Sem fatos e sem argumentos

Comentei com um amigo que, desde que virei freelancer, parei de me entusiasmar demasiadamente com a chegada do fim de semana.  Se antes a sexta-feira pela manhã significava o último limiar de esperança, o petisco oferecido à distância ao cão faminto, o alívio imediato das tristezas fugidias, no momento ela é só um indicativo de que trabalharei menos, lerei menos e terei compromissos um pouco diferentes do que costumo ter no resto da semana.

Não que a rotina seja completamente modificada, graças ao fato de eu trabalhar em casa, porque, afinal, eu ainda trabalho. Mas, acontece de eu ignorar vez ou outra os chamados do despertador. A possibilidade de poder separar boa parte do tempo para fazer coisas de que gosto, também é um bônus. Mas percebo que a forma como a vida foi estruturada (por vida quero dizer a rotina) facilita um tanto as relações sociais, a começar pelo fato de que quem trabalha fora tem mais fatos para contar.

Eu acordo pela manhã, faço meus trabalhos, paro para cozinhar e comer, descanso uns minutos e começo a ler. Eu leio a tarde inteira e às vezes à noite também. Tem dias em que eu desenho, mas no geral eu leio. Eu também escrevo, como estou fazendo neste momento. Estudo algumas músicas e brinco com o Joaquim.

Não tenho colegas de trabalho de quem reclamar, nem um chefe em quem jogar a culpa por um trabalho mal feito. Não posso reclamar de levantar cedo, porque, no limite, levanto mais ou menos a hora que eu quero.

Imagino que seja bem mais legal conversar com quem tem algo concreto de que reclamar. Como se as pessoas com quem convivemos se tornassem bodes expiatórios de nossas próprias irritações. Porque se tudo está um saco, o motivo é localizável; você pode culpar alguém. Por muitas vezes achei que teria menos problemas sem um ou outro colega de trabalho (jamais desejaria a morte, mas se as pessoas desaparecessem, como meu marido costuma dizer, já estaria bom). Mas, a verdade é que apesar de existir, sim, gente chata, as dificuldades que emanam do ambiente de trabalho se devem muito mais ao fato de a gente ser obrigado a trabalhar, do que qualquer outra coisa.

Eu ainda sou obrigada a trabalhar. Mas as segundas não me irritam mais como antes. Talvez a convivência forçada seja um problema. Ser obrigado a sair todo fim de semana também pode ser considerado um esquema de convivência forçada. Só que, no caso, você ainda é obrigado a se divertir e a conversar sobre os fatos que vivenciou durante a semana. Eu não tenho fatos para contar.

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