A música ao vivo acabou (?)

Quem nunca tentou ler um link de alguma matéria e se deparou com o maldito paywall, aquele aviso de que você precisa pagar para ler o conteúdo? Ninguém vai pagar e, portanto, ninguém vai ler. Parece novidade esse lance de pagar para ler, mas, eu gosto da opinião do Tony Aiex do Tenho Mais Discos que Amigos, nossa sociedade se criou assim. Só que antes, a gente lia as manchetes dos jornais que estavam nas bancas.

No caso da música, hoje se fala muito em playlist, como se fosse algo novo. Mas eu me lembro bem de comprar CD e mesmo vinil com os hits dos anos não sei quê, um compilado de músicas que alguém achou a cara de uma determinada época. A diferença está no fato de que, hoje, a gente é quem faz essa seleção. É muita liberdade, não? E, pra variar, a gente não sabe bem como usá-la.

Como cantora, já vivi (e eventualmente ainda vivo) esse momento em que a banda, o duo, o grupo musical se questiona se o repertório é acessível para o público. Quem nunca se perguntou, como músico, se não vale a pena investir num repertório mais lado A ou mesmo foi interpelado pelo dono do bar ou da casa de show para que fizesse um repertório não tão lado B?

Tenho para mim, que o público nem sabe o que quer, mas entendo e endosso que ele está sempre esperando ouvir algo que reconheça, algo que apele para a sua memória e que não o deixe com a sensação de que não está por dentro do rolê. Noto, sempre que canto alguma música desconhecida, aquele silêncio; é o momento em que todo mundo olha para o celular. É, também, o momento em que mais sinto a responsabilidade de “vender” a música, sabe? Como quando canto White Room e comento que faz parte da trilha sonora do filme Coringa. Não sei se ajuda, mas é o que consigo fazer.

O fato é que se a gente for se orientar pelo gosto popular, o repertório se transforma em um catado de canções de estilos absolutamente díspares. Nada contra quem busca saciar a necessidade memorialística do público; acho até que é uma forma bastante digna de sobrevivência, já que quanto mais agradável ao público, mais datas a banda vai ter. Mas essa vontade do público de ser agradado o tempo todo me é estranha.

Não por acaso, a maior parte das bandas, sobretudo as de rock, fazem praticamente o mesmo repertório. É preciso saciar a vontade do público de ouvir aquelas músicas, do contrário, ninguém vai parar para ouvir e, se ninguém ouve, as casas fecham as portas para o seu projeto musical. No caso do jazz, dá para contar nos dedos de uma mão os projetos que de fato fazem esse estilo e não recorrem à Amy Winehouse e músicas pop com arranjo lounge.

Eu, como público, gosto de ouvir músicas que conheço, que me façam lembrar de algum momento da minha vida, mas fico ainda mais feliz quando sou surpreendida pelo artista que está cantando/tocando. Sempre vou admirar quem estuda nota por nota, quem aprende a fazer os agudos iguaizinhos aos do fulano/a. Mas quando reconheço que o intérprete de fato interpreta a música, aí eu acho que estou diante de um artista e não de um imitador.

Não quero dizer que o artista não tem que estudar o repertório. Jamais sugeriria isso. Inclusive porque entendo o conhecimento como uma forma de desenvolvimento pessoal, além do profissional. Todo estudo tem que fazer com que a gente aprimore uma habilidade que já tem ou que quer conquistar, tem que dar autonomia para o estudante e tem que dar a segurança necessária para que ele consiga se colocar no papel que escolheu desempenhar. Mas essa segurança, essa autonomia deve levá-lo a fazer mais do que os artistas que são sua inspiração ou até mesmo a negá-los, buscando uma nova maneira de se expressar (que dialoga, claro, com o que já passou). Acho que vem daí o meu interesse por jazz. Cada artista, nesse movimento de interpretar a música, precisa dar um pouco de si, criar frases inesperadas, entonações que revelam o seu modo de expressar a sua voz, a sua leitura daquele conjunto de notas que está cantando/tocando.

No caso do repertório, a música ao vivo já foi esse ambiente que a gente visitava para conhecer novas músicas. Atualmente, a internet faz esse trabalho de apresentação. No entanto, se a gente continua fazendo as mesmas músicas, com a intenção de agradar o público – e, em muitos casos, tem dado certo –, alguma ponta tem ficado perdida nesse contexto, não?

É evidente que não se pode falar mais em cena, nisso eu concordo com o Thiago França (aliás, acompanhem o podcast do Thiago França sobre música, o SABE SOM?, aliás acompanhem o trabalho do Thiago França). Há uma cena múltipla que congrega músicos de estilos muito diferentes, nesse caso, me refiro às cenas autorais que tenho acompanhado aqui no Brasil. Porém, no que diz respeito à musica ao vivo, mesmo com seus projetos autorais, os músicos ainda precisam recorrer ao cover para sobreviver, porque-é-isso-que-o-povo-quer-ouvir. Ouvir as coisas de sempre (concordo aqui com o músico Kiko Dinucci, no mesmo podcast), significa retomar as ideias de sempre, votar nas pessoas de sempre e nunca mudar a nossa realidade.

Já pensei que esse saudosismo deve ser falta de formação musical das pessoas (e me incluo aqui), que não estão acostumadas a ouvir músicas novas. E sei que é irresponsável sugerir que os músicos comecem a batalhar para só tocar autoral, porque eu sei que eles dependem do cover para pagar contas, se alimentar e investir em seus projetos autorais. Agora, estou trabalhando com a hipótese de que a música ao vivo acabou, ficou cristalizada num tempo que não existe mais; é preciso reinventar o show ao vivo, pois o público está mais interessado em seu celular e só vai ouvir você se a música for conhecida dele; mas temo estar sendo muito intempestiva –embora tenha usado essa ideia como título por fins sensacionalistas. De todo modo, se você tiver alguma ideia melhor, comente aqui.

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