Silêncio, rotina etc

Há dias em que a tentativa de ler e de escrever, seja a trabalho, seja por prazer, reduz-se a isso: uma tentativa. Não importa se você faz isso todo dia e meio que já criou as próprias saídas para vencer as distrações. Tem dias que só servem pra gente esbarrar nas quinas do texto.

Por costume, tentamos assumir a culpa, mas em geral não há o que fazer. Neste momento, queria viver num mundo em que reformas não fossem necessárias e que o som da esmerilhadeira moendo o asfalto e a paciência fossem só recurso retórico.

Eu já me afeiçoei ao silêncio, o problema é esse. Tanto que o som do cigarro queimando tem sido a única forma possível de alegria. Agora, infelizmente, além do som da cidade sendo quebrada, escuto as conversas que vêm da rua, daqueles que estão colocando a mão na massa, literalmente. Na verdade, discussões. Nem isso. São brigas, reclamações de quem é forçado a conviver com o outro diariamente, de sol a sol. Nada mais irritante do que um colega de trabalho, aquele que é um espelho da sua derrota diária. Como se não bastasse o peso em suportar a rotina.

Outro dia – um menos barulhento do que esse –, o Joaquim – que agora late para aumentar o meu tormento – voltou do seu banho semanal, um dos passeios que ele mais gosta de fazer. Chegou, bebeu água, comeu, deitou no sofá. A respiração descompassada, parecia ofegante. Estava exausto de tanta alegria por fazer as coisas de sempre. As coisas de que ele mais gosta (talvez porque as únicas). O Joaquim dá um charme todo especial para o conceito de rotina.

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