros clientes pagam por porcentagens bem menores. Na prática, estamos “na mão” de apenas um cliente que, se se decidir por cancelar os trabalhos, vai prejudicar os nossos ganhos de forma bastante preocupante.

O que está por trás dessa dúvida é a falsa ideia de que temos algum tipo de autonomia para escolher os clientes com quem queremos trabalhar, o que, na realidade, não acontece. Sim, eu já me recusei a trabalhar com algumas pessoas por diferentes razões: falta de conhecimento técnico para fazer o trabalho, falta de tempo para cumprir com os prazos exigidos pelo cliente, identificar que o valor a ser pago seria irrisório, nesse caso, no sentido de praticamente pagar para trabalhar mesmo.

Porém, o que nós, freelas, fazemos com muito mais frequência é topar todas. Nunca sabemos exatamente por quanto tempo o trabalho vai se estender. Nunca sabemos se no mês seguinte vamos receber o mesmo valor do mês anterior, portanto, qualquer trabalho que dê algum dinheiro a mais é válido. A coisa mais difícil para o freela é dispensar trabalho. O que significa que quando alguém oferece um valor alto – não se engane, nesses casos, a quantidade de trabalho também é alta – para que façamos um trabalho, não há a mais remota chance de recusarmos.

Essa ideia de que somos autônomos e temos liberdade para escolher como, quando e com quem trabalhar é falsa e, se continuarmos acreditando nela, penso que faremos muito pouco por nós, enquanto classe de trabalhadores “autônomos”. Precisamos aceitar que a instabilidade é um problema, que é impossível ter controle sobre o que ganhamos. Precisamos aceitar que estamos “na mão” de nossos clientes. A ideia de que há uma relação de parceria, de ganha-ganha, é ilusória e, temos de aceitar que há, isso sim, uma relação de dependência, como em qualquer relação trabalhista.

Seguir acreditando numa pretensa autonomia promove um distanciamento entre os freelas muito maior do que o que já promove o mundo digital. Distantes uns dos outros, deixamos de pensar em soluções, como a criação de fundos de emergência da parte do governo, deixamos de pensar que, mesmo fora da CLT, seguimos pagando impostos e, portanto, deveríamos ter nossos direitos garantidos. Eu não acredito em autonomia, mas sigo acreditando e defendendo essa coisa demodê que chamamos de “direitos”.

Quando eu comecei a ler “Meu ano de descanso e relaxamento” da Otessa Moshfegh, não entendia o que fazia uma pessoa se recusar à vida, retirar-se da vida, ainda que ela não tenha se decidido pela morte, mas por uma pausa breve e calculada de sono quase ininterrupto. Me perguntava se havia nisso uma forma de anestesia da realidade ou se era mais um capricho de uma menina cheia de privilégios, entre eles o de não trabalhar em um período de tempo. Neste momento, optei por reler o livro e, não importa muito a minha leitura de quem é a personagem. O fato é que, neste exato momento, o que eu mais queria era fazer uma pausa, poder pausar esse instante da minha vida como quando a gente pausava o VHS pra terminar de ver o filme mais tarde. Um breve stop faria maravilhas por mim, talvez até por todos nós. Sempre tem alguém que vá enaltecer o valor da experiência diante da afirmação da necessidade da pausa. Mas eu realmente não queria ter de viver o que estamos prestes a viver.

A música ao vivo acabou (?)

Quem nunca tentou ler um link de alguma matéria e se deparou com o maldito paywall, aquele aviso de que você precisa pagar para ler o conteúdo? Ninguém vai pagar e, portanto, ninguém vai ler. Parece novidade esse lance de pagar para ler, mas, eu gosto da opinião do Tony Aiex do Tenho Mais Discos que Amigos, nossa sociedade se criou assim. Só que antes, a gente lia as manchetes dos jornais que estavam nas bancas.

