Desenhando pausas

As coisas que de fato importam são feitas de pausas. O Drummond achou que a vida necessita delas. Eu, com todo o respeito que tenho a ele, acho mesmo é que as pausas já estão ali. A gente é que não lhes dá o devido valor.

Em tempos de WhatsApp, os grupos acabam sendo uma maneira de não se deixar engolir pelas pausas e pelo silêncio. A ideia é estar em contato, independentemente da necessidade ou da relevância da conversa. Os amigos estão sempre ali. A família e os colegas de trabalho, também. Na época em que trabalhava em empresa, o meu WhatsApp até parecia refúgio para alguns clientes que, olha, não sabiam aproveitar uma das melhores pausas: o fim de semana.

Ultimamente, eu tenho experimentado a ideia do vazio e muito tenho aprendido com ela. Com a dança contemporânea, estou tendo que aprender a lidar com espaços que preciso encontrar no corpo para a realização de alguns movimentos. Se rolar no chão é simples, tente fazer isso sem tirar as mãos e os pés do chão. Sincronizar esses movimentos requer que você conheça alguns espaços de fuga do corpo, os quais geralmente ignora, porque nunca se aproveitou deles como deveria. Nas aulas de desenho, o professor insiste para que eu desenhe os espaços vazios, que eu aprenda a enxergá-los na composição. O lance é olhar para o objeto, observar as formas que surgem dos espaços vazios e desenhá-las, pois também existem formas naquilo que não está lá. Na música, as pausas são indiscutivelmente essenciais e vêm na forma de silêncio. Não existe o som, se não existir o silêncio, e ao aprender a ouvir a canção como um todo, você aprende a ouvir o silêncio, passa a reconhecê-lo e identificar os movimentos que o som é capaz de criar.

As pausas também podem ser dolorosas, mas acho que a vantagem de se acostumar com elas é que você sempre as espera, de uma forma ou de outra. O Adorno diz que a descontinuidade pode ser insuportável para quem não consegue enxergar o todo – e as pausas fazem parte dele. O que significa que também é importante perceber quando sua vida está num momento desses de pausa. As pessoas falam sempre sobre buscar a felicidade, como se isso fosse um movimento para fora. Sair e ver o mundo, o que parece naturalmente bom, mas também perdem por não observar as pausas.

Encontrei, recentemente, uma citação do Kafka que, de certa maneira, tem a ver com o assunto:

Não é necessário sair de casa.

Permaneça em sua mesa e ouça.

Não apenas ouça, mas espere.

Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.

Então o mundo se apresentará desmascarado.

Em êxtase, se desdobrará sobre os seus pés.

 

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4 comentários sobre “Desenhando pausas

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