Que seja para melhorar

Bacurau já está sendo considerado um western e, apesar da referência ao cinema americano ter sentido, o filme consegue o feito de não merecer a comparação. Ainda que tenha elementos que poderiam caracterizar o estilo, Bacurau tem uma linguagem própria, criada a partir da intenção de não representar o nordestino de modo caricato e, portanto, revoga para si o direito de construir a sua própria estética.

O filme se passa no futuro em relação ao que vivemos em 2019. Bacurau é um povoado que vive enfrentando a escassez de água e comida. As únicas empresas que parecem ter algum sucesso no local são as de bebidas alcóolicas, a prostituição e o comércio de caixões. A morte é personagem que está sempre na tela, desde o início, quando acontece o velório de uma das matriarcas da cidade, até o fim, quando vencem o inimigo.

Há, nos cidadãos de Bacurau, uma união proveniente da miséria e de uma certa consciência de que só é possível continuar vivendo, se houver essa união. A sociedade é horizontal e, portanto, estão todos no mesmo barco, lutando lado a lado pela sobrevivência. Não se diferencia médico de motorista, nem professor de prostituta. E sequer há personagens mais relevantes do que outros, embora alguns nomes se destaquem e fiquem na memória, caso de Lunga (o guerrilheiro andrógino) e Domingas (a médica bêbada e, talvez por isso, corajosa).

Quando atacado, o povo de Bacurau responde com a mesma violência com a qual são atingidos. Na verdade, as cenas em que eles enfrentam os americanos que os querem exterminar são as mais brutais (e catárticas) de todo o filme. As armas que Bacurau utiliza são as que ficam expostas no museu, isto é, a resistência está na história desse povoado que aprendeu que é só desta forma que se permanece vivo.

O fato de que em um lugar arrasado pela falta de suprimentos básicos ainda exista um museu é uma evidência de que, infelizmente, é preciso lembrar para que ninguém esqueça como se vence o inimigo. Por isso, na entrada da cidade está escrito “Bacurau – se for vá na paz”, dizeres que indicam um povoado pacífico, mas cuja condicional ressoa como um aviso àqueles que não conhecem a fibra de quem vive no local.

A brutalidade com que Bacurau encara o oponente é a grande sacada do roteiro. Só há uma forma de resistir: sendo pior do que aquele que nos oprime; porém, nesse enfrentamento, corre-se o risco de se tornar igual ou pior do que ele. Preço que se paga, quando se quer a paz a qualquer preço ou quando se busca sobreviver. Num cenário em que se mata ou se morre a resposta para esse paradoxo vem da canção “Réquiem Para Matraga”, de Geraldo Vandré, trilha do filme: “Se alguém tem que morrer/ Que seja pra melhorar”.

Inventar a vida

<Mario
muito obrigada
Saudades
Tarsila>

Achei divertido ver uma obra feita em agradecimento a um amigo na exposição da Tarsila. Daí lembrei que a única música que eu escrevi, no meio de tantos rascunhos, alguns imprestáveis, foi pensando em um amigo. Escrevi coisas que não sei se diria a ele, mas graças a essa necessidade de ter o que dizer eu inventei um diálogo entre nós e, graças a essa invenção, com um pé na realidade, um pé na imaginação, a música saiu.

A minha grande dificuldade para escrever músicas, muitas vezes, é dar conta de inventar algo, tirar o pé da realidade. A imaginação é um esforço maior, requer uma habilidade muito maior do que a reflexão sobre a realidade.

(E acho que, no contexto em que vivemos, temos falhado nas duas coisas.)

Sinônimos e pincéis de maquiagem

A coisa que eu mais gosto sobre maquiagem é que não dura para sempre. É muita liberdade isso de mudar uma coisa ou outra na própria aparência e depois voltar ao seu rosto original.

Meus conhecimentos nessa área são modestos. Basicamente, sei preparar pele, aplicar base, fazer um contorno bem simples, passar batom. Sei aplicar o rímel muito bem, preciso admitir. Delinear porcamente. Sombra é uma coisa que não me entra na cabeça, digo no olho; nunca manjei a aplicação. Corretivo é sinônimo de dignidade para mim. Fecho tudo com pó. Só.

