Da coxia

Penso que as histórias da coxia são mais interessantes do que qualquer peripécia que aconteça no palco. Se há magia no palco, a mim me parece ainda mais mágico aquele ponto em que se divide real e imaginário. A linha entre os dois tem o tamanho do tecido que separa a coxia do palco e se desvanece na expressão do artista quando ele o atravessa.

No dia da minha apresentação de circo, receio que tenha me deixado levar pela tensão de início. Apesar de ser muito dada ao gosto de observar as pessoas, confesso que minha mente esteve em outra dimensão nos minutos que antecederam o espetáculo. Pouco me dei conta do que havia ao redor. As pessoas que sabem se concentrar ou que se rendem ao próprio torpor perdem por não observarem o que se passa ao seu redor. Bem, há perdas e ganhos de todos os lados.

Naquele dia, aconteceu uma história, um diálogo na verdade, desses que eu certamente ouviria com atenção, se não estivesse tão ensimesmada em virtude do nervosismo pré-apresentação. Um diálogo de que até duvidei, pois muito surpreendente, menos pela narração que posteriormente me foi feita e mais pelos personagens que dela fazem parte.

Quem me contou, foi um companheiro de espetáculo, a quem dedico estas linhas bem traçadas, graças ao editor no qual escrevo. Não fosse ele, não sei se estaria escrevendo esta história. Aliás, vamos a ela.

Todo mundo conhece Alice no país das maravilhas. A menina que se perde, que se encolhe e se espicha. O coelho muito atarefado, sempre de olho no relógio. A bruxa querendo cortar-lhes as cabeças. Devem se lembrar, ademais, das dúvidas de Alice sobre quem ela é. Alice, com muita razão, percebe as mudanças que lhe acometem ao longo de um mesmo dia. Até aqui nada de novo.

Pois bem. Um dos espetáculos que aconteceriam logo após o meu tratava-se de uma montagem circense de Alice no país das maravilhas, os personagens seriam encarnados por crianças de não muito mais do que 6 ou 7 anos. Alice é a personagem principal da história e, mesmo tendo tantos personagens até mais interessantes do que ela, é a única cujo nome intitula a história de todos os outros.

Antes da apresentação, elas se juntaram e entre as muitas conversas, uma chamou a atenção do meu amigo.

Uma das meninas levantou uma lebre constrangedora:

– Curioso, – começou ela – eu me chamo Alice.

Entendendo o olhar duvidoso das outras meninas que por ali estavam, Alice explicou:

– Se eu me chamo Alice, logo quem deveria ser a Alice da apresentação sou eu.

Outra menina, que se tratava da protagonista do espetáculo, se pronunciou sentindo uma possível ameaça:

– Agora é tarde demais. Eu sou Alice. 

– Não estou criticando a escolha – disse a provocadora – só estou dizendo que eu sou a Alice verdadeira e você, a falsa.

A observação da Alice (a “verdadeira”, no caso) já seria incrível, não fosse a insistência da outra Alice, a “falsa” em provar ser ela a personagem verdadeira. Preciso lembrar a todos de que se tratavam de crianças de não mais que 7 anos. Discutindo, como se brincassem de dados, quem deveria ser a Alice real e quem era a falsa e, mais ainda, discutindo os limites entre realidade e ficção. Elas não sabem (ou sabem até demais), mas ninguém jamais conseguiu precisar esses limites.  

Pensei na irritação da Alice “falsa” e na dificuldade dela em provar ser a personagem “verdadeira”. Minha maior tristeza em não ter ouvido esse diálogo, foi ter perdido a oportunidade de perguntar às meninas, com sorriso irônico: “Quem é você?”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s