Queria me desculpar

Não queria ser tão sincera, mas seu português é bem ruim. Você não diferencia o V do B e faz uma simples frase, como “você vai beber hoje?” se tornar incompreensível. Suas vogais são infantis. Em português tem mais que 5 vogais, não deveria ser tão difícil entender isso.


Queria me desculpar pela inconstância. Ao contrário de você, eu tive tempo suficiente pra repassar aqueles dias. Eu forcei a barra, depois desisti. Só que eu fiz isso umas 17 vezes num período de 8 dias. Ainda não sei te dizer porque não me despedi de você como devia. É meio bizarro processar que a pessoa vai e talvez nunca volte.

As coisas deviam ser menos inesperadas para que a gente pudesse se apegar a elas, enquanto pode.

(Escrevi errado, da primeira vez. Troquei “apegar” por “apagar”.)


Sempre achei que nossas vidas se resumem àquele centésimo de segundo que parece que só você viu, mas, na verdade, não viu: você identificou, guardou, etiquetou como “sem categorias”, botou na estante das coisas aleatórias. Quando você volta a elas, percebe que ali, naquele instante exato que o seu cérebro não deixou passar batido, estava tudo.

No caso, você me deixou para trás, mesmo depois de tudo o que eu pus na roda. Mesmo depois de eu admitir o que eu queria.

Poderia dizer que isso não se faz, mas, pensando bem, foi o que aconteceu mesmo. Então, até agradeço a honestidade.


Sentiria pena de mim se eu dissesse que o nosso melhor momento foi aquele em que você ficou falando de outra mulher? É que quando as pessoas falam de si mesmas com sinceridade, elas parecem, sei lá, reais.

Eu acho que até saber mais de você, não tinha sacado que você era real.


(Acho que parte da minha insanidade está no fato de que eu queria saber tudo, eu queria saber como é o seu pai e a sua mãe, se se parecem com você, se são mais ou menos da sua altura ou se sua predileção por mulheres baixas não tem esse fundo edipiano, que eu temia que tivesse, porque, convenhamos, que fixação constrangedora da sua parte.)


Posso afirmar que nós, todos nós, somos irremediavelmente carentes. E isso é triste, claro. Basta alguém demostrar interesse e voilà! Você me contou o momento que mais gostou daqueles dias e foi justamente quando eu falei que iria embora com você. De algum modo, você se sentiu correspondido por alguém que, mesmo sem te conhecer direito, sairia com você rumo a qualquer lugar que quisesse.

É patético, até.

Eu gostei que você veio atrás de mim. Eu não queria admitir, mas eu saí daquela festa, pensando seriamente em ir para casa. Achei que você não daria pela minha ausência. Mas deu. Achei que não viria atrás de mim. Mas veio. Percebe como são pequenas ações que fazem o mundo se movimentar de novo?

Ou é só a pieguice de ter alguém ali notando você na multidão. Alguém com coragem para dizer “vou contigo” ou “fica comigo”. A gente diz cada coisa no calor do momento.


“Entrego en la mano la manzana
Y me la pongo entera en la boca
Peregrina marginal
Terrorista del amor
Terrorista del amor
Terrorista del amor”


Mas aquele dia estava pesado. Coisa de astral mesmo, saca? Um rapaz morreu. Bateram minha carteira. Eu não estava ali com você, eu estava em outra parte e achei injusto comigo mesma não me satisfazer mediante todo o risco que corríamos. Por isso, fui embora.

(Além disso, estava frio. Muito frio.)


É que a vida às vezes é tão sacana.

“Como é que pode ser tão criativo
Auto-confiante, um cara cortês
Pedrinho parece comigo
Mas bem resolvido com sua nudez

E me presenteou num domingo de sol
É meu amigo querido e até dormiu comigo no mesmo lençol
Pedro, esta cantiga não fala de amor
Mas, querido, esse som acho que me entregou”


Queria me desculpar por não ter respondido a última mensagem. Acho que deu, né. A impressão foi a mesma daquele dia horrível: a de que a única pessoa prejudicada com esse tipo de contato seria eu mesma. Eu não quero mais me prejudicar. Desculpa, mas não posso mais fazer isso comigo. As coisas passam, e isso também vai passar. Tudo passa.

Terapia


Eu no divã, olhando para o nada. Ele no sofá ao lado.
– Mas você sempre desistiu facilmente das coisas?
– Olha, quando eu era criança comecei a fazer aulas de órgão. Desisti e fui estudar teclado. Desisti e fui estudar guitarra. Depois parei. 
– De Letras você nunca desistiu?
– Não. Na verdade, desisto sempre, né. Não trabalho na área. Ah, e eu comecei Publicidade, fiz Negócios de Moda…
– E por que você desiste sempre das coisas?
– … esperava que você soubesse a resposta.