No caso da música, hoje se fala muito em playlist, como se fosse algo novo. Mas eu me lembro bem de comprar CD e mesmo vinil com os hits dos anos não sei quê, um compilado de músicas que alguém achou a cara de uma determinada época. A diferença está no fato de que, hoje, a gente é quem faz essa seleção. É muita liberdade, não? E, pra variar, a gente não sabe bem como usá-la.

Como cantora, já vivi (e eventualmente ainda vivo) esse momento em que a banda, o duo, o grupo musical se questiona se o repertório é acessível para o público. Quem nunca se perguntou, como músico, se não vale a pena investir num repertório mais lado A ou mesmo foi interpelado pelo dono do bar ou da casa de show para que fizesse um repertório não tão lado B?

Tenho para mim, que o público nem sabe o que quer, mas entendo e endosso que ele está sempre esperando ouvir algo que reconheça, algo que apele para a sua memória e que não o deixe com a sensação de que não está por dentro do rolê. Noto, sempre que canto alguma música desconhecida, aquele silêncio; é o momento em que todo mundo olha para o celular. É, também, o momento em que mais sinto a responsabilidade de “vender” a música, sabe? Como quando canto White Room e comento que faz parte da trilha sonora do filme Coringa. Não sei se ajuda, mas é o que consigo fazer.

O fato é que se a gente for se orientar pelo gosto popular, o repertório se transforma em um catado de canções de estilos absolutamente díspares. Nada contra quem busca saciar a necessidade memorialística do público; acho até que é uma forma bastante digna de sobrevivência, já que quanto mais agradável ao público, mais datas a banda vai ter. Mas essa vontade do público de ser agradado o tempo todo me é estranha.

Não por acaso, a maior parte das bandas, sobretudo as de rock, fazem praticamente o mesmo repertório. É preciso saciar a vontade do público de ouvir aquelas músicas, do contrário, ninguém vai parar para ouvir e, se ninguém ouve, as casas fecham as portas para o seu projeto musical. No caso do jazz, dá para contar nos dedos de uma mão os projetos que de fato fazem esse estilo e não recorrem à Amy Winehouse e músicas pop com arranjo lounge.

Eu, como público, gosto de ouvir músicas que conheço, que me façam lembrar de algum momento da minha vida, mas fico ainda mais feliz quando sou surpreendida pelo artista que está cantando/tocando. Sempre vou admirar quem estuda nota por nota, quem aprende a fazer os agudos iguaizinhos aos do fulano/a. Mas quando reconheço que o intérprete de fato interpreta a música, aí eu acho que estou diante de um artista e não de um imitador.

Não quero dizer que o artista não tem que estudar o repertório. Jamais sugeriria isso. Inclusive porque entendo o conhecimento como uma forma de desenvolvimento pessoal, além do profissional. Todo estudo tem que fazer com que a gente aprimore uma habilidade que já tem ou que quer conquistar, tem que dar autonomia para o estudante e tem que dar a segurança necessária para que ele consiga se colocar no papel que escolheu desempenhar. Mas essa segurança, essa autonomia deve levá-lo a fazer mais do que os artistas que são sua inspiração ou até mesmo a negá-los, buscando uma nova maneira de se expressar (que dialoga, claro, com o que já passou). Acho que vem daí o meu interesse por jazz. Cada artista, nesse movimento de interpretar a música, precisa dar um pouco de si, criar frases inesperadas, entonações que revelam o seu modo de expressar a sua voz, a sua leitura daquele conjunto de notas que está cantando/tocando.

No caso do repertório, a música ao vivo já foi esse ambiente que a gente visitava para conhecer novas músicas. Atualmente, a internet faz esse trabalho de apresentação. No entanto, se a gente continua fazendo as mesmas músicas, com a intenção de agradar o público – e, em muitos casos, tem dado certo –, alguma ponta tem ficado perdida nesse contexto, não?

