Atropelo

Se tem um fato sobre a minha vida que sempre defenderei até o último momento, é que o sinal estava fechado para os veículos naquela fatídica manhã de sol, em que eu iria começar um novo emprego. Eu observei o semáforo, caminhei rapidamente e até penso que dei aquela corridinha para chegar logo até o outro lado. Eu tinha o que se pode chamar de um caminho favorável, antes de sentir o choque.

Felizmente, não há um só fato que justifique o que a gente é. Do contrário, ainda seria alguém que atravessava a rua, quando foi atingida por um veículo qualquer. Mas, admito que pensei e repensei aquele acontecimento algumas vezes. Nada deprimente. Só uma certa obsessão pelos fatos e não é por acaso que sempre relate-os da mesma maneira, independentemente da forma com que as pessoas me perguntem.

 O choque em si – eu prefiro chamá-lo de choque, porque parece menos traumático – deve ter levado uns poucos segundos. O que veio depois durou muito mais tempo e, quando fecho os olhos e me concentro, ainda me vejo naquela maca ou sabe-se-lá-deus o nome daquilo em que a gente fica, quando se machuca e vai parar na emergência. Pior do que qualquer ferimento, é não poder levantar. E pior do que não poder levantar é a sua mãe dizendo que se você se mexer, pode ficar com alguma sequela.

(Corta para os dias em que fiquei em casa, curtindo um repouso fajuto. O medo de ter tido, de fato, alguma sequela. O pavor de ter se esquecido de coisas pequenas, quando na verdade você se confundiu dado o excesso de drogas, que os médicos receitaram. A sensação de que os seus músculos jamais esquecerão a pancada – pancada é mais agressivo, desculpe.)

Eu quis chorar, mas quando comecei, me disseram para parar. Eu acho que as pessoas não lidam bem com quem chora, mesmo em situações nas quais você só pode mesmo é chorar. A verdade é que antes de começar a chorar, eu me levantei, bati a poeira da roupa e olhei para os lados procurando os documentos que precisava levar para ser registrada – eu falei que aquele era o primeiro dia numa nova empresa? Alguém me disse “melhor você se deitar, moça”, eu já ia dizer que não era nada e que eu precisava ir. Aí veio o sangue.

Teve um dado muito engraçado nessa história toda. Aliás, foram dois. Enquanto a médica costurava o ferimento e conversava amenidades comigo, ela acabou se cortando. Por isso, tive de fazer, assim de improviso, os exames de HIV e de hepatite. Depois do resultado, ouvi minha mãe gritando no corredor para o meu pai: “ô bem, deu negativo”. Mas, antes disso, algo ainda mais engraçado. Algo que meu marido sempre conta para as pessoas e sempre me faz corar. Eu estava deitada naquela maca e devia ser a maca mais dura do mundo. A minha coluna não suportava mais aquilo e como ainda ia demorar para o médico me liberar da imobilização eu gritei. Gritei várias vezes. Gritei por socorro e disse que não ficaria mais nenhum minuto ali. É.

(Ah, mas teve o dado ruim da história toda, que não é só o fato em si, porque isso até que foi fácil de lidar. Se eu puder escolher o pior momento, foi o meu primeiro banho. E aqui, se me permitem, reservo-me o direito de não comentar a respeito.)

Aquela manhã todo mundo acordou feliz em casa. Meus pais, minhas irmãs e eu. Todo mundo queria me dar carona e eu não aceitei (talvez por isso não consiga mais recusar quando me oferecem). Eu queria fazer o caminho sozinha. Tinha dessas coisas de não depender de ninguém. Só um susto desses pra esfregar na nossa cara a própria fragilidade. Eu lembro desses fatos e penso que eu nem sou mais aquela menina, atravessando sozinha a rua e achando que estava começando a vida, daquela vez, com o pé direito. Eu penso também que, se tiver uma verdade sobre mim que seja preciso defender é que o sinal estava fechado para os carros, quando atravessei a rua, naquela fatídica manhã de sol.

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