Fazer novos “amigos”

Existem algumas habilidades caras para a sociedade em que vivemos e queria destacar a mais relevante delas: a capacidade de fazer amigos. Nunca foi uma característica desenvolvida por mim, seja por timidez, seja por preguiça de iniciar uma nova relação, fazer com que ela dure e esconder, em vão, aqueles defeitos que são quase como marcas de nascença na nossa pele.

O Brasil é um país que se construiu na base do clientelismo e acho muito difícil mudar isso nas próximas gerações. A gente continua conseguindo coisas, desde empregos até uma caipirinha grátis na balada, na base da camaradagem – ou do interesse sexual, mas em alguns setores isso até dá na mesma. Então, quem tem facilidade de fazer amizades – e pode ser até aquela amizade despretensiosa na fila do banco – tem mais chances de ser alguém na vida. Talvez seu próximo emprego dependa disso. De nada.

Como eu sempre negligenciei essa capacidade de me envolver com estranhos e fazer deles meus amigos de infância instantâneos, perdi grandes oportunidades na vida. Recentemente, um pouco mais consciente dessa realidade, e também por precisar de dinheiro, que não estou com essa bola toda de recusar amizades por interesses escusos, tentei me abrir um pouco mais para um grupo específico de pessoas, com quem tive de conviver por pouco tempo, nem 10 dias. E foi ótimo.

Pra começar, amigos novos não sabem nada de você, então tudo o que você conta, qualquer história boba, parece super divertida. Nada como a novidade pra fazer de você alguém interessante. Tudo o que você faz parece legal e corajoso de sua parte. Contar a gente nova que eu ganho dinheiro escrevendo e cantando até me fez esquecer o processo de depauperamento em que me encontro, podendo pegar outros trabalhos temporários e ter tantas experiências na vida.

Meus velhos amigos já se cansaram de me ver sem dinheiro, de me ouvir reclamar que viver de texto e de música no Brasil é bem chatinho; aliás, já se cansaram de ler o que escrevo e de me ouvir cantar. Para os amigos novos, tudo soa como novidade e, como toda novidade, faz com que se sintam interessados por ela. Que continuem como novos amigos para sempre. E em mandem jobs.

Blue in Green

A Clarice, provavelmente, descreveria uma explosão à la Big Bang. Longe de mim discordar dela, inclusive gosto da sugestão, mas quando pensar nisso, capta mais a forma do que necessariamente o conteúdo. É explosão, porque é, sabe, inusitado. Inesperado é a palavra. Era alguma coisa que não deveria acontecer, mas alguém quis levantar e sair do ambiente, tropeçou num cabo qualquer e BUM. Não use a palavra BUM, por favor.

Depois, precisa ficar claro que os dias pareciam mais longos do que o normal. Duro é que não acontecia nada. Mas é isso, o tempo se arrastava e nós junto dele. Nas primeiras conversas, o inesperado, que eu falei antes, precisa coexistir. É que, nesse ponto, ainda não existe nada. Eram pessoas conversando sobre si mesmas, sobre suas formas de ver o mundo. Sobre, sei lá. Sobre arte, mas não qualquer arte. Ninguém fala sobre arte, a menos que queira se exibir. Não é o tom aqui. É sobre aquela música que toca em lugares que ninguém admite frequentar. Você sabe.

E as cores. Precisa mostrar a transição entre azul e verde. Ah, começa sugerindo. Azul aqui, verde acolá. Eu sei que Miles tem aquela música, mas não sei se cabe. Estou em dúvida. Pode anotar, por favor? No momento, investe só nas cores. Porque tem um lance, uma conversa sobre isso. E tem os olhos, claro. Os olhos não têm uma cor definida, é aí que tá. Precisa ter olhar entre eles todo o tempo, mas é um olhar que não tem muito significado, sobretudo para ela. Ele acha que tem. Ele acha que o olhar significa.

Aí vem a bebida, personagem importante. O primeiro porre é intenso e transforma a dinâmica das cenas, entende? Só que, ao invés de aproximar os dois, afasta. Quer dizer, inicialmente aproxima, no dia seguinte, afasta. É que na verdade a bebida é a chama da relação deles. Só que eles não aproveitam isso, então no dia seguinte esfria. Ah, sim, eles continuam bebendo nos próximos dias, mas você entende que não tem mais como retomar o fogo do primeiro dia?

Joker

Hoje me senti mal na academia, quando comecei a fazer os exercícios. Resultado de uma alimentação precária. Por isso, fui da esteira para a aula de alongamento.


