A última vertigem

Um momento sozinha. Era só isso que queria, quando buscava um lugar para sentar. Encontrou um desses acentos como os que estão disponíveis em praças públicas, que garantem a solidão – parece sempre intrusivo sentar-se ao lado de um desconhecido em praças públicas – e o olhar panorâmico ao que acontece ao redor. Não era esse segundo caso. Queria o total isolamento, o silêncio absoluto.

Não passou muito tempo, porém. Ouviu passos pisoteando a grama das redondezas. Os passos pareciam se encaminhar até ela. Uma vez que o equilíbrio fora quebrado, olhou ao redor, buscando o responsável pelo fim do sossego. Visualizou a pelagem acinzentada, o focinho pequeno, os olhos alheios à presença de um observador. Mesmo sem saber qual seria o tamanho do perigo, correu.

Nos dias que seguiram, esquecera-se completamente do fato. Sobretudo da sensação de pânico e da consciência do vexame – da mesma forma que ela observara o animal, podia estar sendo observada e é sempre o outro o maior motivo para nos envergonhar. Tratava-se de um animal pequeno, poderia ser um furão ou um gambá. Não refletiu sobre a natureza do que lhe provocou medo. Sequer se lembrou disso, acostumada que estava a sufocar as lembranças ruins.

Viveu os próximos dias sem grandes novidades. Acordou cedo, quando tinha de acordar cedo. Tomou café, quando tinha de tomar café. Executou tarefas domésticas, quando tinha de as executar. Preparou o almoço, quando assim o deveria fazer. Contudo, num desses momentos de preparo, cortava mecanicamente os alimentos, os mesmos de todo o dia, quando, na metade deles, tomou um tamanho susto, que quase deixara a faca ir ao chão. Viu algum tipo de animal se esgueirando entre ela e a pia; visualizou a pelagem, mas, desta vez, não pode identificar a aparência.

Afastou-se da pia, como se isso a protegesse do perigo e, entendendo que não valeria a pena fugir – estava em casa –, optou por verificar o que a tinha assustado. Abaixou-se para ver debaixo da pia, mesmo que à distância. Nada. Não havia nada ali. Aproximou-se novamente meio consternada. Teria imaginado?

De início, a sensação de vertigem. Depois, com as tarefas diárias, a imagem se perdeu. Ela voltou ao movimento normal dos dias, com a rotina que estabelecera antes mesmo de pensar sobre ela. Nos primeiros dias, ainda sentiu a desconfiança rondar pela casa. Chamava aquilo de confusão – muito embora nada a tenha confundido, ela de fato vira algo –, mas não deu importância.

Porém, como nada desaparece, um novo dia chegou e mais um almoço seria preparado com atenção detida ao corte mecânico dos alimentos, os mesmos de todo dia. Enquanto se dividia entre cortar e pensar sobre nada, mais uma vez, viu. A mesma pelagem. O mesmo movimento sorrateiro de esgueirar-se entre ela e a pia.

Afastou-se, como se um choque lhe atingira, exasperada pelo auto-engano, sentiu a pulsação disparar, a respiração arfar, a vertigem lhe ocupar os olhos e fazer latejar a cabeça. Sufocou um grito que ninguém ouviria, comprimiu as pálpebras umedecidas, arrastou-se sem rumo, distanciando-se de um dado inexistente, invisível, mas registrado pelas retinas, apertou a faca em punho, a faca ainda estava em punho, pensou, a faca era a única certeza diante do que vira, mas que não existia, a faca a salvaria, a faca era a única maldita esperança, a faca despedaçaria o mal, rasgaria a pele, abriria a fenda, faria jorrar o sangue, a faca cravada no peito poria fim à agonia, restituiria a solidão.

Abaixou-se para dar o último corte, um golpe certeiro, uma última vertigem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s