A minha casa

Gosto muito da minha casa. Gosto como quem não costuma pensar no tanto que gosta, devido ao hábito e por sempre estar lá. Gosto como se fosse o único lugar em que tivesse estado durante toda a minha vida. Como se nunca dantes na história da minha vida capenga, tivesse existido outra casa.

Eu gosto que tudo nela que seja de sentar seja irremediavelmente fofo e confortável. O sofá e a poltrona, sim, mas as cadeiras que circundam a mesa também. Gosto que não haja excesso de quinquilharias decorativas, muito embora tenha livros, canetas e objetos aleatórios, como uma dançarina de flamenco e um bojudo boneco de neve, por todos os cantos. Gosto que os livros fiquem no chão, na beirada do sofá, sobre o rack, dentro dos armários e a gente nunca se acostume com a presença deles, sempre tenha de tirá-los do caminho para deitar ou para andar.

Gosto que tenha bebidas e garrafas vazias em lugares inapropriados, como o banheiro e a gaveta da sala. E também que haja espaço para o cachorro correr e nos fazer de bobos, mas não tanto espaço para receber mais do que 5 pessoas. Eu não tenho um milhão de amigos e os que tenho não são frequentadores assíduos.

Eu gosto que ela se localize numa rua tranquila, em que quase nunca passam carros ou pessoas. Gosto que as duas janelas – as únicas – fiquem defronte um outro prédio e que as únicas pessoas que me vêem caminhar seminua durante o dia sejam uns poucos vizinhos que, geralmente, não estão em casa, pelo menos é o que me dizem as janelas sempre cerradas.

Gosto das sacadas. Se bem que uma delas eu não visito há tempos, graças a um problema na maçaneta, que vou consertar por esses dias. Quando a outra está aberta, gosto de colocar uma cadeira nela, acender um cigarro e olhar para a rua, cujos transeuntes nunca vêm. Gosto de observar a fumaça passando entre as grades do parapeito da sacada.

Eu gosto tanto, mas tanto da minha casa, que tem dias em que eu preciso sair dela, como quem enjoa da roupa favorita, como quem precisa dar um tempo da sobremesa que come diariamente, como quem evita por uns tempos olhar para o espelho e encontrar os traços que o tempo marcou na própria face.

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