Indicação de leitura

Muito de minhas memórias da infância se resumem a uma manta que usei nos primeiros minutos de vida e que foi feita pela minha mãe. Nossos brinquedos, meus e de minhas irmãs, e nossas roupas de criança foram doadas. Menos a manta e outros itens que minha mãe considera de valor sentimental. Aprisionada naquela manta estão os primeiros vestígios da minha existência e o índice dos cuidados de minha mãe sobre mim, já que eu iria nascer nos primeiros dias de maio, os quais costumavam ser mais frios e, portanto, mais agressivos para um bebê.

As relações que criamos com os objetos que nos cercam são bem mais complexas do que gostamos de admitir. Quando a minha avó faleceu, fui até a sua casa e abri o guarda-roupa dela como se eu pudesse encontrá-la ali. E ela realmente estava ali. O cheiro, o zelo, os tecidos destruídos pelo tempo (o tempo de vida de minha avó), os detalhes que ela gostava de acentuar, como bordados e aplicações, eram a minha memória de minha avó. Eram os rastros dela por este mundo.

Percebo que, de tempos em tempos, escolho um item de vestuário como favorito e tento usá-lo de maneiras diferentes por algum tempo, até que as alternativas se esgotam e eu passe a escolher outro item e a adotar ideias semelhantes para o uso. Há a questão do fetiche, quando somos aprisionados pela ideia do consumo – e pelos objetos somos consumidos -, mas há também, a questão da memória que permanece nos objetos. As roupas permanecem neste mundo por mais tempo do que nós e são lastros da nossa existência.

É sobre as roupas, sua memória, sua importância para a vida em sociedade e para consumação de nossa identidade que se trata o livro “O casaco de Marx”.

Foto: The cactus tree

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