Sobre meninos e lobos

Se Faulkner pudesse assistir à série Fargo, diria o mesmo que já disse em um de seus romances: “as pessoas são as mesmas em toda parte, mas (…) numa cidade pequena, onde o mal é mais difícil de se realizar, onde as oportunidades de privacidade são mais escassas, (…) as pessoas podem inventar mais dele em nome de outras pessoas”. No caso de Fargo, as pessoas não só inventam o mal, mas o cometem em nome de outras pessoas.

Os personagens de Fargo, com raras exceções, me parecem divididos entre selvagens, valentões mesmo, dispostos a comprovar o tempo todo as vantagens de sua força física, predadores, ao menos se colocam assim aqueles que o são, e ingênuos, provincianos do tipo que foram protegidos demais dos males do mundo.

Em parte, essa três características parecem ser justificadas pelo espaço em que o enredo se desenrola. Uma cidade pequena, Bemidji, que passa o ano todo debaixo do mais rigoroso frio e da neve, só pode ser palco de personagens que vivem praticamente sob suas próprias leis, como se fosse um faroeste, só que ao invés de uma ambientação de deserto, há neve. Há até a figura do taberneiro, oferecendo café no balcão com a toalha no ombro. No entanto, é uma visão inicial, pois os policiais do FBI que aparecem mais para o fim da temporada e são de Las Vegas são basicamente dois idiotas.

Numa rápida busca por “Bemidji” no Google, vários sites mencionam que se trata de uma cidade “progressista”. Mas não é bem assim que a cidade é retratada na série. Um dos personagens provenientes de Fargo observa que sequer há uma biblioteca em Bemidji. “Toda cidade tem ao menos uma biblioteca”, ele diz inconformado. De certo modo, os interesses da população de Bemidji são muito distantes do conhecimento formal e acadêmico. E mesmo os melhores policiais – uma das profissões mais recorrentes na série – são bons graças à capacidade de seguir os instintos.

Quando um dos personagens conta que sonhava em ser carteiro, mas, por falta de vagas, acabou aplicando-se com a polícia, de certo modo ele demonstra que, em uma cidade pequena, como a que vivem, não há muitas opções para quem vai para o mercado de trabalho. Ou se assume o posto em carreiras básicas (vendedor de seguros, policial, carteiro) ou não há muito mais a se fazer. Os personagens estão sempre buscando se encaixar em estruturas que não lhes são naturais ou não lhes despertam interesse por pura necessidade, pelo modo como a sociedade se organiza. Por isso também que, sobretudo a polícia, é tão despreparada para lidar com os acontecimentos que acometem a cidade e por isso os personagens ficam tão à mercê de predadores como Lorne Malvo.

 

O primeiro crime

A temporada conta a história “real” de Lester Nygaard, um pacato vendedor de seguros que acaba assassinando a esposa. Tudo começa quando ele encontra um colega de escola que o perseguia e descobre que, diante dele, as posições de perseguidor e perseguido se mantém. O bully, Sam Hess, acaba machucando-o. No hospital, conhece Lorne Malvo que, ao saber da história, afirma que uma pessoa assim merece morrer. Nygaard afirma que, se ele pensa assim, então deveria matá-lo para ele. Os olhos de Malvo brilham e Sam Hess é assassinado.

Lorne Malvo é um desses personagens marcantes não só por uma certa sagacidade ao elaborar seus crimes, pela frieza com que se relaciona com as suas vítimas, mas por uma percepção que ele demonstra ter das pessoas que o cercam: são meros fantoches. Ele se vê como um predador e age como tal. Diz estudar as organizações e, por meio desse “estudo”, consegue fazer com que as pessoas acabem realizando ações previamente calculadas por ele. Ele se delicia por reconhecer que uma pessoa como Lester é capaz de cometer um crime por seu incentivo. Por isso diz a Lester que ele precisa se impor, porque sabe bem o tipo de homem que Lester costuma ser: do tipo que acumula as maiores humilhações e nada faz contra elas por medo das consequências.

