Roubando vidas

Quando me lembro de todos os grupos de amigos de que fiz parte na vida, desde os primórdios de minha existência como aluna, eu penso que era a menina da turma que escrevia. Mais escrevia do que lia, é verdade, apesar de que sempre me interessei pela leitura e não foi algo natural. Meu pai era professor, formado em Letras e cultivava uma pequena biblioteca em casa, local este em que também se localizavam meus brinquedos e discos de vinil do Elvis, que, por sua vez, foi o meu primeiro amor.

Mas, o lance é que eu escrevia. E quando me disseram que para escrever bem eu tinha que ler, comecei a me dedicar mais a essa atividade e, com ela, desenvolvi uma certa obsessão por livros. Por tê-los em casa. Em todos os cantos. Por alcançá-los sem precisar levantar, ir até outro cômodo e procurá-los.

Foi assim que eu descobri a biblioteca da minha avó. Ela sempre estivera ali na sala como um indicativo de que naquela casa moravam pessoas cultas e estudadas. Minha avó nunca abriu aqueles livros, penso eu, principalmente porque muitos deles eram de medicina – os outros filhos se formaram em odontologia e em psicologia, nada muito relevante para se ostentar; ao menos, não tanto quanto medicina.

Como encontrara um Oswald de Andrade aqui, um Euclides da Cunha acolá, comecei a pedir que me emprestasse os livros. Tinha toda a intenção de devolvê-los, mas sabe como é. Ela veio a falecer muito antes disso. Como eu sou a única da família que tem algum interesse neles, penso que são a minha herança, que já são meus por direito. Uma espécie de usucapião livreiro.

Aliás, eu vivo pegando livros emprestados. De absolutamente todo mundo. E sempre leio vários ao mesmo tempo, o que revela uma certa compulsão ou, no limite, uma falta de foco fodida. Eu juro que sempre penso em devolver os livros para as pessoas, mas nunca sei exatamente quando. Alguns eu termino de ler e deixo aqui para ler mais uma vez. Sempre parto do princípio de que o dono do livro virá me cobrar, caso precise dele. Assim, a minha consciência está sempre tranquila.

No início dessa semana, fiz a prova de proficiência, que é uma das etapas de aprovação para o mestrado (uma etapa meio esquizofrênica, mas estou muito atarefada para falar sobre isso agora). Como era permitido levar um dicionário, eu procurei o meu. Estava no fundo do armário, um belo exemplar editado pela Universidad de Salamanca, espanhol-espanhol, novinho em folha. Tentei me lembrar como é que eu o conseguira. Ah, sim, meu pai emprestou de alguém, para que eu pudesse fazer as lições na universidade, e jamais o devolvera.

P.S.: O título desse post é uma homenagem à Suzane Mesquista, que sempre se lembrava do filme Roubando Vidas, quando eu comentava a forma de aquisição dos meus livros.

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