No terminal

A vantagem (e muitas vezes a desvantagem) de conhecer pessoas que escrevem é que elas podem pedir que você leia o que elas pretendem publicar. Um dia desses, cruzei com um desses sujeitos. Me estendeu um pacote com vários poemas impressos e disse para eu devolver quando quisesse.

Guardei-os, subi no ônibus com R$3 nas mãos (não sei quanto custa a tarifa, mas não pode ser mais do que R$3) e fui até o terminal, já totalmente esquecida da minha missão que se materializava no pacote dentro da mochila. Chegando lá, sentei à espera do próximo ônibus.

Uma mulher sentou ao meu lado. Estava com uma criança e, penso eu, decidiu-se por aquele lugar por achar que uma moça jovem não ofereceria perigo e ainda se afeiçoaria da pequena. (A gente nunca deveria subestimar os riscos de  se sentar perto de uma moça jovem. Ainda mais se ela escreve.) Um dado bem ruim a meu respeito, é que nunca soube lidar muito bem com crianças. Considero até uma falha de caráter. Não é que as odeie, nem mesmo que não as suporte. É só que não consigo acompanhar-lhes o ritmo. Para evitar algum tipo de aproximação, passei a conversar com os amigos no celular.

Durante a conversa, lembrei dos poemas. Antes de pegá-los, chequei o horário do ônibus. Eram 19h12 e o próximo só passaria às 20h20. Após praguejar o azar de ter chegado tarde ao terminal, achei que seria o momento ideal para ler. Olhei para o primeiro poema, folheei as páginas todas. Todos datados e em uma aparente ordem. Dei uma olhada nos títulos. Olhei para a frente e vi a viatura policial parando diante de um sujeito que fumava na parte aberta do terminal. Possivelmente, foram avisá-lo de que ele não deveria fumar ali. Eu não sei qual o problema de as pessoas fumarem na parte aberta do terminal. Sei que existe a lei, mas ali não incomoda ninguém.

Quando voltava para os poemas e pretendia me concentrar neles, um rapaz passou oferecendo doces. Agradeci. Notei que havia uma dedicatória em um dos poemas, o que fez com que eu me interessasse por começar a leitura pelo poema em questão. Não sei o que faz as pessoas dedicarem seu trabalho a alguém, já que ele tem muito mais a ver com quem o fez, do que com quem é o dedicado. Atrás de mim sentou um casal apaixonado. Digo isso, porque pareciam estar naquela fase de amor novo, em que a gente não consegue ficar sem tocar a pessoa e que qualquer conversa merece uma aproximação curiosa dos rostos.

Ao mesmo tempo, uma senhora de cabelos grisalhos sentou ao meu lado com cara de poucos amigos. Peguei o celular para verificar o horário. 19h24. Li o primeiro poema do pacote e pensei que ele poderia ter sido escrito naquele minuto. Tinha uns dois versos sobre adeus em uma estação.

– Qual ônibus você está esperando – perguntou a senhora ao meu lado.

– Murchid. E a senhora?

– Soraia.

Voltei para a leitura, não sem antes perceber que um ônibus encostava. De dentro dele saiu uma dessas mulheres, que a gente não consegue evitar olhar. Atravessou a plataforma, como se desfilasse e desapareceu no meio da multidão. A mulher com a criança voltou. Nem tinha percebido que ela não estava mais ali. A senhora ao meu lado estava impaciente pela demora. Até que um ônibus encostou.

– Senhora, aquele ali é o Soraia.

O problema de morar em um bairro pequeno é que a quantidade de transportes é sempre muito reduzida. No meu caso, esperar ônibus é sempre esse lance de ver todo mundo chegar e ir embora e o seu ônibus mesmo nunca vem. Tem os momentos divertidos também. Não é raro acontecer de todo mundo descer no mesmo ponto e sair do ônibus caminhando juntos. Foi assim que descobri alguns vizinhos. Teve um dia que uma moça entrou no prédio comigo, subiu as escadas ao meu lado e abriu a porta que fica na frente da minha. Eu nunca a tinha visto antes.

Mas, os poemas.

O último deles dizia alguma coisa sobre a gente achar que é livre. Não. Sobre a gente gostar de pensar que é livre. Pensei que já tinha lido aquele texto uma vez. Uma moça me perguntou se o Romano Calil costumava demorar muito para chegar.

– Não tanto quanto o Murchid.

– Você sabe se é só o Romano Calil que passa na frente do centro espírita? – me mostrou o endereço.

– Desculpa, mas não sei responder.

Nunca sei dar informação de nada, porque presto pouca atenção nas coisas. Mas escrevo sobre o que me chama a atenção ou o que, de alguma maneira, gostaria de guardar. As coisas estão sempre desaparecendo, esgarçando-se com o tempo.

As pessoas aparentemente escrevem sobre as coisas que vivem. Fiquei imaginando esse poeta amigo meu usando a vida como matéria para aqueles textos. As conversas que já teve com os amigos. As mulheres com as quais conviveu. Imaginei tudo isso se misturando e sendo transformado em palavras. Como era de se esperar, o ônibus da moça chegou e ela foi embora felicíssima, porque a chuva começava.

Na cidade em que vivo, chuva é sinônimo de alagamento. Sobretudo no terminal. Deixei os poemas de lado, devolvi-os à mochila e peguei meu caderno de anotações. Quando começava a escrever, o meu ônibus encostou.

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