A princípio, parece que Malvo tem uma espécie de ideologia que vincula as pessoas ao seu passado nas cavernas. Ele diz: “nossa vida é uma maré vermelha, Lester. A merda que nos fazem engolir, dia após dia, o chefe, a esposa e outras coisas acabam com a gente. Se não se impuser e mostrar que no fundo ainda é um primata, você será sempre insignificante.”. Mas, apesar desse discurso, com o desenrolar dos episódios, percebemos que pode se tratar de mais um caso de manipulação, pois, ao perceber o quanto Lester se esconde sob o medo, Malvo tenta fazer com que ele pareça tomar as rédeas da situação. É como se aquelas palavras pudessem libertá-lo, mas, na realidade, Lester apenas estaria se submetendo a outras regras, às regras de Malvo.

 

O segundo e o terceiro crime

O assassinato da esposa acontece por causa da máquina de lavar que está com defeito. A esposa comenta que o cunhado costuma consertar tudo o que quebra em sua casa e que isso faz dele um homem. Então, Lester, tentando ser um homem, tenta consertar a máquina, mas falha. Ao receber de sua esposa as maiores ofensas e influenciado pelas ideias de Malvo sobre se aproximar de seu lado “homem das cavernas”, ele a mata à marteladas.

Ao mesmo tempo, a morte de Sam Hess está sendo investigada e o nome de Lester surge, pois uma testemunha afirma tê-lo escutado falando sobre a vítima com um homem estranho no hospital. A coisa se complica, pois o chefe da polícia decide ir até a casa de Lester e descobre o assassinato de Pearl (a esposa).

Lester já havia ligado para Malvo para pedir que lhe ajudasse com o corpo.  Estando os três – Lester, Malvo e Vern, o chefe da polícia – na casa, acontece o terceiro crime: Malvo atira em Vern.  Lester esconde seus crimes, consegue colocar a culpa em seu irmão por vingança e passa a se sentir como uma espécie de predador, assim como Malvo lhe ensinou.

 

O controle dos fatos

A única que reconhece que há algo de errado na história é a policial Molly Solverson, a única pessoa capaz de raciocinar a temporada toda. Com a morte do chefe de polícia, outro policial é levado ao cargo de chefia e a tese dele é a de que vagabundos, bandidos aleatórios, assassinaram Sam Hess, a esposa de Lester e o chefe de polícia, o que não poderia ser mais ridículo.

Molly trabalha incansavelmente no caso e considera todas as perspectivas possíveis, inclusive a de que Lester estaria envolvido nesses crimes. Bill, o novo chefe de polícia, no entanto, considera absurdo que uma pessoa amedrontada como Lester possa ter algum envolvimento. Aliás, é tão convencido disso que sequer procura provas que atenuem a possibilidade de sua participação nos crimes e impede que Molly faça o trabalho investigativo.

De algum modo, os homens têm uma conivência que não existe só para que se mantenham amigos, mas por acreditarem de fato que são pessoas confiáveis e respeitáveis. Os homens estão sempre trabalhando, fazendo coisas que os aproximam de sua essência mais ancestral (comprando armas, consertando as coisas de casa, passando a noite no prostíbulo) e sempre se protegendo de problemas e da insistência de uma mulher que faça perguntas demais.

As mulheres, por sua vez, dificilmente assumem postos de chefia em Bemidji. Trabalham, sim, mas sempre em posição subalterna, e o seu papel mais corriqueiro é o de serem mães e esposas. Até mesmo Molly aparece no fim da temporada cumprindo esses papéis.

“Ter o controle dos fatos”, dizia Vern, o antigo chefe de polícia, algo que é praticamente impossível em uma série produzida pelos Coen e, sobretudo, em um lugar em que as pessoas não têm um compromisso real com os fatos, a não ser Molly, e que preferem colocar uma pedra no assunto, ao invés de verificar o que há debaixo dela.

O único que parece ter controle dos fatos, para azar dos demais personagens, é Lorne Malvo pois em uma sociedade em que se mantém os papéis de sempre – em que a mulher, em geral, continua sendo a dona de casa, a mãe, a esposa – e que os homens ou são selvagens, ou são mais inocentes do que crianças, fica fácil ser o predador.

