A trajetória

Quando estava passando pelo processo seletivo para o Mestrado, perguntei ao Fernando como é que seria a entrevista. Entre outras informações, ele mencionou que poderiam perguntar sobre a minha trajetória. Fodeu, pensei. Achei que não seria de bom tom explicar que sempre gostei de literatura, mas nunca tive lá muito foco e no início pensei que estudaria poesia, depois fiz estágio sobre mitologia e astronomia, mas aí eu saí da universidade e trabalhei com coisas diversas e não muito relacionadas com o que havia estudado, comecei e parei publicidade, depois achei que deveria estudar moda e o fiz e agora poderia estar matando, roubando e me prostituindo, mas estou aqui pensando em estudar um autor que conheci aleatoriamente, quando escrevia um artigo para uma revista de moda.

“Ninguém pode avaliar a trajetória das pessoas”, disse o Fernando. E fez uma expressão de quem percebe muito rapidamente o equívoco nas próprias palavras. Porque se tem uma coisa que as pessoas fazem é avaliar a trajetória umas das outras e estabelecer paralelos com quem você é hoje e com o que faz. Engraçado é que na área de literatura pega muito mal se você fizer uma análise de uma obra considerando aspectos da biografia do autor. É evidente que as pessoas escrevem sobre coisas que viveram ou que puderam observar, mas os limites entre o que é real e o que é invenção não são assim tão definíveis. Além do mais, o que a pessoa viveu pouco importa diante dos efeitos e sentidos que o texto nos permite ler. Então, se você justificar a leitura do texto com algum dado sobre a vida do autor, vão torcer o nariz imediatamente.

Muito antes de eu escrever esse texto aqui, estava eu na fila para ver uma peça de teatro e não pude deixar de ouvir uma conversa de pessoas que, aparentemente, pertenciam à classe teatral da minha cidade. A peça era um monólogo com textos do Caio Fernando Abreu. Um dos caras atrás de mim perguntou: “quem é mesmo o Caio Fernando Abreu?”. O outro começou: “ah, ele era homossexual…”.

O Caio Fernando Abreu escreveu romances, contos, peças de teatro, ganhou Jabutis (embora eu nem me importe com esses prêmios, mas ele ganhou e ganhou mais de um) e a primeira coisa que as pessoas lembram sobre ele é que era homossexual. Nessas horas, vejo até uma certa beleza no fato de eu nunca ter sido boa em absolutamente nada. Nunca vou ter minha obra ofuscada por nenhum traço de minha nada emocionante biografia. Ninguém nunca vai dizer que Bruna Venancio deixou o ballet, quando conseguiu finalmente chegar ao segundo ano, porque tinha disciplinas do mestrado para fazer. Jamais veremos aquelas manchetes terríveis, como “O ballet perde fulano(a)”. Ninguém se lembrará daquele fatídico ano em que meus pais me tiraram às pressas de uma escola particular e me devolveram para a pública porque tive dificuldades com algumas matérias. Aliás, se eu abandonar o mestrado agora, as pessoas julgarão coerente com a falta de foco com que sempre levei a vida.

Fico até com alguma pena do Caio Fernando Abreu e de tantos outros autores, cuja memória não consegue descansar em paz, graças à sua trajetória. Tão talentosos e tão dedicados aos ofícios que escolheram. Nunca saberão o que é alguém ler um texto seu sem achar que você escreveu aquilo porque é homossexual, feminista, simpatizante das baleias do Ártico ou porque nunca encontrou nada mais interessante para fazer da vida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s