Não se livra de nada

Estamos sempre retirando as coisas de um lugar, passando para outro para depois devolvermos no de origem. E isso faz os dias cada vez mais desgastantes. Esse movimento de ir às compras, de retirar objetos das prateleiras, colocá-los no balcão até que a conta seja paga e levá-los para casa, onde temos de encontrar um novo lugar para o objeto recém adquirido.

O Arnaldo Antunes tem razão quando diz que “as coisas não têm paz”. Na realidade somos nós que não temos paz e culpamos tudo o que está ao nosso redor, tudo o que está ao alcance dos dedos. As coisas nos incomodam, mas fomos nos que as colocamos ali, temos de lidar com elas, aceitar que dividimos o mundo e a existência com elas, aprender a viver no meio delas, saber que, mesmo quando conseguimos nos livrar delas, vão continuar existindo por aí. Não se livra de nada.

Nos sujeitamos diariamente a vencer o acúmulo de poeira que recai sobre os móveis ou a evitar o aspecto desagradável que os pelos do cão deixam no ambiente. Mas tudo precisa estar em um lugar, assim como o pó e os pelos. As coisas não só não desaparecem, como parecem retornar ao lugar de origem; são fardos aos quais nos enredamos. E que estão insistentemente nos lembrando de que o menor esforço é vão.

Festas de fim de ano são cruéis com essa coisa de acúmulo. São sinônimo de muita gente, muitos embrulhos, muitas compras, muitos presentes, muita comida, muita bebida e uma quantidade inigualável de louças para lavar. Há, sempre, coisas que precisam ser organizadas antes e depois. Momentos de angústia que se prolongam, acabam e retornam no ano seguinte. Elas nos dão a impressão de que a vida é esse fosso diário e aleatório das mesmas inutilidades.

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