 

Uma pequena consideração sobre o trabalho da polícia

Lester consegue incriminar o irmão pela morte da esposa.  Ele deixa todas as provas (o martelo com que Pearl foi morta, fotos sensuais e alguma lingerie pertencente a ela) junto às armas que o irmão comprou e esconde em casa. Teria sido, portanto, um crime passional. Para que a polícia pudesse suspeitar do irmão, Lester também “planta” uma dessas armas dentro da mochila do sobrinho, a qual é encontrada por seus colegas de classe.

O meu incômodo com essa história é que em momento algum a polícia desconfia desse excesso de provas em um mesmo local. Pense bem. Depois de assassinar alguém, você manteria a prova do crime junto a todos os objetos relacionados à pessoa assassinada? Guardaria tudo isso junto à sua coleção de armas adquiriras ilegalmente?

A mesma estranheza me atordoou no caso da morte daquele preparador físico com quem Malvo se alia para tirar dinheiro do dono do mercado. Malvo amarra-o à uma metralhadora, em frente à porta de sua própria casa, contra a luz e atira de dentro da casa em um carro estacionado em frente ao local.

A ideia é que a polícia imagine que há um atirador ali dentro e, por esse tal atirador não se render (está preso dentro da casa), ela entre no local atirando. Tudo acontece conforme planejado, o rapaz é morto. A polícia, percebendo o próprio erro, afirma ser o suicídio mais estranho já visto. Ninguém percebe que o rapaz jamais conseguiria se atar daquela forma à arma…

E o fato de que Malvo é assassinado em uma emboscada por um civil? Entendo que o civil fez um bem à humanidade, mas ao invés de ser julgado, é condecorado pelo ato heroico. Mais provincianismo moralmente discutível não há.

 

O acaso é uma via de mão dupla

Em vários filmes que têm o dedo dos Coen sentimos que o acaso vem para resolver problemas e para trazer novos. E pode-se dizer também que o acaso só vem.

Na vida, temos a impressão de que podemos controlar as coisas e que as nossas ações podem trazer consequências. Nada disso se confirma com segurança, viver é basicamente um amontoado de fatos que acumulamos, situações que vivenciamos e interpretamos, porém nem sempre as relações existem realmente. Apesar disso, na série Fargo, no fim tudo se ajeita, o bandido morre no final e Molly, uma das personagens mais importantes, consegue provar a sua razão no caso em que Lester é culpado.

Mas, à rigor, não é ela quem pega Malvo, mas sim o seu marido, um ex-policial que está trabalhando como carteiro. Ele, que é muito legal, mas meio bobalhão, está na estrada, pensando nos riscos que a esposa está correndo ao perseguir tal bandido, quando quase atropela um lobo (ou um cachorro desses de clima frio, perdão pela minha incapacidade de reconhecer espécies).

Ao parar o carro, evitando o acidente, ele percebe que está próximo ao esconderijo de Malvo e que o mesmo está de saída. Gus (o marido de Molly) espera por Malvo e o mata, quando tem chance. Na casa, estão as provas de que Lester é o culpado. Não o vemos ser preso e acusado pelos crimes. No entanto, isso pouco importa.

Os assassinatos só acontecem para mostrar que, de certa forma, estamos todos sujeitos a nos aproximar de nossos instintos mais animalescos. Malvo é a válvula de escape de Lester, mas o que o levou a cometer todos os crimes foi a necessidade de revidar todos os anos de humilhação. As pessoas podem ser cruéis naquilo que dizem. E todas elas se acostumaram a sê-lo em relação a Lester.

A série mostra que por mais que estejamos organizados em sociedade, tenhamos condições de racionalizar as coisas, o que há de mais humano em nós é muito mais próximo do animal do que de uma pretensa civilidade, seja você um selvagem, seja um inocente ou um predador. Quando Molly diz para Lester que um homem assim (Malvo) pode nem ser humano, ela negligencia o fato de que diante dela há um homem que cometeu atos terríveis, bárbaros, e que o ser humano pode ser responsável por atos desumanos (matar, humilhar, ofender).

Consideramos os atos bárbaros como desumanos, isto é, como não humanos, porque achamos que um homem não seria capaz disso. De algum modo, esquecemos que somos animais e que somos capazes de coisas terríveis. A diferença entre os seres humanos que vivem em uma cidade pequena e os que vivem em uma cidade grande é que na cidade pequena essa nossa proximidade com o que há de mais selvagem e inocente em nós é mais evidente.

 

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