Inveja dos cães

Estou cansada de ter ideias para textos e nunca conseguir escrevê-los. Meu senso de organização ficou comprometido demais nos últimos tempos. Eu só tenho ideias. As ideias pululam. Assim como Clarice, tenho muita tristeza em não ter sido bicho. Eu olho para o Joaquim e o invejo. Invejo a vida com tempo estendido que ele tem – talvez por isso a vida dos cães seja tão curta. Tempo para dormir, para comer. Tempo para ser. O ser humano nem parece que é. A gente não vive, sobrevive. Mas esse papo também já cansou. Ando me recusando a discutir coisas para as quais não tenho solução. O que é um problema, pois decidi fazer pós-graduação e às vezes parece que meu trabalho ali é só dar solução. Não é. Não se resolve os problemas da África via literatura. Mas, então, como será que resolve? Não resolve. Se sofre. Se vive. Aliás, se sobrevive. Deixa pra lá. Eu já estou sofrendo por antecipação com a reunião que tenho amanhã. Diacho de gente que quer resolver tudo na base da conversa. Pior, na base de uma conversa localizada no tempo. Imagina: em 1h se resolve a crise política, ideológica e identitária da África! Chocante. Vamos fazer uma reunião para colocar os problemas desses caras em dia. Não aguento mais ler sobre a África. Deu pra reparar? Toda vez que leio mais um pouco, penso: insolucionável. E dói. Eu sangro em cada palavra. Mas, e daí, nem sou eu que moro lá. Se fosse, seria pior. A gente não pode reclamar da vida, não. Na verdade, eu não queria mais do que tenho agora. Na verdade na verdade mesmo, eu queria mais tempo.

(Lembro de mim mesma, criança, mal tinha conhecimento do meu tamanho no mundo. Sentei no piano. Toquei. Todo mundo chocado. A menina toca de ouvido! Acho que não era bem isso… Eu tinha tempo. Eu passeava pelas teclas e pensava nelas, ouvia o que elas tinham para me dizer. Depois, quando eu já fazia aulas de órgão, eu entrei na igreja – e lá era o único lugar que tinha um órgão fora a escola de música – e toquei Asa Branca. Teve gente que me repreendeu. Não se toca música “do mundo” por aqui. Foi meu primeiro delito. Foi quando entendi que tinha outros mundos além do meu. Isso me fez ficar mais perto de deus.)

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