Inveja dos cães

Estou cansada de ter ideias para textos e nunca conseguir escrevê-los. Meu senso de organização ficou comprometido demais nos últimos tempos. Eu só tenho ideias. As ideias pululam. Assim como Clarice, tenho muita tristeza em não ter sido bicho. Eu olho para o Joaquim e o invejo. Invejo a vida com tempo estendido que ele tem – talvez por isso a vida dos cães seja tão curta. Tempo para dormir, para comer. Tempo para ser. O ser humano nem parece que é. A gente não vive, sobrevive. Mas esse papo também já cansou. Ando me recusando a discutir coisas para as quais não tenho solução. O que é um problema, pois decidi fazer pós-graduação e às vezes parece que meu trabalho ali é só dar solução. Não é. Não se resolve os problemas da África via literatura. Mas, então, como será que resolve? Não resolve. Se sofre. Se vive. Aliás, se sobrevive. Deixa pra lá. Eu já estou sofrendo por antecipação com a reunião que tenho amanhã. Diacho de gente que quer resolver tudo na base da conversa. Pior, na base de uma conversa localizada no tempo. Imagina: em 1h se resolve a crise política, ideológica e identitária da África! Chocante. Vamos fazer uma reunião para colocar os problemas desses caras em dia. Não aguento mais ler sobre a África. Deu pra reparar? Toda vez que leio mais um pouco, penso: insolucionável. E dói. Eu sangro em cada palavra. Mas, e daí, nem sou eu que moro lá. Se fosse, seria pior. A gente não pode reclamar da vida, não. Na verdade, eu não queria mais do que tenho agora. Na verdade na verdade mesmo, eu queria mais tempo.

(Lembro de mim mesma, criança, mal tinha conhecimento do meu tamanho no mundo. Sentei no piano. Toquei. Todo mundo chocado. A menina toca de ouvido! Acho que não era bem isso… Eu tinha tempo. Eu passeava pelas teclas e pensava nelas, ouvia o que elas tinham para me dizer. Depois, quando eu já fazia aulas de órgão, eu entrei na igreja – e lá era o único lugar que tinha um órgão fora a escola de música – e toquei Asa Branca. Teve gente que me repreendeu. Não se toca música “do mundo” por aqui. Foi meu primeiro delito. Foi quando entendi que tinha outros mundos além do meu. Isso me fez ficar mais perto de deus.)

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– Miss Jill Scott, Words and Sounds –


Neste exato momento, estou escrevendo e ouvindo “Experience”, álbum de Jill Scott, pela primeira vez. Estou, também, me odiando um pouco por ter deixado para ouvir esse álbum só agora. Mas é a vida.

Jill Scott, indicação do querido Filipe Murbak, é um passeio pelo soul, R&B, jazz, hip hop, gospel. Jill não é só versátil na música, mas também tem um currículo que passa por aulas de inglês, publicação de poemas e até participação como atriz em séries de TV. 

Não bastasse ser uma cantora de voz potente e ágil, ela ainda é uma super compositora (na qualidade e na quantidade). Diz-se que quando foi lançar “Who is Jill Scott – Words and Sounds Vol 1”, ela apresentou 50 músicas à gravadora, que, claro, tiveram que ser reduzidas a um número mais comercializável. 

Junto a esse álbum, lançado em 2000, Jill lançou “Experience: Jill Scott 826+” (2001), “Beautifully Human: Words and Sounds Vol 2” (2004), “Collaborations” (2007), “The Real Thing: Words and Sounds Vol 3” (2007), “Live in Paris+” (2008), “The light of the sun” (2011), “Woman” (2015), o último com músicas criadas a partir de anotações de um antigo diário.

O primeiro álbum que ouvi dela foi “Woman” e me senti impactada. Ele faz você experimentar o dia a dia na vida de uma mulher, com todos os altos e baixos, seja no amor, seja no trabalho. É um álbum que transita entre uma pegada experimental aqui e um blues enérgico acolá. Se você não se sentir conquistado com “Say thank You”, não tem como sair incólume de “Coming to you”. 

Jill Scott é um caminho sem volta.