A escolha do repertório musical para a aula de alongamento costuma levar em conta o estado de relaxamento que as músicas podem causar nos ouvintes. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que a primeira música relaxante era “I started a joke”.


I started to laugh.


A segunda música agradou as senhoras que me acompanhavam como ouvintes e como alunas. Era “Your Song” do Elton John. Uma das senhoras comentou:- Ah, era tão boa, essa época, né? Ninguém bebia. Os jovens se divertiam sem usar drogas…


Eu ri. It was the first time that the joke wasn’t on me.

Quando me aporrinhes

Tenho pra mim que uma pessoa distraída é uma pessoa apegada aos objetos de seu desejo. Ela se afeiçoa a determinada imagem e nada que lhe aconteça que esteja alheio à tal imagem vai parecer interessante ou tão interessante quanto.

Eu, por exemplo, quando encontro alguém que fala demais, não consigo manter a concentração por muito tempo, ainda mais se o assunto não for minimamente de meu interesse. É necessário um esforço imenso de minha parte para não pegar no sono ou não viajar em ideias completamente aleatórias.

Hoje fui à veterinária do Joaquim, uma mulher que fala pelos cotovelos, conta histórias variadas e infinitas, estendendo, portanto, as consultas até o limite da paciência. Enquanto ela falava, porém, meu cérebro se apegou à primeira imagem que ecoou na minha mente, e não era uma imagem qualquer, era a imagem de mim mesma transando.

A mulher falando sobre leishmaniose e eu me imaginando em um quarto qualquer, de quatro, trepando fortemente com um qualquer – tinha alguém ali comigo, mas eu sequer sabia quem era – e acho que isso não importava. Penso que fora o único recurso possível para que meu cérebro não desligasse. Duro era o esforço para não revelar meus pensamentos impuros via expressão facial.

Don está com a mulher que é o começo de tudo, a mulher com quem até o momento ele se sente à vontade para falar de suas indecisões criativas; há um tom terroso, beira o bege, indício de paixão que desaquece e perde a brasa. É meio de semana. Provavelmente quarta. Uma quarta-feira nunca tem cor que não seja o cinza ou o pastel. Mas é tempo de mudança. Mais uma. Um novo painel em que se joga as cores. Não há retorno; há só uma chance de acerto, uma só chance de colorir, pincelar o tecido cru; uma vez feito, está feito. Não se repinta o que já foi colorido, nem se apaga as marcas. Não se volta atrás para corrigir os erros; vai ver, não era erro, era escolha (faça os outros acreditarem nisso e você estará feito!). “O que as mulheres querem?”. Fazer escolhas pode ser uma resposta. Está na ponta do nariz, é só ter olhos para ver. Esta cena de uns 10 segundos, no entanto, é sobre o que quer esta mulher em particular. Ser o remédio, é o que ela diz. O que importa mesmo é que toca Blue in Green o tempo todo.

Obs.: o episódio a que fiz referência é “5G” da primeira temporada de Mad Men.

Contém spoiler

Um spoiler não deveria estragar um filme inteiro, mas geralmente estraga. Eu não vi Game of Thrones, mas li que Arya Stark disse a frase “Not today” para outro personagem e só de contar isso ao meu marido, estraguei todo o episódio que depois ele assistiu. Eu entendo quem odeia spoiler. É sacanagem passar 3 horas no cinema vendo um filme que se resume em apenas uma frase. É como comprar um carro, mas nunca ter dinheiro para colocar gasolina, ou seja, você se satisfaz com a compra, mas não pode se satisfazer com a experiência que o produto poderia dar.

Reconheço que há spoilers e spoilers. Quando assisti Breaking Bad, lembro de como me senti após ver a cena que se tornou a minha favorita da série: a cena em que Heisenberg enfrenta o Tuco com o seu conhecimento sobre química. O impacto da cena, a sensação que senti quando ele explodiu a boca do traficante, fora definitivo para que eu compreendesse o quanto aquele personagem estava se deixando seduzir pelo poder da condição que escolhera para si.

Na noite em que vi o episódio mencionado, meu marido dormiu no sofá e perdeu esse trecho tão importante, ao meu ver, para a constituição do personagem a quem conhecíamos a cada novo episódio. Contei a ele o que havia acontecido mais ou menos como expliquei aqui: Heisenberg enfrentou Tuco com a sua inteligência. Expliquei, também, as consequências de sua atitude e os possíveis desdobramentos para a série. Veja, se ele não quisesse rever o episódio, nem faria falta. Porém, eu queria que ele se sentisse como eu me senti diante da tela. Queria que aquele impacto o incendiasse e o levasse a compreender quem era Heisenberg, pois, inclusive, aquela cena é, para mim, um encontro do personagem consigo mesmo ou com quem ele sempre quisera ser.