Minha vontade sempre foi ter dinheiro pra poder ter uma pele bonita e nunca precisar me maquiar. Nisso, a gente já entende que confunde maquiagem com beleza, como se fosse ela a responsável por nos tornar apresentáveis para o mundo. E isso é um horror, claro. Esses dias, fiquei acompanhando uma pessoa de que gosto muito fazendo tratamentos estéticos e me dei conta de uma coisa: tentar rejuvenescer é a coisa mais patética do mundo.

Trata-se de uma mulher muito bonita. Vi uma foto dela, após uma sessão não sei de quê e fiquei amedrontada. É preciso considerar que ela havia acabado de fazer o tratamento, claro, mas a pele estava toda esticada e estranhamente jovem. Jovem de um jeito falso, plástico – acho que essa é a palavra.

Eu sei que envelhecer não é nada fácil, sobretudo para a mulher (muito embora, acho que a gente pensa mais nisso do que os homens e, nesse caso, acaba conseguindo lidar melhor com o inevitável). Me vejo tendo crises em situações nas quais meu corpo não responde da maneira com que sempre respondeu. Antigamente, eu era a menina sedentária que, ainda assim, conseguia escalar árvores, era mais flexível do que a média. No ballet, era a única que abria um spacat. Mais recentemente, me tornei a tia sedentária que tentou fazer aulas de circo e sequer deu conta de subir no tecido.

Gosto de saber que meu rosto mudou, porque, inclusive, eu mudei. Seria estranho ver o rosto da Bruna de antes como porta voz de uma Bruna totalmente diferente, que é a de hoje. Gosto, também, de saber que a de amanhã vai ter outras nuances que, hoje, não existem. Quando quero me ver um pouco diferente, recorro à maquiagem. Ainda que use sempre a mesma maquiagem.

Se eu vou continuar pensando assim nos próximos anos, não sei. Por ora, continuo achando mais bonitas as mulheres que têm a cara da idade que têm. O que não significa, é claro, que não aprecio quando me dizem que pareço mais jovem do que sou. Lá no íntimo, acho que dizem isso como sinônimo de que sou bonita e não porque de fato me vêem mais jovem. Não sei quem inventou que juventude é sinônimo de beleza. Sugiro que parem com isso.

Queria me desculpar

Não queria ser tão sincera, mas seu português é bem ruim. Você não diferencia o V do B e faz uma simples frase, como “você vai beber hoje?” se tornar incompreensível. Suas vogais são infantis. Em português tem mais que 5 vogais, não deveria ser tão difícil entender isso.


Queria me desculpar pela inconstância. Ao contrário de você, eu tive tempo suficiente pra repassar aqueles dias. Eu forcei a barra, depois desisti. Só que eu fiz isso umas 17 vezes num período de 8 dias. Ainda não sei te dizer porque não me despedi de você como devia. É meio bizarro processar que a pessoa vai e talvez nunca volte.

As coisas deviam ser menos inesperadas para que a gente pudesse se apegar a elas, enquanto pode.

(Escrevi errado, da primeira vez. Troquei “apegar” por “apagar”.)


Sempre achei que nossas vidas se resumem àquele centésimo de segundo que parece que só você viu, mas, na verdade, não viu: você identificou, guardou, etiquetou como “sem categorias”, botou na estante das coisas aleatórias. Quando você volta a elas, percebe que ali, naquele instante exato que o seu cérebro não deixou passar batido, estava tudo.

No caso, você me deixou para trás, mesmo depois de tudo o que eu pus na roda. Mesmo depois de eu admitir o que eu queria.

Poderia dizer que isso não se faz, mas, pensando bem, foi o que aconteceu mesmo. Então, até agradeço a honestidade.


Sentiria pena de mim se eu dissesse que o nosso melhor momento foi aquele em que você ficou falando de outra mulher? É que quando as pessoas falam de si mesmas com sinceridade, elas parecem, sei lá, reais.

Eu acho que até saber mais de você, não tinha sacado que você era real.


(Acho que parte da minha insanidade está no fato de que eu queria saber tudo, eu queria saber como é o seu pai e a sua mãe, se se parecem com você, se são mais ou menos da sua altura ou se sua predileção por mulheres baixas não tem esse fundo edipiano, que eu temia que tivesse, porque, convenhamos, que fixação constrangedora da sua parte.)


Posso afirmar que nós, todos nós, somos irremediavelmente carentes. E isso é triste, claro. Basta alguém demostrar interesse e voilà! Você me contou o momento que mais gostou daqueles dias e foi justamente quando eu falei que iria embora com você. De algum modo, você se sentiu correspondido por alguém que, mesmo sem te conhecer direito, sairia com você rumo a qualquer lugar que quisesse.

