Filho de cavalo pônei é

Há uma diferença básica entre imaginação e memória: o fato de que, na segunda, há o real como componente, além, é claro, do tempo passado, enquanto a primeira é fruto de um processo criativo racional. Por algum motivo, algumas lembranças nos afetam mais do que outras e permanecem por mais tempo conosco, ainda que venham a se modificar com o tempo. Estamos habituados a pensar na memória como aquilo de que nos lembramos, mas ela também é aquilo de que você já se esqueceu. Aquilo de que não se lembra ou não sabe também faz parte de quem você é.

O segundo episódio da quarta temporada da série Bojack Horseman, “A casa velha do Sr. Sugarman”, dá muito o que pensar sobre memória e esquecimento e sobre o quanto tudo isso acaba por fazer parte de quem somos. A primeira cena desse episódio recupera a última do episódio final da temporada anterior. Após desaparecer, Bojack vai buscar o passado ao voltar para a casa abandonada da família, lugar em que viveu sua mãe, Bea.

Desde o momento em que Bojack entra na casa, lembranças de fatos importantes para a construção da personalidade de Bea aparecem. O personagem aparentemente ignora essas lembranças, mas elas o acompanham não só no plano da cena, mas metaforicamente. Bojack é, de certa forma, resultado dos eventos que aconteceram ali: é fruto de uma família que foi destruída pela guerra, de um casamento que se realizou por convenção (como vamos descobrir nos próximos capítulos) e que por convenção perdurou. Bea vivenciou o sofrimento e a perturbação da própria mãe, criada (ambas) dentro de uma estrutura social que dá pouca ou nenhuma liberdade aos indivíduos, sobretudo às mulheres. Bojack é, então, parte de um ciclo que se inicia com a infelicidade de seus avós, que se reflete em seus pais, em relação ao casamento e à vida que levam, e que o acomete desde a infância.

O personagem não se caracteriza, no entanto, pelo hábito de tentar compreender e, em certa medida, analisar o próprio passado. Ele evita refletir com acuidade sobre os eventos que viveu e sobre as próprias atitudes, adotando uma postura de negação ou de falseamento na resolução de qualquer problema. Muito mais do que ignorar determinadas situações vividas por seus familiares, ele se dedica a não conhecê-los. Se durante todo o episódio ele busca reconstruir a casa dos avós, de modo que ela volte a ser exatamente como era antes; num movimento de recuperação e de busca por um tempo que faz parte do que ele se tornou; não é surpreendente que no final do episódio ele se decida por destruir a casa repetindo o ditado de seu avô de que “a flecha do tempo corre sempre para a frente”. Importante notar que o avô de Bojack também diz, não sem razão, que a casa nunca desaparecerá (“assim como a poliomielite e o racismo”).

Ao mesmo tempo, conhece a libélula Eddie, que vive em frente à antiga casa e o ajuda na reconstrução dela. Esse personagem funciona como contraponto do personagem principal: enquanto Bojack se esforça para se desvencilhar do passado e evita, inclusive, pensar sobre ele, a libélula está completamente presa ao passado, aprisionada por ele. A libélula perdeu a esposa em um acidente e disso nunca se recuperou, tendo, inclusive, deixado de fazer coisas que são inerentes à sua espécie, como voar.

Esse aprisionamento de Eddie é enfatizado quando num jogo de cena em que passado e presente se juntam, ele canta a bela música I will always think of you com a avó de Bojack, que também não conseguiu seguir normalmente a vida após a morte do filho na guerra.

É válido comentar que são personagens agindo como humanos. Se fossem animais agindo como animais, esses problemas de memória, esquecimento e angústia não existiriam.

 

Uma realidade inventada

Se por um lado, afirmar que somos resultados da memória e do esquecimento pode parecer uma visão determinista, pois insere o indivíduo numa posição de produto de uma série de fatos, muitas vezes não vivenciados, por outro lado mostra o quanto pode ser difícil desenvolver uma personalidade e uma consciência saudável num mundo em que determinadas situações nos tornam amargos, como é o caso de Bea e, consequentemente, de Bojack. Desde criança ele passara os dias sendo culpado pela infelicidade da mãe e pela frustração do pai. Uma criança que passa os dias ouvindo o quanto é inútil e o quanto destruiu a vida dos pais, dificilmente se tornará um adulto emocionalmente equilibrado.

No início da série, não sabemos bem o que cunhou a sua personalidade egoísta, maníaca depressiva e o que o faz tão infeliz. Temos indícios, pois, eventualmente surgem cenas de sua infância, mas tudo se esclarece quando descobrimos que seus pais tiveram que se casar quando Bea ficou grávida e que a própria rotina do casamento e as muitas concessões que acabam sendo feitas; no caso do pai de Bojack, desistir de ser um escritor; foram minando a vida dos dois.

Em alguns momentos é possível perceber que Bojack escolhe ser um ator/humorista para agradar aos pais e às pessoas de um modo geral. Ele quer ser lembrado por ter feito alguma coisa importante. Mas Bojack se torna uma celebridade, e nem toda celebridade é, de fato, um artista ou faz coisas relevantes. Para manter a audiência e o interesse alheio, ele precisa representar um personagem que interesse a todos, e isso não só diante das câmeras, mas fora delas. Logo ele percebe o quanto é preciso fingir, ser um personagem de si mesmo e assumir uma postura de artista que seja agradável aos olhos dos outros. É preciso ser o Bojack Horseman que todos esperam ver. Do contrário, ele se torna irrelevante. O show business pode ser tão nocivo quanto a guerra, não é por acaso que frases como “o show business é assim” e “a guerra é assim” são proferidas quase ao mesmo tempo ao longo do episódio.

Ele ganha fama e dinheiro como ator, mas sequer é um ator. Como diz Herb Kazzaz, diretor da série que estrelou na juventude, Bojack é bom em dizer suas falas em alto e bom som, de forma articulada e na marcação correta. E seu único prêmio importante como ator foi por um filme cujas cenas foram criadas por programas de computador. Ele é uma farsa, sabe disso, mas não faz nem fará nada para mudar.

Não é possível afirmar que o personagem conseguirá se desvencilhar desse ciclo de amarguras no qual está inserido, sequer há uma solução definitiva para ele. A série joga justamente com essa ideia de que não há esse momento em que todas as respostas chegam até nós e que encerram nossas dúvidas e angústias. Mas, e isso sim é possível afirmar, se voltar ao passado não parece ser uma opção, ignorá-lo também não o ajudará a entender e a aceitar quem ele se tornou.

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