Apostasia

Numa tarde quente de domingo, por volta das 15h, deixou de sentir. Tomou o pulso, observou as batidas do peito, checou o rosto no espelho mais próximo e confirmou o diagnóstico.

Por um instante se surpreendeu com a volatilidade do tempo. Há dois dias, tinha derramado as últimas lágrimas sobre o travesseiro, um choro inexpressivo, sem lamento, prenúncio de fim de luto. No dia anterior, a véspera, achou que jamais se recuperaria do dano. Julgou-o insanável e quase assentiu com uma espécie de alegria aquiescente.

Mas, à tarde, não uma tarde qualquer; uma tarde de domingo, mais ou menos entre 15h, 15h30; percebeu o tórax aberto, como se a respiração lhe saísse facilmente depois de muito tempo. O rosto no seu melhor tom. Nada da vermelhidão costumeira dos momentos de inquietação, nem da palidez que denota a falta de viço dos que sofrem. Notou um sorriso que desconhecia, era novo. Imotivado, saía-lhe de não sei que parte, mas era leve, fácil. Estava livre. Era o último dia.

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