Ouça Jill Scott no Spotify: https://open.spotify.com/artist/6AVLthptCPhfrxlHadOBJD

Ato falho

Para Fábio Caldeira

Era filme de super-heróis e eu não sou exatamente uma entusiasta deles. Acontece que na logística dos relacionamentos, está pressuposta a inconveniência de vez ou outra, abrir mão do seu gosto para saciar a vontade daquele que nos tolera. É o mínimo, aliás. Não é propriamernte um fardo. Sobretudo em relações, digamos, mais “frescas”.

Mas o fato é: ele queria ver um filme de super-heróis, eu queria estar com ele. Por isso, abri mão daquela série de filmes, cujas salas de cinema estão sempre às moscas – deveria existir essa categoria -, e me dirigi a uma concorrida sessão de um desses blockbusters da moda. Era início de março, período em que o verão começa a demonstrar cansaço e resignação, assim como nós.

A sessão se iniciava a exatas 22h, tempo suficiente para que nos alimentássemos e nos dirigíssemos calmamente ao lugar determinado no bilhete. Não fosse um certo retraimento de minha parte, poderia dizer que tudo corria na mais perfeita ordem. Agora, avaliando com alguma tranquilidade, posso dizer que meu comportamento tacanho não tolera uma quantidade que ultrapasse dois adolescentes. Não era bem o caso daquela sessão. Tratava-se de um sábado. Não há muito mais a se fazer no mundo, quando se tem entre 13 e 16 anos em pleno sábado.

Veio o filme. Entre um embate e outro, um soco aqui, um pontapé acolá, notei que um casal se levantava. Pensei, primeiramente, em reclamar pelo fato de estarem atrapalhando a visão de todos. Porém, em seguida, percebi que o motivo da saída deles era o fato de estarem exatamente embaixo de uma goteira. Na verdade, chamar aquilo de goteira é até subestimar a capacidade dela de incomodar quem está abaixo. Praticamente chovia sobre a cabeça dos desavisados. 

Uma sensação de pânico me acometeu, quando fui surpreendida por outra goteira. E outra. E mais outra. E em poucos minutos nem parecia que estávamos no cinema, supostamente protegidos por uma estrutura de, sei lá, concreto (?) e gesso. Senti falta da faculdade básica de respirar. Mini-ataque de pânico? Mini-ataque de pânico.

Confesso que, a partir deste momento, algumas cenas ficaram confusas para mim. Mas é certo que o teto desabou. Bem, antes disso, tenho outras confissões a fazer; ideias que me vieram à mente um segundo antes do fato trágico que contei. Primeiro, pensei em correr, aquele óbvio instinto de sobrevivência que se aciona naturalmente em cada ser vivo. Segundo, um sentimento de vergonha, por falta de palavra melhor. Vergonha, no caso, por estar em uma sessão de filme de super herói; imaginei as manchetes no dia seguinte relatando o caso e meu nome envolvido.

Antes que você possa me julgar, sugiro que pense naquilo que detesta ou que diz detestar às pessoas. Algo que não faz parte da identidade que passou anos cunhando, definindo e adaptando. Pense que seu último suspiro vai ser envolto em tudo o que esse seu desgosto significa. E imagine isso estampado nas capas de jornais.

Afora esse rápido devaneio, meu corpo foi completamente soterrado pelos destroços. E então, aconteceu. Percebi um calor ir aumentando e uma iluminação ir se sobressaindo entre os escombros. Era ele. Ele, que estivera ao meu lado durante toda a noite. Ele, por quem me submeti a uma sessão de filme de super herói. Não posso esclarecer como isso se passou, mas ele brilhava como a luz do sol às malditas 12h e, em um breve mas intenso segundo, conseguiu afastar as pedras de cima de nós.

Nunca mais o vi. Também não o procurei. E por mais que lhe deva a minha vida, não posso suportar a ideia de que durante todo o nosso relacionamento – breve, mas real – eu havia me interessado pelo tipo mais inverossímil de todos: o super herói.

Ana Cañas, Amor e Caos

Rapaz, acho que estou para ouvir Ana Cañas desde 2009 e os dias passaram tão rapidamente e tão desavidamente, que eu precisei de um #OuçaMulheres para colocar em dia a agenda musical.

