O fim

Sempre tive problemas em terminar as coisas. Esse gesto generoso que a gente devia saber ter com a gente mesmo e com as pessoas que nos cercam. Por isso, nunca escreveria um romance. Jamais saberia terminar algo que, supostamente, deveria ser longo (mais de 50 páginas?) e com um final que deixasse as pessoas boquiabertas. Um medo absurdo de acabar caindo em lugares comuns que agradariam as pessoas, ou pior, acabar admitindo que não tenho qualquer esperança de que as coisas melhorem. O fim que você dá para as coisas pode evidenciar uma ou outra falha de caráter.

Os finais, porém, não precisam causar impacto. Na maior parte das vezes, na vida não é assim. Eles sempre são meio cheios de tédio e talvez de melancolia. Ah, de alívio, também. No início desse ano, estava eu numa esquina qualquer, quando um carro parou no semáforo. O motorista tinha uma expressão que variava entre a estafa e o transtorno. Observei que, embora estivesse sentado, ele tentava se levantar para pegar algo do bolso. Fez o sinal da cruz. Não havia igreja por ali nem cemitério que exigissem um gesto quase sempre tão mecânico quanto aquele. Imaginei que ele estivesse sacando uma arma do bolso. Pensei em correr de um tiro que viria em minha direção, mas esperei. Tirou do bolso um maço de cigarros e saiu, com o farol aberto para bem longe do final que havia esperado.

 

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