É evidente que não se pode falar mais em cena, nisso eu concordo com o Thiago França (aliás, acompanhem o podcast do Thiago França sobre música, o SABE SOM?, aliás acompanhem o trabalho do Thiago França). Há uma cena múltipla que congrega músicos de estilos muito diferentes, nesse caso, me refiro às cenas autorais que tenho acompanhado aqui no Brasil. Porém, no que diz respeito à musica ao vivo, mesmo com seus projetos autorais, os músicos ainda precisam recorrer ao cover para sobreviver, porque-é-isso-que-o-povo-quer-ouvir. Ouvir as coisas de sempre (concordo aqui com o músico Kiko Dinucci, no mesmo podcast), significa retomar as ideias de sempre, votar nas pessoas de sempre e nunca mudar a nossa realidade.

Já pensei que esse saudosismo deve ser falta de formação musical das pessoas (e me incluo aqui), que não estão acostumadas a ouvir músicas novas. E sei que é irresponsável sugerir que os músicos comecem a batalhar para só tocar autoral, porque eu sei que eles dependem do cover para pagar contas, se alimentar e investir em seus projetos autorais. Agora, estou trabalhando com a hipótese de que a música ao vivo acabou, ficou cristalizada num tempo que não existe mais; é preciso reinventar o show ao vivo, pois o público está mais interessado em seu celular e só vai ouvir você se a música for conhecida dele; mas temo estar sendo muito intempestiva –embora tenha usado essa ideia como título por fins sensacionalistas. De todo modo, se você tiver alguma ideia melhor, comente aqui.

Eu sempre me ressenti do fato de que as pessoas se afastam de nós, quando se formam, se casam, mudam de cidade e levam com elas partes nossas, deixando a gente numa espécie de vácuo identitário, já que, uma boa parte de nossa suposta identidade tem a ver com as pessoas com quem convivemos, e é por isso que nos sentimos mal, quando estamos num grupo que nada tem a ver com os nossos interesses (e isso tem tudo a ver com a minha pesquisa, pai do céu). Mas, retomar uma amizade que ficou abandonada, junto às despedidas naturais da vida, foi uma forma de entender que, por mais difícil que seja ver o tempo se esgarçando diante de nós, sem que a gente tenha nada o que fazer para evitar isso, isso é, também, a coisa mais bonita que pode nos acontecer. Rever um amigo que ficou lá atrás, com aquela imagem de você que sequer existe mais, faz com que você mesma dê de cara com a pessoa que você era e que não é mais. Por mais que você identifique as mudanças, nada é tão intenso, quanto se enxergar em um lugar que não mais ocupa e perceber que não cabe mais nele. Envelhecer é barra. É lidar com mudanças que se alojaram em você há muito tempo, mas que, num dia, começam a aparecer de modo indelével. E você, que sempre as evitou, sempre preferiu fingir que não as enxergava, de repente, precisa lidar com elas, conversar com elas, criar uma intimidade que ainda não há. É muito mais do que não conseguir mais entrar no jeans velho e surrado que você amava. É perceber que você sequer gostaria de entrar nele, porque não faz mais sentido. E isso é bom. Nesse momento, eu fico muito agradecida pelas pessoas com quem convivi ao longo da vida, e por elas não terem ficado. Em algum momento, a gente se cruza, se reencontra, se reconhece e cria novos laços. Ou não. Não tem necessidade de fazer planos.

Eu voltava do almoço, entrei no meu prédio e notei que um pequeno lagarto, um calango, acho, rastejava junto comigo até a porta de entrada do térreo. Enquanto eu abria essa porta, ele se esgueirou por baixo dela e conseguiu entrar no prédio antes mesmo que eu girasse a chave. Olhei pelo vidro da porta e lá estava ele paralisado, como se me esperasse para que continuássemos a corrida. 