Com Ana, divido algumas particularidades e gostos: 1. começar a cantar tardiamente; 2. gostar e se lembrar de como se sentiu a primeira vez que ouviu Ella Fitzgerald; 3. cantar e gostar de jazz (Ana começou a carreira cantando jazz); 4. se sentir meio sem um estilo definido e insistir nessa mistura para fazer sempre as mesmas coisas.

Formada em Artes Cênicas pela ECA, cheia das parcerias definitivas (Nando Reis, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Arnaldo Antunes, Lúcio Maia), desde que começou na música, Ana gravou “Amor e Caos” (2007), “Hein?” (2009), “Volta” (2012), “Tô na vida” (2015). Esse último, confesso, ainda não ouvi, e é o que ela mais considerou característico do estilo que escolheu para si mesma e com o qual se posicionou mais como artista do que como cantora.

É mais uma cantora que não se coloca em prateleira, apesar de a gente reconhecer que ela é bossa nova e rock’n’roll e é vocal jazz – vá lá ouvir os covers dela e confirmar. Mas a voz tem essas nuances apimentadas de Elis Regina. Uma agressividade que é só na intenção, o que faz a gente lembrar da Patti Smith. Mas isso sou eu tentando entender o que nem Ana entende. 

Ouça Ana Cañas no Spotify: https://open.spotify.com/artist/4v1mao101nIWvxzotCSKyz…

#AnaCañas #OuçaMulheres

P.S.: Ouça Ana Cañas no Sesc Rio Preto! Semana que vem ela vai estar aqui. Segue o eventono Facebook: https://www.facebook.com/events/567358390436374/

Referências Bibliográficas:

http://www.anacanas.com.br/index.php/biografia/

https://revistatrip.uol.com.br/tpm/entrevista-to-na-vida-novo-disco-de-ana-canas

Nikki Hill, Feline Roots

É sempre uma chateação, a coisa da comparação. Mas se isso convencer você a ouvir Nikki Hill, aí vai: já foi considerada a nova Aretha Franklin e foi comparada à Etta James. A melhor comparação, no entanto, veio da Minneapolis Star-Tribune: “If Tina Turner and Little Richard had a daughter and raised her with the help of uncles James Brown and Chuck Berry, she’d be like Nikki Hill.”. Apesar de entender as comparações, para mim, Nikki está mais para ACDC (que é uma de suas bandas favoritas).

Nikki tem três álbuns gravados: “Here’s Nikki Hill” (2013), “Heavy Hearts Hard Fists” (2015) e “Feline Roots” (2016). Conheci a cantora num SESC Jazz’n’Blues da vida e sempre quis ouvir mais do trabalho autoral dela. Um rock sulista, com tempero de blues, soul, reggae e funk. Funciona assim: a gente fica com a impressão de que vai ver um show de blues e se depara com um show de rock. Nikki apresenta o mesmo “problema” que Betty Davis: sua música não tem lugar em classificação nenhuma. E por isso vale a pena ouvir.

No palco, ao menos no dia em que a assisti, há duas protagonistas: sua voz potente e brilhante e o peso da guitarra. Algumas vezes, achei que ela nem estava se importando muito com a nossa presença ali, conversando com a banda, vibrando com os solos dos demais instrumentistas. Em sua música estão claras as raízes do gospel e a rebeldia de quem um dia teve de ser independente e adquirir autonomia sobre a própria vida. Mas como a autonomia é coisa que nem existe, estão lá, em cada letra, em cada nota, os traços de uma fusão perfeita de estilos que compõem Nikki como artista.

Ouça Nikki Hill no Spotify: https://open.spotify.com/artist/28Vn4HKpcOqzagc7tiAxNz

P.S.: Esse post faz parte da série #OuçaMulheres que criei para minha fanpage.

Tulipa Ruiz, o acerto e o desconcerto


Desde o primeiro álbum, Tulipa chegou chegando, mas também pudera. Ela vem de família de músicos e estudou canto lírico por 5 anos na adolescência. Na faculdade, cantou na noite acompanhando grupos musicais diversos. Ou seja, ela já começou cheia de bagagem.

Tulipa canta, compõe e desenha. Além de “Efêmera”, o primeiro disco, com o qual fez turnê pela Europa, América do Sul e EUA, gravou “Tudo Tanto”, “Dancê”, “Cortes Curtos” e “Tu” (meu favorito). As letras exploram o urbano e o natural e, para mim, eles se encaixam perfeitamente nas composições e, sobretudo, na voz dela, que é clara e tem uns vibratos docíssimos (mas não enjoativos). 