É patético, até.

Eu gostei que você veio atrás de mim. Eu não queria admitir, mas eu saí daquela festa, pensando seriamente em ir para casa. Achei que você não daria pela minha ausência. Mas deu. Achei que não viria atrás de mim. Mas veio. Percebe como são pequenas ações que fazem o mundo se movimentar de novo?

Ou é só a pieguice de ter alguém ali notando você na multidão. Alguém com coragem para dizer “vou contigo” ou “fica comigo”. A gente diz cada coisa no calor do momento.


“Entrego en la mano la manzana
Y me la pongo entera en la boca
Peregrina marginal
Terrorista del amor
Terrorista del amor
Terrorista del amor”


Mas aquele dia estava pesado. Coisa de astral mesmo, saca? Um rapaz morreu. Bateram minha carteira. Eu não estava ali com você, eu estava em outra parte e achei injusto comigo mesma não me satisfazer mediante todo o risco que corríamos. Por isso, fui embora.

(Além disso, estava frio. Muito frio.)


É que a vida às vezes é tão sacana.

“Como é que pode ser tão criativo
Auto-confiante, um cara cortês
Pedrinho parece comigo
Mas bem resolvido com sua nudez

E me presenteou num domingo de sol
É meu amigo querido e até dormiu comigo no mesmo lençol
Pedro, esta cantiga não fala de amor
Mas, querido, esse som acho que me entregou”


Queria me desculpar por não ter respondido a última mensagem. Acho que deu, né. A impressão foi a mesma daquele dia horrível: a de que a única pessoa prejudicada com esse tipo de contato seria eu mesma. Eu não quero mais me prejudicar. Desculpa, mas não posso mais fazer isso comigo. As coisas passam, e isso também vai passar. Tudo passa.

Terapia


Eu no divã, olhando para o nada. Ele no sofá ao lado.
– Mas você sempre desistiu facilmente das coisas?
– Olha, quando eu era criança comecei a fazer aulas de órgão. Desisti e fui estudar teclado. Desisti e fui estudar guitarra. Depois parei. 
– De Letras você nunca desistiu?
– Não. Na verdade, desisto sempre, né. Não trabalho na área. Ah, e eu comecei Publicidade, fiz Negócios de Moda…
– E por que você desiste sempre das coisas?
– … esperava que você soubesse a resposta.

Fazer novos “amigos”

Existem algumas habilidades caras para a sociedade em que vivemos e queria destacar a mais relevante delas: a capacidade de fazer amigos. Nunca foi uma característica desenvolvida por mim, seja por timidez, seja por preguiça de iniciar uma nova relação, fazer com que ela dure e esconder, em vão, aqueles defeitos que são quase como marcas de nascença na nossa pele.

O Brasil é um país que se construiu na base do clientelismo e acho muito difícil mudar isso nas próximas gerações. A gente continua conseguindo coisas, desde empregos até uma caipirinha grátis na balada, na base da camaradagem – ou do interesse sexual, mas em alguns setores isso até dá na mesma. Então, quem tem facilidade de fazer amizades – e pode ser até aquela amizade despretensiosa na fila do banco – tem mais chances de ser alguém na vida. Talvez seu próximo emprego dependa disso. De nada.

Como eu sempre negligenciei essa capacidade de me envolver com estranhos e fazer deles meus amigos de infância instantâneos, perdi grandes oportunidades na vida. Recentemente, um pouco mais consciente dessa realidade, e também por precisar de dinheiro, que não estou com essa bola toda de recusar amizades por interesses escusos, tentei me abrir um pouco mais para um grupo específico de pessoas, com quem tive de conviver por pouco tempo, nem 10 dias. E foi ótimo.

Pra começar, amigos novos não sabem nada de você, então tudo o que você conta, qualquer história boba, parece super divertida. Nada como a novidade pra fazer de você alguém interessante. Tudo o que você faz parece legal e corajoso de sua parte. Contar a gente nova que eu ganho dinheiro escrevendo e cantando até me fez esquecer o processo de depauperamento em que me encontro, podendo pegar outros trabalhos temporários e ter tantas experiências na vida.

