O acaso e a covardia

Já faz tempo que passei a achar o acaso bem mais interessante do que a história do “destino”. Digam o que quiser, mas eu acredito muito mais na casualidade do que na destinação. Nem por isso, a vida fica menos interessante. O fato de estarmos sujeitos a uma série de acidentes – que irão nos levar ou não a algum lugar – só faz com que a gente deixe de esperar que as coisas caiam do céu e que consigamos aceitar a vida como ela é.

Vejam o que me aconteceu um dia desses. Eu e mais dois amigos, a Alexandra e o Marcos, decidimos dar uma força para o pessoal da Síria que veio se refugiar aqui em Rio Preto. Nossa ideia era ir até a igreja que está recolhendo doações para saber o que eles estão precisando. Roupas, comida, aulas de português, coisas do tipo. Faríamos uma lista e, depois, tentaríamos providenciar os itens. Só que, quando chegamos lá, descobrimos que o que mais está fazendo falta é de “braço” para ajudar a organizar o que já foi doado. De fato, vimos que tinha muita doação e pouca gente para dar conta do recado.

Chamados à missão, passamos a tarde separando e dobrando roupas. Observamos que muitas delas eram colocadas numa caixa com a inscrição “dispensadas”. O motivo é que muitas não estavam em condições de serem doadas. Tinham rasgos, manchas ou outros defeitos. Me ocorreu perguntar para onde é que iriam aquelas peças “sem serventia”. A Alexandra, tomada pelo mesmo sentimento que o meu, não só perguntou, como conseguiu que separássemos algumas delas para nós. Ninguém soube nos dizer o que seria feito delas, mas a mulher que nos deu a informação mencionou que, possivelmente, seriam incineradas (um arrepio percorre a espinha).

Se acreditasse nessa lorota de que “tudo está escrito”, eu diria que a nossa vontade de ajudar as pessoas teria como resultado o início de algo que quero muito fazer, que é trabalhar com upcycling. Porém seria o mesmo que dizer que esta guerra escrota horrível existe para me beneficiar. Eu não suportaria viver com isso. Mas, posso dizer que o acaso tem um jeito curioso de me forçar a começar as coisas.

Eu vinha desistindo dessa história de upcycling. Estou com uma certa “preguiça” da moda. Para não dizer raiva mesmo. Mas, preciso admitir que ter em minhas mãos cerca de 30 peças que iriam para o lixo – ou pior que iriam ser incineradas – me faz sorrir aquele sorriso de canto de boca, de quem está acumulando ideias. Por outro lado, me sinto completamente perdida. Eu não sei se tenho condições de fazer isso. Eu não sei se tenho competência. Aliás, depois de colecionar tantas frustrações profissionais, eu, que sempre me arrisquei, estou começando a achar que a idade está me deixando meio covarde. A idade ou a vida. Ou as duas.

Engraçado é que eu não paro de pensar nas caixas e mais caixas de roupas “dispensadas” que eu deixei por lá e estou morrendo de medo de pensar no que fazer com a que está bem aqui. Há poucos passos de mim.

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