As músicas me sugerem o paradoxo do acerto harmônico combinado a um desconcerto presente nas letras. Uma voz afinadíssima, precisa, com todos os arranjos certeiros, agradáveis ao ouvido, combinados à dureza que é crescer e ter que construir uma vida em um mundo que já tem modelos prontos nos quais temos de nos encaixar. 

Em “Dois cafés”, por exemplo, música que está no disco “Tudo tanto” e em “Tu” (que é, para mim, a melhor versão), lidamos com a leveza de uma conversa em que, contraditoriamente, se expõe as dificuldades da vida adulta: “Tem que correr, correr/ Tem que se adaptar/ Tem tanta conta e não tem grana pra pagar/ Tem tanta gente sem saber como é que vai/ Priorizar/ Se comportar/ Ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar”.

Tulipa também canta os relacionamentos humanos, cheios de tensões e de disputas de poder que se dissolvem em face do amor – mas continuam presentes. A famosa “Só sei dançar com você” usa a imagem da dança, na qual um conduz e o outro precisa se deixar conduzir. Durante as estrofes lidamos com a tensão de quem será conduzida na dança, tensão esta que se resolve (parcialmente, pois deixa um sinal de dependência no ar) no refrão “só sei dançar com você/ isso é o que o amor faz”.

Ouça Tulipa Ruiz no Spotify.

(Esse texto faz parte da série #OuçaMulheres que comecei na minha página do Facebook.)

Referência:

Enciclopédia Itaú Cultural

Betty Davis, Nasty Gal

Quando ouvi Betty Davis pela primeira vez, corri para a internet para procurar o que diziam suas letras, já que meu inglês mal falado me impedia de compreendê-las. Não encontrei quase nada. Apesar da barreira linguística, o conteúdo de suas músicas, o que elas significam quando você sente o groove, ouve as guitarras pesadas e o arranhado da voz é muito claro.

Betty Davis lançou poucos álbuns: o “Betty Davis” (meu preferido), o “They say I’m different”, “Is it love or desire” e o “Nasty Gal”. Para escrever esse texto, voltei a eles e encontrei o “The Columbia Years” – arranjado pelo trompetista Hugh Masekela, com participação de Herbie Hancock, John McLaughlin, Mitch Mitchell e Billy Cox -, no qual há, entre outras músicas, “Politician Man”, “Born on the Bayou” e a voz de Miles Davis dando sugestões a ela sobre as gravações. A qualidade dos álbuns não se deve só às parcerias definitivas, como se pode ver pelo “Columbia”, mas à própria Betty, que criava a maior parte de suas músicas e se não as produzia, escolhia a dedo quem o faria.

Qualquer uma de suas músicas indicam que ela era uma artista que não se coloca na prateleira do funk, do soul, do blues ou do rock. Talvez por isso Betty Davis não tenha conseguido o espaço merecido na época em que lançou os discos, além do fato de que se tratava de uma mulher negra falando abertamente sobre sexo no início dos anos 70 nos EUA. Vá ouvir “Nasty Gal”, “Talkin’ Trash”, “Walkin up the road” e entenda.

Se é exagero dizer que ela deu sua contribuição ao fusion, não é exagero dizer que sem Betty Davis não teríamos o “Bitches Brew” do Miles, disco em que o trompetista se rendeu à mistura do rock com o jazz, graças à influência da cantora (que foi sua esposa). Como cantora, não acho que ela era inventiva como uma Ella ou técnica como uma Aretha – o que não significa que ela não estudava. O que se destaca nela, para mim, é sua voz rasgada, agressiva, é a força que vem da sua personalidade vibrante e até um pouco irredutível. 

Betty desistiu (infelizmente!) da carreira de cantora por negar-se a se curvar ao que a indústria exigia dela (aparentemente, as gravadoras queriam que deixasse de explorar sua sexualidade nas músicas, já que houve até boicote às suas apresentações). Queria ser livre para criar à sua maneira. Recusou ser produzida por Eric Clapton (por considerá-lo muito careta) e disse outros sonoros “nãos” até refugiar-se na Philadelphia e viver uma vida reclusa, como, aliás, vive até hoje.

