Nada a oferecer

Deu na Folha de São Paulo que jovens conhecidos como youtubers estão apostando em escrever ficção para continuar oferecendo, de certa forma, conteúdo para seus seguidores e para atrair outros públicos.

“Que tanta história de suas vidas meninos e meninas ainda em flor teriam para contar?”, diz a matéria, pondo em evidência, não sem alguma ironia, o fato de que esses mesmos youtubers já haviam publicado livros autobiográficos com a mesma intenção de manter a sua audiência devidamente satisfeita.

Mas é justamente essa questão da experiência, que está implícita no comentário da matéria, o que mais preocupa. Em primeiro lugar, para escrever uma autobiografia é preciso ter vivido alguma coisa relevante. E muito mais do que ter vivido, é preciso ter tido tempo para uma reflexão sobre determinados eventos, quase que numa experiência de alteridade.

Não estou, é claro, dizendo que esses jovens youtubers não tenham refletido sobre suas experiências, ou que não tenham tempo para isso. Aliás, penso que eles têm tempo, sim, ainda mais para criar vídeos sobre suas atividades diárias, escrever sobre suas próprias vidas e para criar objetos ficcionais, como a matéria apresentou.

Também não posso afirmar que uma pessoa jovem não seja capaz de escrever ficção. Se fosse assim, seríamos injustos com escritores que se tornaram parte do cânone e que iniciaram sua carreira cedo, como é o caso de Clarice Lispector (que mentia a idade, é verdade, mas que, independentemente disso, era jovem demais para a complexidade do que escrevia) e Arthur Rimbaud (que escrevia poesia e merece sempre ser lembrado pelo talento precoce).

Mas, me parece, que tanto esses novos autores, quanto a própria matéria pecam ao indicar que para se escrever autobiografia é preciso, simplesmente, ter vivido. Há um componente ficcional muito importante no modo como se conta uma história, seja ela baseada em fatos reais, seja ela totalmente inventada.

O modo como os fatos são escolhidos e apresentados. Aquilo que se decide enaltecer ou evidenciar em nossa própria história, geralmente, carece desse valor de veracidade, sobretudo quando confrontamos a história vivida com a perspectiva do outro. Não é incomum contar uma história pessoal e ter de enfrentar o testemunho alheio, que pode não desmentir a sua versão, mas apresentar um aspecto que ficou esquecido ou que fora negligenciado por nós, ao longo da narrativa, à propósito ou não.

Não é por acaso que muitos contratam ghost writers para contar a própria história. Não é qualquer um que consegue selecionar os fatos, recuperar arquivos, descrever os eventos, de modo a torná-los mais, digamos, atraentes para o leitor. E, nisso, considero que há, sim, importância em aproximar-se de quem lê, já que, em geral, escritores vivem do mercado editorial, isto é, precisam de leitores fiéis, que comprem o que eles produzem.

Convenhamos que muitas de nossas histórias pessoais são mais interessantes para nós – porque vividas por nós – do que para os outros. E em se tratando de youtubers, uma realidade que têm ficado cada vez mais comum, torna-se, a meu ver, ainda mais desafiador tornar uma história corriqueira em algo que, de fato, alguém queira ler além das primeiras páginas.

Não sei se esses jovens recém-escritores têm, de fato, algo a oferecer e serei a primeira a admitir o erro de afirmar sem ter lido – o que é preconceito, eu sei – que sua ficção é tão ruim quanto suas biografias. O dado espantoso é que a matéria – e aí já não sei se é irônico ou não – afirma que esses youtubers estão mostrando, com a nova empreitada, um amadurecimento.

Como as coisas acontecem muito rapidamente nesse mundo digital, confesso alguma desconfiança desse amadurecimento e lego essa opção pelos livros de ficção a uma visão de mercado, isso sim, surpreendente para a idade. Como o texto da Folha revela, esses jovens conseguiram transformar suas vidas em produto de consumo e o empenho para atingir mais uma fatia do mercado editorial mostra que eles continuam sendo produtos, agora como escritores.

 

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