A cidade natal (que nem é assim tão invisível)

Um pouco influenciada pelo Calvino passei alguns dias me lembrando da cidade em que nasci. Falo pouco sobre ela, mas é porque é como falar sobre algo que já não existe. A cidade tem cheiro de infância, mas também tem as marcas daquele momento – cuja data não marcamos – em que aprendemos a esquecer.

A minha cidade, por ser muito pequena, tem aquela famigerada característica: todo mundo sabe das vidas uns dos outros. Os fatos, porém, correm à boca pequena e nunca chegam aos ouvidos do dono.

Até que um dia, apercebendo-se os olhares e murmúrios, a vítima do falatório infere que todos ao seu redor sabem. Ao invés de interpelar os outros, vive como se de nada soubesse. Na cidade em que nasci, pode-se viver a vida toda sem falar de um fato ocorrido do qual todos têm conhecimento.

As ruas eram todas largas, as mais largas que já vi. Pelo menos é assim que me lembro. E só registrei esse fato, quando estive pela primeira vez em outra cidade e notei a estreiteza das ruas alheias. Pode ser, no entanto, que houvessem, isso sim, poucas pessoas na cidade e, consequentemente, poucas casas e que os estabelecimentos comerciais fossem em número reduzido. A impressão do tamanho pode ser uma ilusão de que só agora, enquanto escrevo, me dou conta.

A pequenice, no que confere as cidades, tem lá suas vantagens. Pode-se muito bem morar próximo aos seus amigos ou, no meu caso, ter uma avó que é vizinha de sua melhor amiga. Eu ia todo dia a casa de minha amiga, sob pretexto de visitar a vó. Com isso, levei fama de boa neta. O que é muito injusto, reconheço.

Passados uns 5 anos que havia saído de lá, encontrei na nova cidade um amigo com quem estudara por alguns anos. Dividimos uma centena de recreios juntos, conversamos bobagens antes e durante as aulas. E ele foi um de meus primeiros amigos que passava os finais de semana se embriagando. Aqui, na nova cidade, ele estava trabalhando numa ótica, na verdade uma loja que vende armações dessas que só têm óculos da moda.

Me aproximei dele, chamei-o pelo apelido – a primeira sílaba do nome –, perguntei como estava, disse que era bom vê-lo. Ele pareceu meio constrangido e após um breve silêncio disse: “o que você usa para limpar os óculos?”. E me vendeu um produto de limpeza específico para lentes de grau. Uma charlatanice qualquer. Nada que eu não conseguiria utilizando água e sabonete líquido. Só então percebi que em nenhum momento havia dito o meu nome. Não havia me reconhecido. E assim como todas as pessoas que passam pela nossa vida, boa parte delas ao menos, coloquei-o naquele lugar em que ficam as lembranças a que normalmente não recorremos. Só me lembrei da situação agora que escrevo sobre ela.

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