As coisas que não falamos

Ultimamente, sempre que vou vestir uma roupa, lembro de minha mãe, em nosso último encontro, apalpando-me as gorduras que até ontem não existiam e me dando motivos para que eu nunca queira estar em família. O motivo da lembrança tem duas vias. De primeiro, quase nenhuma roupa me serve mais, depois de 10 quilos respeitosamente conquistados em coisa de 3 anos de muita liberdade gastronômica, cervejas e, temo, a troca da pílula anticoncepcional. De segundo, todas as coisas que eu poderia ter dito para ser deixada em paz, mas não disse porque ia evidenciar que o incômodo é mais comigo do que com a minha progenitora.

Mas, esse texto não tem a ver com as minhas frustrações com o fato de eu ter engordado e estar envelhecendo e as duas coisas, que muito se relacionam, estarem perturbando a minha vida só pela atenção babaca que eu dou a elas. Esse texto tem a ver com o dia em que meu marido e eu esquecemos de alimentar o Joaquim (pelo menos ele começa assim). Na verdade, esquecemos a última refeição dele, que costuma ser dada à noite. Eu achei que, como de costume, meu marido o alimentaria, e ele achou que eu o faria, já que chegaria mais tarde do trabalho. Só não falamos sobre isso. Tudo ficou naquele plano das coisas implícitas que, de tão óbvias, não merecem ser mencionadas.

Uma coreógrafa, cujo nome não me lembro, disse que a gente só se esquece daquilo que não é importante. Na dança, um movimento precisa dar origem a outro e fazer sentido para o dançarino. Senão, cada passo precisa ser decorado mecanicamente, de forma que a memória é forçada a reter a informação em um processo não natural. Por outro lado, quanto mais você repete um movimento, menos se dá conta dele. Esquecer uma coisa que é parte da rotina  – como no caso da refeição do Joaquim – faz a gente pensar que a repetição está sendo de uma constância assustadora.

Contei um fato sobre mim para uma amiga; uma dessas histórias que a gente guarda pela vida inteira. Um dado sobre o qual evito falar há muitos anos; tanto que achei que já nem tinha importância, praticamente não existia mais e que já tinha conseguido enterrar em algum lugar da memória cujo acesso não é constante e que, uma vez lá, as coisas tornam-se esquecidas. Mas me enganei. Algumas coisas são fortes o suficiente para mudar quem você pensa que é. E aquilo que você esquece também faz parte de você, esteja ou não consciente disso. Decidi falar a respeito, porque minha amiga fez uma análise sobre mim que achei completamente superficial. Quis mostrar a ela que há muito mais sobre as pessoas, do que a gente pode imaginar. Mesmo as pessoas que conhecemos bem. A gente cria pressupostos sobre os outros e acredita tanto neles, que depois tem a certeza de que entende o outro melhor do que ele mesmo. E, com isso, criamos também os interditos. Uma vez revelado o fato, ela desconversou, mudou de assunto e passou para outra pauta menos constrangedora. (Pensando bem, ainda bem mesmo que não disse nada para a minha mãe.)

Outro dia, esperava meu marido depois da aula de desenho e uma mulher sentou perto de mim. Sacou um cigarro da bolsa, isqueiro e começou a fumar olhando em minha direção. Sorriu, como se soubesse de algo que eu não sei. Não consegui precisar a idade dela, assim de cara, pois tinha a pele bastante marcada pelo tempo e, ao mesmo tempo, conservava uma jovialidade de quem há muito percebeu que nada é tão sério que não mereça uma boa gargalhada. Perguntou se eu era daqui. Disse que sim, embora não seja verdade; não tenho motivos para explicar minhas andanças para quem não conheço. Ela continuou, explicando que acabara de concluir algo de extrema importância e, por isso, pensava em deixar a cidade. Riu novamente e, quase que num reflexo, disse: “você é muito jovem”. Apagou o cigarro e foi embora.

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