O fim dos likes

Não sei se existe coincidência, mas recentemente vi alguns posts no Twitter mencionando blogs antigos e o quanto era divertido ser articulista de um nicho de 20 pessoas numa época nem tão distante. A primeira vez que ouvi falar em blogs foi num artigo da Veja e o primeiro que acessei foi o Blog dos Excluídos. Não convém falar dele neste momento, mas na época fiquei encantada com a possibilidade de compartilhar meu diário com as pessoas.

Um dos meus primeiros blogs tinha a função de me ajudar a manter o hábito da escrita e eu escrevia uns textos bem confessionais, os quais apaguei sem dó, quando me dei conta de que ninguém queria saber. Mas, até hoje eu mantenho esse espaço aqui (mantenho financeiramente, inclusive), no qual trato de assuntos diversos, no tom que mais me apetece, sem me preocupar com palavras-chave e demais ferramentas que me façam ser encontrada pelos bots do Google, porque gosto de tratar de temas que me ocupam a mente no dia a dia, por mais estúpidos que sejam. Tenho meus momentos de resenhista e de articulista, mas são fases da vida, nas quais nos afundamos todos.

Desde que o Mark anunciou que pretende acabar com os likes nas redes sociais, tenho me preocupado com a existência deste espaço aqui e já vou explicar o motivo. Curiosamente (ou não), tenho sentido falta de escrever sobre o meu dia a dia e coisas que penso corriqueiramente: sobre aulas de canto, sobre a vontade de (tentar) escrever literatura, sobre o quanto o mestrado é amargo e parece nunca ter um fim. Enfim, coisas que não servem nem para quem ainda lê blog, nem para as pessoas que utilizam blogs como ferramenta de trabalho.

Não servia, aliás. O anúncio do Mark veio com a informação da nova estratégia, que nem é tão nova assim, de que “o ouro” (palavras dele), agora, são as mensagens inbox, aquelas que a gente envia via Messenger, via Mensagem Direta, via WhatsApp. Mark sacou faz tempo que a gente só tem compartilhado conteúdo filtrado. Veja, a quantidade de likes em aplicativos como o Instagram ajuda os seguidores a saberem o quanto aquele perfil é querido por outros seguidores. Quanto mais likes, mais relevância o perfil tem. A necessidade de likes, porém, gera uma ansiedade naquele que publica, o que, paradoxalmente, tem feito as pessoas publicarem menos por medo da rejeição. Cada vez mais, estamos buscando lugares, digamos, mais seguros para compartilhar nossas ideias e para, no limite, bater papo.

No Facebook, por exemplo, diminuiu a quantidade de gente publicando conteúdo sobre política, já que, ao invés de debater ideias ou de conquistar o rótulo de um cidadão bem informado, quando você publica links/textos sobre política, conquista desafetos. Ao perceber que as pessoas estão evitando compartilhar informação nos feeds e timelines da vida, Mark está focado em vasculhar nossas mensagens privadas. E é aí que eu entro.

É evidente que ninguém ainda comentou nada sobre blogs, mas, dentro dessa lógica, os blogs mais voltados para a vida pessoal de quem escreve vão estar no espectro dessa gente que tem motivos escusos para acompanhar nossa vida privada – não importa quão desinteressante ela pareça ser. Isso me faz questionar, com muito pesar, a existência deste espaço de escrita, pois (e digo isso com a consciência de que é tarde para me preocupar com a quantidade de informação que descarto na internet), ao invés de usá-lo na contramão das técnicas de SEO, há a chance de que eu o tenha alimentado exatamente com a informação que há de me manipular.

Acho estranho e meio sintomático que, recentemente, várias pessoas tenham sentido falta de ler blog, sendo que, com blog, elas não estão se referindo àqueles vinculados a sites de notícias, mas sim, a lugares anacrônicos como esse aqui e mais uns 5 que existem na internet e que estão até desatualizados há anos, mas resistindo bravamente. Pode ser paranoia minha e pode ser coincidência. Mas sei lá se existe coincidência.

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2 comentários sobre “O fim dos likes

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