Ouça Betty Davis no Spotify: https://open.spotify.com/artist/5Ryxgm3uLvQOsw4H5ZpHDn

P.S.1: em agosto do ano passado, saiu o documentário “Betty – They say I’m different”, do diretor Phil Cox, que tinha um pouco esse objetivo de tornar conhecida uma cantora tão importante como ela. Tô louca pra ver!

P.S.2: esse texto faz parte de uma série de texto que pretendo fazer na minha página do Facebook a cada 15 dias, se eu conseguir, pois frequência é complicado.

Referências:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/08/betty-davis-tem-trajetoria-revista-em-documentario-que-esta-a-caminho-do-brasil.shtml

https://oglobo.globo.com/cultura/estreia-no-brasil-documentario-que-desvenda-misterios-de-betty-davis-pioneira-do-funk-americano-23252674

https://revistatrip.uol.com.br/tpm/betty-davis-a-cantora-que-marcou-o-funk-e-antecipou-lutas-importantes-do-feminismo

A mulher atrás da porta

As tardes às vezes demoram demais a passar. E faz meses que eu procuro as palavras que descrevam a sensação do calor que consome as horas de trabalho. “As tardes queimam em horas…”.

Procurar a palavra certa é um erro, mas é um belo dum exercício. Digo que é um erro, pois, como diz o ditado “panela vigiada não ferve”. Já passei horas procurando a palavra e acabei me deparando com ela, quase tropeçando nela, em um momento de distração.

Moro em um prédio e o cesto de lixo fica em frente à porta dos fundos. Fui até ele jogar a embalagem de algum alimento, não lembro qual e tampouco importa. Mas lembro que encostei a mão à porta, como se a tarefa fosse demorar mais do que alguns segundos.

Alguém passou no corredor, pude ouvir os passos e identificar a respiração. Mais do que a respiração, ouvi um suspiro no contratempo e aquele aspirar que entrega o choro.

Lágrimas. A dona delas não tinha pressa de passar diante da minha porta, afinal, para ela, era só uma porta. Não adiantaria tentar saber de quem se tratava: eu mal conheço os moradores do prédio. Admito que a culpa é muito mais minha do que deles. O som dos passos caminharam até as escadas e desapareceram nos andares superiores. Não era moradora do meu andar.

Não posso dizer somos sempre solidários à dor alheia. Mas me senti próxima daquela desconhecida. Era mulher. Chorava. Mas manteve-se no caminho. Pensei em escrever sobre ela. Imaginei todos os clichês com que grandes escritores e roteiristas já fisgaram o público. Um rompimento, uma gravidez indesejada, a morte.

Não, eu não usaria nenhum deles. O desconhecido também pode ser descrito, afinal. Gostaria que ela parasse diante da porta. Isso, sim, me daria material para escrever. Queria que tentasse abafar o choro, mas sem conter um soluço. Eu contaria, provavelmente, que aquele choro convulsivo não me permitiria me distanciar da porta. A porta seria, paradoxalmente, nosso elo e o que nos manteria seguras do olhar de pena ou de crítica. Seria nosso único vínculo e o nosso abismo.

Não sei se ela iria se dar conta da minha presença. Talvez o vulto da soleira da porta me entregasse. Ou, melhor ainda, ela nem se desse conta de que havia alguém à espreita, tão aprisionada iria estar à própria dor. O meu silêncio seria de um enorme consolo; o silêncio não julga, não exprime notas pretensamente conselheiras.

Gostaria de registrar o silêncio e o meu receio de que a minha presença a assustasse. Eu tentaria controlar a respiração, como se ela pudesse ouvi-la. Eu tentaria não mexer os pés para que ela não os visse pela sombra. Eu ficaria imóvel em respeito à privacidade de sua dor.

Ficaríamos unidas pelo silêncio, mas também pela porta. Eu descreveria esses poucos segundos como infindáveis, mas resistiria à possibilidade de criar laços com a mulher atrás da porta. Não cometeria o clichê de colocar nossas mãos à porta, como se buscássemos nos aproximar, como se sentíssemos a presença uma da outra como uma força cósmica. Nada disso. Insistiria, talvez, no silêncio, perene e inalterável, de ser a única a saber daquelas lágrimas.

