Fraquezas

Uma tarde, saiu para comprar cigarros. Sempre achou curiosa a ideia que se convencionou pensar por trás de uma simples saída para comprar cigarros. Sair para comprar cigarros pode significar, para alguns, abandonar tudo. Casa, família, amigos. Mas, em seu caso, só saiu com o único e exclusivo intuito de comprar cigarros, já que estavam acabando.

Pensou que não sabia como é que essa história entre o cigarro e o abandono havia começado. E também nunca procurou saber. Pensou que existe uma relação muito forte entre o cigarro e a liberdade. Aquela última oportunidade de transgredir e dizer um claro e sonoro foda-se para todo mundo. Ou mesmo de admitir a própria humanidade. Há sempre alguém para nos lembrar de que o cigarro pode fazer com que a vida acabe mais rápido. Engraçado. Não existe qualquer vantagem em morrer vagarosamente.

Lembrou que havia deixado de fumar, quando o conheceu. Ele não gostava de cigarros e ela começou a sentir palpitações sempre que subia a escada do prédio em que morava. Curiosamente, voltou a fumar um ou outro muito recentemente, quando começou a pensar em deixá-lo.

Mas o fato é que saiu para comprar cigarros numa tarde quente de outubro. Ainda havia dois cigarros no maço que estava na bolsa e decidiu fumá-los, enquanto esperava o ônibus. Todo fumante sabe: basta acender um, que o ônibus encosta. Foi o que fez. Pode ter sido Murphy ou só esse azar que a acompanha há tempos imemoriáveis, mas o ônibus continuou demorando a chegar.

É estranho pensar em deixar alguém de que você gosta. Mas, há sempre aquele ponto em que você não sabe mais se consegue suportar. Não se sabe bem se a rotina ou se a falta de interesse mútua. Mas continuar algo só pelo hábito não parece a melhor maneira de continuar existindo. E o casamento é o quê? Esse lugar em que as pessoas se mantêm infelizes? É continuar mesmo sabendo que vai ficar cada vez mais miserável e que a vida do outro, também?

Não existem respostas. Passe o tempo que passar, essas perguntas serão sempre retóricas. Já na tabacaria, ele mandou mensagem perguntando onde ela estava. Pensou em não responder e curtir aqueles minutos solitários (ou nem tanto: estava falando com o atendente). Então, viu uma pequena garrafa de whisky. Lembrou dele dizendo que estava com vontade de tomar whisky, mas que estava evitando comprar por causa da grana curta. Lembrou também que dali dois dias seria aniversário dele. Decidiu levar a garrafa. Pagou, assim como os cigarros, e saiu.

Pediu que ele a encontrasse num bar ali perto para conversarem. Poderia ser o início do fim. Sentou sozinha, pediu uma cerveja, depositou a garrafa de whisky sobre a mesa, ao lado de um livro que estava na bolsa e que leu enquanto estava no circular e do maço de cigarro. Começou a tocar Land, da Patti Smith. Sorriu. É sempre bom ouvir uma dessas cantoras que você tanto admira, ainda mais quando você está decidindo o que fazer com a vida. É quase como reencontrar uma velha amiga.

Viu quando ele chegou. Observou-o de longe e pensou que se não o deixasse ainda por aqueles dias, talvez ficassem juntos para sempre. A vida nunca fora insuportável ao seu lado e recomeçar – encontrar outra pessoa com quem ficar, casar e pensar novamente em abandonar – seria um tanto cansativo. E não estamos todos suportando a presença uns dos outros nesse mundo?

Guardou os cigarros na bolsa e pensou que poderia deixar para fumá-los um outro dia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s