A arte do diálogo

Toda grande banda merece um filme que conte a sua história, mas é claro que nenhum  filme chegará aos pés do que de fato uma banda como Queen significou para a história da música. Digo isso porque ver o Queen ao vivo mesmo sem Freddie Mercury já foi uma experiência emocionante, única para mim. Algo que o filme tenta imprimir, sobretudo no final e até que chega perto de fazer o espectador acreditar que está diante da banda. Não me considero a maior das fãs, mas reconheço o que é estar diante de músicos que não se ouve todo dia ao vivo.

Bohemian Rhapsody, o filme, apresenta a vida de Freddie desde quando decidiu se juntar ao Brian May, Roger Meddows-Taylor e John Deacon para criar o Queen. O filme apela para a personalidade excêntrica que compunha a identidade dele como artista, mas deixa entrever que os demais integrantes tinham a sua parcela de responsabilidade no sucesso do Queen não só por serem, na maioria das vezes, mais metódicos do que Freddie, mas por terem entendido o que era e o que poderia se tornar o Queen. Só isso já faz a banda ser melhor e maior do que a média.

Embora o espectador sinta que o foco do filme é Freddie – e não está errado – a narrativa joga com a relevância dele para o Queen, o que me parece uma opção acertada. Logo após o primeiro e único show da banda que pude ver em 2015, vi muitos fãs se manifestarem a respeito da apresentação de Adam Lambert no lugar de Freddie sob o espectro da comparação entre os artistas. É evidente que Adam não é Freddie e nem tentou ser. E é mais evidente que o Queen sem Freddie não é o Queen verdadeiro. O que não significa que um show com a formação de 2015 tenha sido um show ruim.

Esse hábito de confundirmos a identidade do vocalista com a identidade da banda não é incomum, mas faz com que a gente incorra em certa injustiça com os demais músicos, além de ser uma redução grosseira de todo o grupo musical. Há quem considere Freddie Mercury a alma do Queen. Não discordo, porém não só de alma se faz uma banda. Por isso, o filme mostra quão arrependido ele ficou por ter deixado os amigos e sua frustração ao tentar uma carreira solo. Se há uma mensagem a ser disseminada pelo filme Bohemian Rhapsody é a de que um vocalista não existe sem a banda e uma banda não existe sem um vocalista (se a proposta original a se perseguir não era ser instrumental, claro).

E constatar isso não apaga os traços da genialidade de Freddie. A arte, ao menos aquela que dura, se faz com o confronto de ideias, com o diálogo e, muitas vezes, é preciso se contentar com a sobreposição da visão do outro sobre sua própria visão, isto é, arte não se faz sozinho. Essa é a graça de se ter uma banda, um grupo musical. Essa é a graça do Queen, pois cada indivíduo inseria a sua visão nas composições, nos arranjos e nas melodias da banda. Uma dinâmica que não é simples, não é fácil de conciliar. Mas dá margem para afirmar que se o Queen sem Freddie não é o Queen, Freddie não teria sido Freddie sem o Queen.

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