A mulher atrás da porta

As tardes às vezes demoram demais a passar. E faz meses que eu procuro as palavras que descrevam a sensação do calor que consome as horas de trabalho. “As tardes queimam em horas…”.

Procurar a palavra certa é um erro, mas é um belo dum exercício. Digo que é um erro, pois, como diz o ditado “panela vigiada não ferve”. Já passei horas procurando a palavra e acabei me deparando com ela, quase tropeçando nela, em um momento de distração.

Moro em um prédio e o cesto de lixo fica em frente à porta dos fundos. Fui até ele jogar a embalagem de algum alimento, não lembro qual e tampouco importa. Mas lembro que encostei a mão à porta, como se a tarefa fosse demorar mais do que alguns segundos.

Alguém passou no corredor, pude ouvir os passos e identificar a respiração. Mais do que a respiração, ouvi um suspiro no contratempo e aquele aspirar que entrega o choro.

Lágrimas. A dona delas não tinha pressa de passar diante da minha porta, afinal, para ela, era só uma porta. Não adiantaria tentar saber de quem se tratava: eu mal conheço os moradores do prédio. Admito que a culpa é muito mais minha do que deles. O som dos passos caminharam até as escadas e desapareceram nos andares superiores. Não era moradora do meu andar.

Não posso dizer somos sempre solidários à dor alheia. Mas me senti próxima daquela desconhecida. Era mulher. Chorava. Mas manteve-se no caminho. Pensei em escrever sobre ela. Imaginei todos os clichês com que grandes escritores e roteiristas já fisgaram o público. Um rompimento, uma gravidez indesejada, a morte.

Não, eu não usaria nenhum deles. O desconhecido também pode ser descrito, afinal. Gostaria que ela parasse diante da porta. Isso, sim, me daria material para escrever. Queria que tentasse abafar o choro, mas sem conter um soluço. Eu contaria, provavelmente, que aquele choro convulsivo não me permitiria me distanciar da porta. A porta seria, paradoxalmente, nosso elo e o que nos manteria seguras do olhar de pena ou de crítica. Seria nosso único vínculo e o nosso abismo.

Não sei se ela iria se dar conta da minha presença. Talvez o vulto da soleira da porta me entregasse. Ou, melhor ainda, ela nem se desse conta de que havia alguém à espreita, tão aprisionada iria estar à própria dor. O meu silêncio seria de um enorme consolo; o silêncio não julga, não exprime notas pretensamente conselheiras.

Gostaria de registrar o silêncio e o meu receio de que a minha presença a assustasse. Eu tentaria controlar a respiração, como se ela pudesse ouvi-la. Eu tentaria não mexer os pés para que ela não os visse pela sombra. Eu ficaria imóvel em respeito à privacidade de sua dor.

Ficaríamos unidas pelo silêncio, mas também pela porta. Eu descreveria esses poucos segundos como infindáveis, mas resistiria à possibilidade de criar laços com a mulher atrás da porta. Não cometeria o clichê de colocar nossas mãos à porta, como se buscássemos nos aproximar, como se sentíssemos a presença uma da outra como uma força cósmica. Nada disso. Insistiria, talvez, no silêncio, perene e inalterável, de ser a única a saber daquelas lágrimas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s