Andrea

Encontrei Andrea por acaso. Não tinha um motivo sequer para a gente se conhecer. Ela, completamente envolvida pelo trabalho. Eu, me escondendo em ideias. O mesmo acaso nos distanciou.

Andrea foi a pessoa mais firme que conheci, mas também a mais dócil. Sabia ser um misto de mãe e irmã mais nova, sem que as personalidades se anulassem. Nas marcas do rosto dela dava para ver toda uma vida se passando; dava para ver que não tinha sido fácil. Era mais velha do que eu, mas se alguém olhasse de relance, poderia achar que nem tinha tanta diferença de idade. Eu admirava o fato de ela conservar aquela juventude de quem não tem escolha e tenta cultivar umas poucas alegrias.

Dificilmente comia. Seu dia era sustentado por Coca-Cola, cigarros e, de vez em quando, paçoca. Sempre tinha alguém disposto a buscar um desses três itens para que ela não morresse de fome, embora, lá no fundo, a gente duvidava de que alguma coisa a matasse.

Nunca desistia das pessoas. De ensiná-las, de estar com elas, de ouvi-las. Eu jamais teria aquela paciência. Conversar com Andrea era receber uma lição de vida atrás da outra, mesmo que nem sempre eu concordasse com o que dizia. “A escola é o melhor lugar do mundo.”, “Mas, o que você acha que essas crianças faziam antes do Bolsa Família? Pediam esmola.”, “Você precisa fazer todo um teatro para discutir com alguém.”.

A única vez em que discutimos, eu me exaltei. Com excessão de discussões com familiares, não me lembro de gritar com mais ninguém. Mas, talvez por considerá-la demais, com ela eu gritei. No dia seguinte, me pediu desculpas e disse ter passado a noite inteira se lembrando dos meus olhos, durante a briga. Andrea não sabe, mas até hoje pego ônibus pensando em nossas conversas. No quanto ela botava fé que eu seria muito feliz.

Foi mais ou menos isso que ela disse em nossa última conversa, a única que tivemos por telefone. É curioso, porque sou capaz de lembrar de conversas inteiras que tivemos no caminho de volta para casa, durante todo o tempo em que convivemos, mas, da última, só me lembro do tom empolgado por considerar que as coisas estariam melhorando para nós. Acho que era isso.

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