Muito tempo livre

Dia desses, uma mulher, dentro do ônibus, sacou da bolsa um oloroso pão com mortadela e se levantou. Pensei em dizer a ela quais os riscos sanitários presentes no ato de tocar assentos de um circular ao final do dia e devolver a mão à comida. Porém, a despeito de minha percepção sobre a falta de cuidados com a saúde, a senhora se levantou com a intenção de entregar o lanche ao motorista, que o aceitou prontamente. Fiquei pensando, por alguns segundos, na generosidade da senhora em dispensar tempo na preparação de alimento para alguém de quem ninguém se lembra, mas, a verdade mesmo é que passei a maior parte do tempo criando uma narrativa sobre o fato que acabara de testemunhar. Fosse eu escritora, contaria sobre uma senhora que se apaixona por um galante motorista de ônibus, desses que esperam gentilmente a gente se sentar, antes de dar partida. Com a recusa dele aos seus mais sinceros sentimentos, ela inicia um sádico plano no qual colocaria pequenas doses de veneno na comida com que o presentearia constantemente e passaria os dias ruminando a morte que se avizinha, como se a sensação do luto por um amor não correspondido fosse saciado pela certeza da morte iminente.

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