Episódica

Já perdi o sono por causa de uma canção que ficou palpitando na mente, feito um latejo. Por isso, inventei uma regra. Dessas que a gente leva para toda a vida e indica para os amigos com aquele ar de fajuta sabedoria: nunca misturar os momentos e as pessoas com música.

Explico. As músicas têm esse poder de fazer a gente se lembrar do que não deveria. As lembranças, danadas que são, insistem em retornar por meio das notas. Quando a cadência  se encontra com o córtex auditivo, você se lembra do que achava nem existir mais. Basta ouvir a música, reconhecer a harmonia, que o seu cérebro irá ativar, de forma muito sofisticada, detalhes que passaram rapidamente pelos sentidos e ficaram naquela parte da memória que a gente chama de esquecimento. E a piada de mal gosto é que, uma vez reconhecidas, essas memórias se manifestarão constantemente.

O cheiro da pele, o gosto do cigarro (cujas cinzas você via caindo pelo lençol, de vez em quando), o suor compartilhado, o gesto grave no meio da piada mais sacana, as palavras ditas em tom de súplica (um poeta diria que soariam bêbadas, sinceras e urgentes). Se lembra até de como era fácil tirar a roupa – um gesto mecânico desse, se torna meio que um ritual em alguns momentos -, olhar o teto e falar do que nem tem importância.

Chego a pensar que tudo o que devíamos esquecer – e que de fato esquecemos – fica preso à tessitura das canções que se misturam com os momentos e as pessoas. Não cometa esse erro.

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