Meus velhos amigos já se cansaram de me ver sem dinheiro, de me ouvir reclamar que viver de texto e de música no Brasil é bem chatinho; aliás, já se cansaram de ler o que escrevo e de me ouvir cantar. Para os amigos novos, tudo soa como novidade e, como toda novidade, faz com que se sintam interessados por ela. Que continuem como novos amigos para sempre. E em mandem jobs.

Blue in Green

A Clarice, provavelmente, descreveria uma explosão à la Big Bang. Longe de mim discordar dela, inclusive gosto da sugestão, mas quando pensar nisso, capta mais a forma do que necessariamente o conteúdo. É explosão, porque é, sabe, inusitado. Inesperado é a palavra. Era alguma coisa que não deveria acontecer, mas alguém quis levantar e sair do ambiente, tropeçou num cabo qualquer e BUM. Não use a palavra BUM, por favor.

Depois, precisa ficar claro que os dias pareciam mais longos do que o normal. Duro é que não acontecia nada. Mas é isso, o tempo se arrastava e nós junto dele. Nas primeiras conversas, o inesperado, que eu falei antes, precisa coexistir. É que, nesse ponto, ainda não existe nada. Eram pessoas conversando sobre si mesmas, sobre suas formas de ver o mundo. Sobre, sei lá. Sobre arte, mas não qualquer arte. Ninguém fala sobre arte, a menos que queira se exibir. Não é o tom aqui. É sobre aquela música que toca em lugares que ninguém admite frequentar. Você sabe.

E as cores. Precisa mostrar a transição entre azul e verde. Ah, começa sugerindo. Azul aqui, verde acolá. Eu sei que Miles tem aquela música, mas não sei se cabe. Estou em dúvida. Pode anotar, por favor? No momento, investe só nas cores. Porque tem um lance, uma conversa sobre isso. E tem os olhos, claro. Os olhos não têm uma cor definida, é aí que tá. Precisa ter olhar entre eles todo o tempo, mas é um olhar que não tem muito significado, sobretudo para ela. Ele acha que tem. Ele acha que o olhar significa.

Aí vem a bebida, personagem importante. O primeiro porre é intenso e transforma a dinâmica das cenas, entende? Só que, ao invés de aproximar os dois, afasta. Quer dizer, inicialmente aproxima, no dia seguinte, afasta. É que na verdade a bebida é a chama da relação deles. Só que eles não aproveitam isso, então no dia seguinte esfria. Ah, sim, eles continuam bebendo nos próximos dias, mas você entende que não tem mais como retomar o fogo do primeiro dia?

Joker

Hoje me senti mal na academia, quando comecei a fazer os exercícios. Resultado de uma alimentação precária. Por isso, fui da esteira para a aula de alongamento.


A escolha do repertório musical para a aula de alongamento costuma levar em conta o estado de relaxamento que as músicas podem causar nos ouvintes. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que a primeira música relaxante era “I started a joke”.


I started to laugh.


A segunda música agradou as senhoras que me acompanhavam como ouvintes e como alunas. Era “Your Song” do Elton John. Uma das senhoras comentou:- Ah, era tão boa, essa época, né? Ninguém bebia. Os jovens se divertiam sem usar drogas…


Eu ri. It was the first time that the joke wasn’t on me.

Quando me aporrinhes

Tenho pra mim que uma pessoa distraída é uma pessoa apegada aos objetos de seu desejo. Ela se afeiçoa a determinada imagem e nada que lhe aconteça que esteja alheio à tal imagem vai parecer interessante ou tão interessante quanto.

Eu, por exemplo, quando encontro alguém que fala demais, não consigo manter a concentração por muito tempo, ainda mais se o assunto não for minimamente de meu interesse. É necessário um esforço imenso de minha parte para não pegar no sono ou não viajar em ideias completamente aleatórias.

Hoje fui à veterinária do Joaquim, uma mulher que fala pelos cotovelos, conta histórias variadas e infinitas, estendendo, portanto, as consultas até o limite da paciência. Enquanto ela falava, porém, meu cérebro se apegou à primeira imagem que ecoou na minha mente, e não era uma imagem qualquer, era a imagem de mim mesma transando.

A mulher falando sobre leishmaniose e eu me imaginando em um quarto qualquer, de quatro, trepando fortemente com um qualquer – tinha alguém ali comigo, mas eu sequer sabia quem era – e acho que isso não importava. Penso que fora o único recurso possível para que meu cérebro não desligasse. Duro era o esforço para não revelar meus pensamentos impuros via expressão facial.