No momento, estou aqui do lado de fora, na garagem, esperando que ele saia, pois receio que, se eu abrir a porta e entrar, ele vai me seguir até o apartamento. Há também a possibilidade de que ele saia, assim que perceber que a porta está aberta, vindo, portanto, em direção a mim. Como todas as alternativas me parecem terríveis, estou, assim como ele, paralisada, esperando que por mágica o bicho desapareça e a normalidade seja restaurada.

Ainda bem que o sinal de internet chega até aqui.

Alguém começou a seguir meu blog antes de ontem e é estranho que alguém encontre esse espaço tão abandonado, tão cheio de poeira virtual. Mas preciso agradecer essa pessoa, pois, não fosse ela, não estaria aqui agora e, provavelmente, não teria descoberto algo novo sobre mim, a essa altura da vida. Acessei o blog e li algumas linhas de textos que escrevi em virtude de fatos que se passaram comigo. Queria, de algum modo, registrar a experiência, relatar para mim mesma, um eu futuro, como eu me senti em momentos específicos. Relendo-os, fiquei boquiaberta ao dar conta de que mal me lembro deles. Não reconheci determinados trechos, escritos de modo que apenas eu compreendesse e sequer consegui encontrá-los na memória das sensações. E eu que achava que era muito mais presa ao passado; achava mesmo que era o tipo de pessoa que tenta irremediavelmente retornar às primeiras impressões, que jamais sairia delas, como se elas fossem as últimas fontes de alegria a corroer o estio que antecipa as novas impressões.

Que seja para melhorar

Bacurau já está sendo considerado um western e, apesar da referência ao cinema americano ter sentido, o filme consegue o feito de não merecer a comparação. Ainda que tenha elementos que poderiam caracterizar o estilo, Bacurau tem uma linguagem própria, criada a partir da intenção de não representar o nordestino de modo caricato e, portanto, revoga para si o direito de construir a sua própria estética.

O filme se passa no futuro em relação ao que vivemos em 2019. Bacurau é um povoado que vive enfrentando a escassez de água e comida. As únicas empresas que parecem ter algum sucesso no local são as de bebidas alcóolicas, a prostituição e o comércio de caixões. A morte é personagem que está sempre na tela, desde o início, quando acontece o velório de uma das matriarcas da cidade, até o fim, quando vencem o inimigo.

Há, nos cidadãos de Bacurau, uma união proveniente da miséria e de uma certa consciência de que só é possível continuar vivendo, se houver essa união. A sociedade é horizontal e, portanto, estão todos no mesmo barco, lutando lado a lado pela sobrevivência. Não se diferencia médico de motorista, nem professor de prostituta. E sequer há personagens mais relevantes do que outros, embora alguns nomes se destaquem e fiquem na memória, caso de Lunga (o guerrilheiro andrógino) e Domingas (a médica bêbada e, talvez por isso, corajosa).

Quando atacado, o povo de Bacurau responde com a mesma violência com a qual são atingidos. Na verdade, as cenas em que eles enfrentam os americanos que os querem exterminar são as mais brutais (e catárticas) de todo o filme. As armas que Bacurau utiliza são as que ficam expostas no museu, isto é, a resistência está na história desse povoado que aprendeu que é só desta forma que se permanece vivo.

O fato de que em um lugar arrasado pela falta de suprimentos básicos ainda exista um museu é uma evidência de que, infelizmente, é preciso lembrar para que ninguém esqueça como se vence o inimigo. Por isso, na entrada da cidade está escrito “Bacurau – se for vá na paz”, dizeres que indicam um povoado pacífico, mas cuja condicional ressoa como um aviso àqueles que não conhecem a fibra de quem vive no local.

A brutalidade com que Bacurau encara o oponente é a grande sacada do roteiro. Só há uma forma de resistir: sendo pior do que aquele que nos oprime; porém, nesse enfrentamento, corre-se o risco de se tornar igual ou pior do que ele. Preço que se paga, quando se quer a paz a qualquer preço ou quando se busca sobreviver. Num cenário em que se mata ou se morre a resposta para esse paradoxo vem da canção “Réquiem Para Matraga”, de Geraldo Vandré, trilha do filme: “Se alguém tem que morrer/ Que seja pra melhorar”.

