Uns deslocados

Trabalhei por quase dois anos em uma escola pública da periferia da cidade em que vivo. Algumas das melhores histórias que já contei saíram daquelas paredes, daqueles alunos, das pessoas com quem convivi diariamente.

Hoje, enquanto lia Vidas Secas, lembrei de uma família cujo filho mais velho estudou lá. Lembro muito pouco deles. Um silêncio consentido. A pele castigada pelo sol. Nada que os diferenciava de outros pais que iam até mim resolver questões administrativas.

Quando conheci essa família, eles foram até a escola solicitar a transferência do filho. Estranhei conhecerem tão bem a mecânica burocrática que acometeu o universo escolar não só na região da secretaria, onde me alocava.  Chequei o prontuário. Devia ser a quarta vez que transferiam o filho de escola, só naquele ano.

Perguntei o motivo da mudança. Estavam de partida para o Maranhão, à trabalho. Verifiquei onde mais aquela família tinha se instalado naquele ano. Sempre no Maranhão. Pelo que constava nos registros, haviam ido e voltado daquele estado o ano todo. Ao perceber a minha expressão de estranhamento, a mãe explicou que da outra vez achou que haveria uma boa oportunidade de trabalho, mas havia se enganado.

Enquanto redigia o documento, pensei o que poderia fazer com que uma família toda se sentisse esperançosa a cada nova oportunidade de emprego, a ponto de simplesmente saírem, quantas vezes fossem necessárias, de um lugar do qual haviam retornado e do qual nada conseguiram.

Em parte, Fabiano de Vidas Secas tem essa esperança que nos desconcerta, porque não sabemos bem de onde ela vem e como se justifica, pois, ao redor dele, no espaço em que se encontra, quase nada floresce, nada frutifica e nada é garantia de melhora. Fabiano, mesmo com o coração grosso, tem uma existência auspiciosa, sempre esperando que a seca um dia acabe, sempre encarando a estrada, talvez o único espaço com o qual ele consiga ter alguma intimidade.

Eu entreguei os papéis aos pais e pensei que não seria de se estranhar que dali alguns meses voltassem a solicitar matrícula. Pensei, também, que por piores que fossem as condições de vida daquela família, havia neles uma espécie de liberdade, de desprendimento que eu jamais conseguiria compreender.

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