A sorte de ter decisões a tomar

Não tem graça nenhuma considerar Don Drapper seu personagem favorito. Tudo nele faz a gente ter sentimentos contraditórios, o que já é uma forma contraditória de fazer o espectador adorar odiá-lo. 

Eu sei, estou muitos anos atrasada na redação deste texto. Quem viu Mad Men, viu e já tem suas próprias ideias sobre a série. Quem não viu, está mais interessada em séries recentes ou não se sentiu impelida a assistir algo que parece ultrapassado. Eu vi tardiamente a maior parte das séries que assisti. 

Mad Men parece ultrapassada. Todas as cenas gritam para o espectador “estamos nos anos 50/60”. O machismo, o racismo e todos os outros ismos são transparentes e não fazem questão de se esconder. Também não faria sentido não estarem ali. A gente tampa o nariz e tenta aguentar como pode. A trilha sonora é precária, como nos filmes antigos, mas muito bem escolhida. Geralmente, ela surge quando você está distraído, pegando-o de surpresa ou quase não se nota que ela está ali. Há, ainda, cenas belíssimas em que a música tem de ser ouvida e as cenas é que a acompanham.

Há diversos personagens admiráveis. Peggy (a quem devo o título deste texto) e sua vontade de ser uma profissional destacada em um universo profundamente masculino e excludente, Joan e a sua consciência de que não importa o quanto trabalhe, estude e o quanto se dedique, sempre será, aos olhos dos patrões e de muitos colegas, a mulher bonita que só vai conseguir algum destaque na empresa, caso durma com alguém. Betty e sua perfeição que vai sendo desacreditada em cada episódio, o que faz dela ainda mais perfeita, enquanto personagem, e ao mesmo tempo tão realista. Desde o faz-tudo da agência até Don Drapper, os personagens foram tão bem criados que qualquer aparição faz a gente pensar neles para além de sua função na agência e na narrativa. E isso é genial.

Mas, hoje, quero destacar Roger Sterling. 

Sterling é o clássico homem branco, hétero e rico da série. Tudo o que conquistou parece vindo de uma grande e robusta herança e suas relações mais próximas têm a mediação do capital de alguma forma. 

O personagem tem um humor debochado. É rápido nas respostas para os colegas e mesmo para os clientes e, não raramente, a cena se encerra com um comentário seu, seguido de um silêncio irônico, como quando Drapper pergunta a ele “o que as mulheres querem?” e sua resposta é “quem se importa?”, toma um gole de whisky e a cena acaba aí.

Roger passa o dia na agência, em reuniões com clientes e em quartos de hotel com mulheres diversas. Nas reuniões ele raramente está sozinho, sempre aparece para mediar alguma conversa, se sai bem nisso e se dá por satisfeito com o seu trabalho. Sinceramente, ele parece trabalhar menos do que Cooper, o outro sócio da agência (o mais rico deles e, sem dúvida, o mais excêntrico).

Seu melhor amigo é Drapper e tem Cooper como a um pai. E só. É extremamente infiel, o que não quer dizer nada, pois, qualquer homem da série poderia sê-lo e continuar com a consciência impávida e brilhante (o que a série retrata com detida veracidade). Não sabemos bem se ele é capaz de amar sinceramente ou ser amado. Em uma das poucas conversas que ele tem com a filha, ela lhe pede dinheiro e ela o faz logo após o velório da avó, a mãe de Sterling. Suas experiências mais sinceras foram catalisadas por LSD. A única mulher com quem parece ter algo real – um filho, inclusive – é Joan, a quem ele vende numa transação comercial com um cliente importante.

Na primeira vez em que vi a série, achei-o incrivelmente hábil com as palavras. Na segunda vez, notei um lado meio patético, correndo atrás de mulheres bem mais jovens do que ele, perdendo seu único cliente e fingindo não ter nem responsabilidade nisso e ter sido pego de surpresa. Achei-o um pouco velhaco, também. A série, corajosamente, não faz o espectador sentir pena dele em momento algum. Quando a gente espera que a narrativa desemboque para o “pobre menino rico”, ela deixa entrever que de coitado Roger não tem nada. É evidente que a vida dele é repleta de experiências estéreis, as quais não lhe permitem chorar no velório da própria mãe, mas isso não deve jamais levá-lo à forca. Roger tem status e dinheiro o suficiente para não precisar fingir sofrimento.