Inventar a vida

<Mario
muito obrigada
Saudades
Tarsila>

Achei divertido ver uma obra feita em agradecimento a um amigo na exposição da Tarsila. Daí lembrei que a única música que eu escrevi, no meio de tantos rascunhos, alguns imprestáveis, foi pensando em um amigo. Escrevi coisas que não sei se diria a ele, mas graças a essa necessidade de ter o que dizer eu inventei um diálogo entre nós e, graças a essa invenção, com um pé na realidade, um pé na imaginação, a música saiu.

A minha grande dificuldade para escrever músicas, muitas vezes, é dar conta de inventar algo, tirar o pé da realidade. A imaginação é um esforço maior, requer uma habilidade muito maior do que a reflexão sobre a realidade.

(E acho que, no contexto em que vivemos, temos falhado nas duas coisas.)

Sinônimos e pincéis de maquiagem

A coisa que eu mais gosto sobre maquiagem é que não dura para sempre. É muita liberdade isso de mudar uma coisa ou outra na própria aparência e depois voltar ao seu rosto original.

Meus conhecimentos nessa área são modestos. Basicamente, sei preparar pele, aplicar base, fazer um contorno bem simples, passar batom. Sei aplicar o rímel muito bem, preciso admitir. Delinear porcamente. Sombra é uma coisa que não me entra na cabeça, digo no olho; nunca manjei a aplicação. Corretivo é sinônimo de dignidade para mim. Fecho tudo com pó. Só.

Minha vontade sempre foi ter dinheiro pra poder ter uma pele bonita e nunca precisar me maquiar. Nisso, a gente já entende que confunde maquiagem com beleza, como se fosse ela a responsável por nos tornar apresentáveis para o mundo. E isso é um horror, claro. Esses dias, fiquei acompanhando uma pessoa de que gosto muito fazendo tratamentos estéticos e me dei conta de uma coisa: tentar rejuvenescer é a coisa mais patética do mundo.

Trata-se de uma mulher muito bonita. Vi uma foto dela, após uma sessão não sei de quê e fiquei amedrontada. É preciso considerar que ela havia acabado de fazer o tratamento, claro, mas a pele estava toda esticada e estranhamente jovem. Jovem de um jeito falso, plástico – acho que essa é a palavra.

Eu sei que envelhecer não é nada fácil, sobretudo para a mulher (muito embora, acho que a gente pensa mais nisso do que os homens e, nesse caso, acaba conseguindo lidar melhor com o inevitável). Me vejo tendo crises em situações nas quais meu corpo não responde da maneira com que sempre respondeu. Antigamente, eu era a menina sedentária que, ainda assim, conseguia escalar árvores, era mais flexível do que a média. No ballet, era a única que abria um spacat. Mais recentemente, me tornei a tia sedentária que tentou fazer aulas de circo e sequer deu conta de subir no tecido.

Gosto de saber que meu rosto mudou, porque, inclusive, eu mudei. Seria estranho ver o rosto da Bruna de antes como porta voz de uma Bruna totalmente diferente, que é a de hoje. Gosto, também, de saber que a de amanhã vai ter outras nuances que, hoje, não existem. Quando quero me ver um pouco diferente, recorro à maquiagem. Ainda que use sempre a mesma maquiagem.

Se eu vou continuar pensando assim nos próximos anos, não sei. Por ora, continuo achando mais bonitas as mulheres que têm a cara da idade que têm. O que não significa, é claro, que não aprecio quando me dizem que pareço mais jovem do que sou. Lá no íntimo, acho que dizem isso como sinônimo de que sou bonita e não porque de fato me vêem mais jovem. Não sei quem inventou que juventude é sinônimo de beleza. Sugiro que parem com isso.