Dei esse spoiler de Breaking Bad para mostrar que há, sim, modos de se contar uma história sem deixar o espectador puto por perder a experiência que a cena pode lhe causar. Mas também sei que Breaking Bad é o tipo de série que permite um spoiler sem que a gente sinta que perdeu a trajetória. É uma série cujos fatos estão tão bem elaborados na estrutura do roteiro, que é fácil separar o “como” d’ “o que”. Imagino que em boa parte dos filmes e das séries o “como” é, digamos, não tão bem arranjado, daí que se você contar “o que”, o filme ou a série acaba aí.


O fim dos likes

Não sei se existe coincidência, mas recentemente vi alguns posts no Twitter mencionando blogs antigos e o quanto era divertido ser articulista de um nicho de 20 pessoas numa época nem tão distante. A primeira vez que ouvi falar em blogs foi num artigo da Veja e o primeiro que acessei foi o Blog dos Excluídos. Não convém falar dele neste momento, mas na época fiquei encantada com a possibilidade de compartilhar meu diário com as pessoas.

Um dos meus primeiros blogs tinha a função de me ajudar a manter o hábito da escrita e eu escrevia uns textos bem confessionais, os quais apaguei sem dó, quando me dei conta de que ninguém queria saber. Mas, até hoje eu mantenho esse espaço aqui (mantenho financeiramente, inclusive), no qual trato de assuntos diversos, no tom que mais me apetece, sem me preocupar com palavras-chave e demais ferramentas que me façam ser encontrada pelos bots do Google, porque gosto de tratar de temas que me ocupam a mente no dia a dia, por mais estúpidos que sejam. Tenho meus momentos de resenhista e de articulista, mas são fases da vida, nas quais nos afundamos todos.

Desde que o Mark anunciou que pretende acabar com os likes nas redes sociais, tenho me preocupado com a existência deste espaço aqui e já vou explicar o motivo. Curiosamente (ou não), tenho sentido falta de escrever sobre o meu dia a dia e coisas que penso corriqueiramente: sobre aulas de canto, sobre a vontade de (tentar) escrever literatura, sobre o quanto o mestrado é amargo e parece nunca ter um fim. Enfim, coisas que não servem nem para quem ainda lê blog, nem para as pessoas que utilizam blogs como ferramenta de trabalho.

Não servia, aliás. O anúncio do Mark veio com a informação da nova estratégia, que nem é tão nova assim, de que “o ouro” (palavras dele), agora, são as mensagens inbox, aquelas que a gente envia via Messenger, via Mensagem Direta, via WhatsApp. Mark sacou faz tempo que a gente só tem compartilhado conteúdo filtrado. Veja, a quantidade de likes em aplicativos como o Instagram ajuda os seguidores a saberem o quanto aquele perfil é querido por outros seguidores. Quanto mais likes, mais relevância o perfil tem. A necessidade de likes, porém, gera uma ansiedade naquele que publica, o que, paradoxalmente, tem feito as pessoas publicarem menos por medo da rejeição. Cada vez mais, estamos buscando lugares, digamos, mais seguros para compartilhar nossas ideias e para, no limite, bater papo.

No Facebook, por exemplo, diminuiu a quantidade de gente publicando conteúdo sobre política, já que, ao invés de debater ideias ou de conquistar o rótulo de um cidadão bem informado, quando você publica links/textos sobre política, conquista desafetos. Ao perceber que as pessoas estão evitando compartilhar informação nos feeds e timelines da vida, Mark está focado em vasculhar nossas mensagens privadas. E é aí que eu entro.

É evidente que ninguém ainda comentou nada sobre blogs, mas, dentro dessa lógica, os blogs mais voltados para a vida pessoal de quem escreve vão estar no espectro dessa gente que tem motivos escusos para acompanhar nossa vida privada – não importa quão desinteressante ela pareça ser. Isso me faz questionar, com muito pesar, a existência deste espaço de escrita, pois (e digo isso com a consciência de que é tarde para me preocupar com a quantidade de informação que descarto na internet), ao invés de usá-lo na contramão das técnicas de SEO, há a chance de que eu o tenha alimentado exatamente com a informação que há de me manipular.

Acho estranho e meio sintomático que, recentemente, várias pessoas tenham sentido falta de ler blog, sendo que, com blog, elas não estão se referindo àqueles vinculados a sites de notícias, mas sim, a lugares anacrônicos como esse aqui e mais uns 5 que existem na internet e que estão até desatualizados há anos, mas resistindo bravamente. Pode ser paranoia minha e pode ser coincidência. Mas sei lá se existe coincidência.