O lado de dentro

Você escolhe um livro qualquer, se encaminha para um quarto isolado, fecha a porta e por lá fica. Muitas horas se passam, talvez até dias (nada verossímil, mas para o entendimento da situação descrita, é totalmente válido) e alguém, não se sabe se por acaso ou por sacanagem, tranca a porta. Você não se dá conta disso, afinal, está lá há tanto tempo e tão concentrado na leitura, que a existência da porta não faz muita diferença. Nem se lembra dela. Mas, em algum momento, o livro acaba. Ou você simplesmente se cansa dele e decide se levantar e ver o que o espera do lado de fora. Fora. Fazia tempo que não olhava para fora. Só então percebe que a porta está trancada. Aquele segundo de desespero. Será que está trancada mesmo? Força a maçaneta e nada. Grita para um possível passante e nada. O desespero começa a dominar as suas células (você sente o desespero se espalhando pelo corpo, aquecendo-o). Esmurra a porta, chuta (como se isso pudesse de alguma forma resolver o problema e, no caso, resolve o problema da raiva que se inicia), tenta de todas as formas fazer com que a maçaneta “funcione”. Nada. Você passa algumas horas em transtorno absoluto e se questionando. Como é que não percebeu que alguém trancara a porta? Como pôde se manter tão absorto na leitura do livro sem saber que ele o levava para a prisão mais inesperada? E quem o trancafiaria? Passam-se as horas e, com a lentidão, aumenta-se a espera. Seu único consolo? O livro. Justo ele, que o levara para o cárcere. Lê umas poucas palavras para tentar esquecer a delonga. E quando finalmente se vê livre (e quem o liberta surge pelo mesmo acaso daquele que o aprisionou), já não sabe mais como experimentar o lado de fora.

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