Não precisa gritar

Tem um não-dito na minha família que já senti na pele algumas vezes: a constatação de que eu, definitivamente, não bato muito bem. Sobretudo para coisas sensoriais. Se eu sentir cheiro de gás, por exemplo, a chance de ninguém acreditar em mim é enorme. O que eu faço? Nada. Eu espero a casa inteira explodir, mas não digo nada.

Antigamente, eu tinha o hábito de tentar convencer as pessoas de que eu estava certa. Posso me recordar, não sem algum constrangimento, das vezes em que disse em alto e bom som que eu NÃO SOU LOUCA. Mas, claro, nunca adiantou e até tornou a minha opinião menos crível. Dizer para as pessoas uma verdade que só você sabe, de forma agressiva, faz você não parecer confiável. Se você diz com veemência que não é louca, o interlocutor começa a achar que, sim, você é meio louca.

Isso me faz lembrar de uma teoria que venho testando sem muita pressa, sem muito método: a de que as pessoas dizem, quase sempre, o inverso das coisas que sentem. Quando alguém diz algo como “não estou nem aí para você” é possível que ela esteja, sim, muito aí para você. Do contrário, não diria nada. A pessoa finge uma indiferença que ela não sente na verdade.

Pode ser que não seja como você espera, claro. Talvez ela de fato não tenha os mesmos sentimentos de antigamente, nem te odeie, mas ao dizer isso ela espera que você sofra, que você se importe com o que ela sente, o que não tem nada a ver com a indiferença. Eu vejo as pessoas dizendo que não estão nem aí umas para as outras e rio. Eu rio e não digo nada, evidentemente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s