A sorte de ter decisões a tomar

Não tem graça nenhuma considerar Don Drapper seu personagem favorito. Tudo nele faz a gente ter sentimentos contraditórios, o que já é uma forma contraditória de fazer o espectador adorar odiá-lo. 

Eu sei, estou muitos anos atrasada na redação deste texto. Quem viu Mad Men, viu e já tem suas próprias ideias sobre a série. Quem não viu, está mais interessada em séries recentes ou não se sentiu impelida a assistir algo que parece ultrapassado. Eu vi tardiamente a maior parte das séries que assisti. 

Mad Men parece ultrapassada. Todas as cenas gritam para o espectador “estamos nos anos 50/60”. O machismo, o racismo e todos os outros ismos são transparentes e não fazem questão de se esconder. Também não faria sentido não estarem ali. A gente tampa o nariz e tenta aguentar como pode. A trilha sonora é precária, como nos filmes antigos, mas muito bem escolhida. Geralmente, ela surge quando você está distraído, pegando-o de surpresa ou quase não se nota que ela está ali. Há, ainda, cenas belíssimas em que a música tem de ser ouvida e as cenas é que a acompanham.

Há diversos personagens admiráveis. Peggy (a quem devo o título deste texto) e sua vontade de ser uma profissional destacada em um universo profundamente masculino e excludente, Joan e a sua consciência de que não importa o quanto trabalhe, estude e o quanto se dedique, sempre será, aos olhos dos patrões e de muitos colegas, a mulher bonita que só vai conseguir algum destaque na empresa, caso durma com alguém. Betty e sua perfeição que vai sendo desacreditada em cada episódio, o que faz dela ainda mais perfeita, enquanto personagem, e ao mesmo tempo tão realista. Desde o faz-tudo da agência até Don Drapper, os personagens foram tão bem criados que qualquer aparição faz a gente pensar neles para além de sua função na agência e na narrativa. E isso é genial.

Mas, hoje, quero destacar Roger Sterling. 

Sterling é o clássico homem branco, hétero e rico da série. Tudo o que conquistou parece vindo de uma grande e robusta herança e suas relações mais próximas têm a mediação do capital de alguma forma. 

O personagem tem um humor debochado. É rápido nas respostas para os colegas e mesmo para os clientes e, não raramente, a cena se encerra com um comentário seu, seguido de um silêncio irônico, como quando Drapper pergunta a ele “o que as mulheres querem?” e sua resposta é “quem se importa?”, toma um gole de whisky e a cena acaba aí.

Roger passa o dia na agência, em reuniões com clientes e em quartos de hotel com mulheres diversas. Nas reuniões ele raramente está sozinho, sempre aparece para mediar alguma conversa, se sai bem nisso e se dá por satisfeito com o seu trabalho. Sinceramente, ele parece trabalhar menos do que Cooper, o outro sócio da agência (o mais rico deles e, sem dúvida, o mais excêntrico).

Seu melhor amigo é Drapper e tem Cooper como a um pai. E só. É extremamente infiel, o que não quer dizer nada, pois, qualquer homem da série poderia sê-lo e continuar com a consciência impávida e brilhante (o que a série retrata com detida veracidade). Não sabemos bem se ele é capaz de amar sinceramente ou ser amado. Em uma das poucas conversas que ele tem com a filha, ela lhe pede dinheiro e ela o faz logo após o velório da avó, a mãe de Sterling. Suas experiências mais sinceras foram catalisadas por LSD. A única mulher com quem parece ter algo real – um filho, inclusive – é Joan, a quem ele vende numa transação comercial com um cliente importante.

Na primeira vez em que vi a série, achei-o incrivelmente hábil com as palavras. Na segunda vez, notei um lado meio patético, correndo atrás de mulheres bem mais jovens do que ele, perdendo seu único cliente e fingindo não ter nem responsabilidade nisso e ter sido pego de surpresa. Achei-o um pouco velhaco, também. A série, corajosamente, não faz o espectador sentir pena dele em momento algum. Quando a gente espera que a narrativa desemboque para o “pobre menino rico”, ela deixa entrever que de coitado Roger não tem nada. É evidente que a vida dele é repleta de experiências estéreis, as quais não lhe permitem chorar no velório da própria mãe, mas isso não deve jamais levá-lo à forca. Roger tem status e dinheiro o suficiente para não precisar fingir sofrimento.

A gente passa a série achando que em algum momento ele vai se dar mal. Mas mesmo quando perde o controle da empresa, Sterling continua na mesma. Cooper tem toda razão quando diz que ele não é um líder. E, sinceramente, é o tipo de indivíduo blindado que nunca precisou ser, nem precisará ser um líder. Roger é absolutamente o mesmo desde o início da série até o fim dela. Parece um castigo para um homem que tem tudo? Mas castigo só funciona, quando afeta o indivíduo. Não se sabe se é o caso.

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