A gente passa a série achando que em algum momento ele vai se dar mal. Mas mesmo quando perde o controle da empresa, Sterling continua na mesma. Cooper tem toda razão quando diz que ele não é um líder. E, sinceramente, é o tipo de indivíduo blindado que nunca precisou ser, nem precisará ser um líder. Roger é absolutamente o mesmo desde o início da série até o fim dela. Parece um castigo para um homem que tem tudo? Mas castigo só funciona, quando afeta o indivíduo. Não se sabe se é o caso.

Da coxia

Penso que as histórias da coxia são mais interessantes do que qualquer peripécia que aconteça no palco. Se há magia no palco, a mim me parece ainda mais mágico aquele ponto em que se divide real e imaginário. A linha entre os dois tem o tamanho do tecido que separa a coxia do palco e se desvanece na expressão do artista quando ele o atravessa.

No dia da minha apresentação de circo, receio que tenha me deixado levar pela tensão de início. Apesar de ser muito dada ao gosto de observar as pessoas, confesso que minha mente esteve em outra dimensão nos minutos que antecederam o espetáculo. Pouco me dei conta do que havia ao redor. As pessoas que sabem se concentrar ou que se rendem ao próprio torpor perdem por não observarem o que se passa ao seu redor. Bem, há perdas e ganhos de todos os lados.

Naquele dia, aconteceu uma história, um diálogo na verdade, desses que eu certamente ouviria com atenção, se não estivesse tão ensimesmada em virtude do nervosismo pré-apresentação. Um diálogo de que até duvidei, pois muito surpreendente, menos pela narração que posteriormente me foi feita e mais pelos personagens que dela fazem parte.

Quem me contou, foi um companheiro de espetáculo, a quem dedico estas linhas bem traçadas, graças ao editor no qual escrevo. Não fosse ele, não sei se estaria escrevendo esta história. Aliás, vamos a ela.

Todo mundo conhece Alice no país das maravilhas. A menina que se perde, que se encolhe e se espicha. O coelho muito atarefado, sempre de olho no relógio. A bruxa querendo cortar-lhes as cabeças. Devem se lembrar, ademais, das dúvidas de Alice sobre quem ela é. Alice, com muita razão, percebe as mudanças que lhe acometem ao longo de um mesmo dia. Até aqui nada de novo.

Pois bem. Um dos espetáculos que aconteceriam logo após o meu tratava-se de uma montagem circense de Alice no país das maravilhas, os personagens seriam encarnados por crianças de não muito mais do que 6 ou 7 anos. Alice é a personagem principal da história e, mesmo tendo tantos personagens até mais interessantes do que ela, é a única cujo nome intitula a história de todos os outros.

Antes da apresentação, elas se juntaram e entre as muitas conversas, uma chamou a atenção do meu amigo.

Uma das meninas levantou uma lebre constrangedora:

– Curioso, – começou ela – eu me chamo Alice.

Entendendo o olhar duvidoso das outras meninas que por ali estavam, Alice explicou:

– Se eu me chamo Alice, logo quem deveria ser a Alice da apresentação sou eu.

Outra menina, que se tratava da protagonista do espetáculo, se pronunciou sentindo uma possível ameaça:

– Agora é tarde demais. Eu sou Alice. 

– Não estou criticando a escolha – disse a provocadora – só estou dizendo que eu sou a Alice verdadeira e você, a falsa.

A observação da Alice (a “verdadeira”, no caso) já seria incrível, não fosse a insistência da outra Alice, a “falsa” em provar ser ela a personagem verdadeira. Preciso lembrar a todos de que se tratavam de crianças de não mais que 7 anos. Discutindo, como se brincassem de dados, quem deveria ser a Alice real e quem era a falsa e, mais ainda, discutindo os limites entre realidade e ficção. Elas não sabem (ou sabem até demais), mas ninguém jamais conseguiu precisar esses limites.  

Pensei na irritação da Alice “falsa” e na dificuldade dela em provar ser a personagem “verdadeira”. Minha maior tristeza em não ter ouvido esse diálogo, foi ter perdido a oportunidade de perguntar às meninas, com sorriso irônico: “Quem é você?”.