Campo de trigo com ciprestes

Eu sempre tive pressa. Quando criança, passei do colo da minha mãe para o chão, sem passar pelo engatinhar. Acho que eu sempre quis alcançar coisas maiores e mais desafiadoras – e curiosamente tenho tão pouco de altura.

Depois de pintar minha primeira tela, uma paisagem noturna em tinta à óleo, busquei algo que realmente tivesse algum sentido para mim e escolhi “Campo de trigo com ciprestes”, que foi pintado por Van Gogh no período em que ele passou em Saint-Rémy, recuperando-se de uma crise de nervos – ou da boa e velha loucura. Foi logo depois de ele arrancar uma das orelhas.

Desde que decidi por esse quadro, tenho lidado com os meus próprios julgamentos sobre uma possível manifestação de presunção de minha parte. Eu já aceitei que não sou nenhum Van Gogh. Meu professor disse o mesmo. Mas, eu não queria pintar qualquer coisa. Eu queria entender esse turbilhão que Van Gogh registrou na tela, que acomete os campos e o céu. Eu posso criar a minha própria versão de Van Gogh. Eu posso me afundar no meu intento – e me perder por esses campos e por essas nuvens, como já está acontecendo com as primeiras pinceladas. Não importa. Van Gogh vale o risco (e a tinta).

Li por aí que, entre os significados de cipreste, temos luto e longevidade. Talvez Van Gogh quisesse registrar a consciência de sua mortalidade mas, com a tela, estivesse tentando alcançar a imortalidade. Eu quero, sim, como sempre quis, alcançar muitas coisas, mas a minha presunção, ainda bem, não é páreo para a de Van Gogh. A consciência de nossos próprios limites é mais importante até do que a consciência da mortalidade. E nessa arte – a de conhecer os meus limites – eu já sou bastante avançada.

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Desenhando pausas

As coisas que de fato importam são feitas de pausas. O Drummond achou que a vida necessita delas. Eu, com todo o respeito que tenho a ele, acho mesmo é que as pausas já estão ali. A gente é que não lhes dá o devido valor.

Em tempos de WhatsApp, os grupos acabam sendo uma maneira de não se deixar engolir pelas pausas e pelo silêncio. A ideia é estar em contato, independentemente da necessidade ou da relevância da conversa. Os amigos estão sempre ali. A família e os colegas de trabalho, também. Na época em que trabalhava em empresa, o meu WhatsApp até parecia refúgio para alguns clientes que, olha, não sabiam aproveitar uma das melhores pausas: o fim de semana.

Ultimamente, eu tenho experimentado a ideia do vazio e muito tenho aprendido com ela. Com a dança contemporânea, estou tendo que aprender a lidar com espaços que preciso encontrar no corpo para a realização de alguns movimentos. Se rolar no chão é simples, tente fazer isso sem tirar as mãos e os pés do chão. Sincronizar esses movimentos requer que você conheça alguns espaços de fuga do corpo, os quais geralmente ignora, porque nunca se aproveitou deles como deveria. Nas aulas de desenho, o professor insiste para que eu desenhe os espaços vazios, que eu aprenda a enxergá-los na composição. O lance é olhar para o objeto, observar as formas que surgem dos espaços vazios e desenhá-las, pois também existem formas naquilo que não está lá. Na música, as pausas são indiscutivelmente essenciais e vêm na forma de silêncio. Não existe o som, se não existir o silêncio, e ao aprender a ouvir a canção como um todo, você aprende a ouvir o silêncio, passa a reconhecê-lo e identificar os movimentos que o som é capaz de criar.

As pausas também podem ser dolorosas, mas acho que a vantagem de se acostumar com elas é que você sempre as espera, de uma forma ou de outra. O Adorno diz que a descontinuidade pode ser insuportável para quem não consegue enxergar o todo – e as pausas fazem parte dele. O que significa que também é importante perceber quando sua vida está num momento desses de pausa. As pessoas falam sempre sobre buscar a felicidade, como se isso fosse um movimento para fora. Sair e ver o mundo, o que parece naturalmente bom, mas também perdem por não observar as pausas.

Encontrei, recentemente, uma citação do Kafka que, de certa maneira, tem a ver com o assunto:

Não é necessário sair de casa.

Permaneça em sua mesa e ouça.

Não apenas ouça, mas espere.

Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.

Então o mundo se apresentará desmascarado.

Em êxtase, se desdobrará sobre os seus pés.

 

Born Under a Bad Sign

A imagem é mesmo muito marcante. Nas aulas de desenho aprendi que a dificuldade que a maior parte das pessoas encontra para desenhar existe porque criamos símbolos na nossa cabeça de tudo o que vemos ao longo da vida. Aí, quando vamos tentar desenhar algo ou alguém, desenhamos os símbolos e não aquilo que, efetivamente, estamos vendo.

Isso é curioso, porque quando penso em música a relação é parecida. Eu sempre tento cantar as músicas do meu jeito – ou do jeito que eu sei.  Mas, essa ideia de criar uma ideia simbólica sobre as coisas explica o fato de eu não conseguir cantar as músicas da Janis Joplin. Eu não consigo interpretar as músicas dela, porque o que ela faz já se cristalizou na minha cabeça. Também não seria capaz de imitá-la e nem acho que deva.

Algumas músicas “pedem” para que você as interprete. É o caso de Born Under a Bad Sign. Hoje, ouvi algumas versões dela e qualquer um consegue perceber que, apesar de uma base melódica comum, todo cantor vai tentar colocar algo de seu na interpretação. Acho isso bem bacana, porque a música acaba renascendo, de certa forma, na voz de cantores diferentes. É como se a imagem dessa música mudasse para cada um que a cantasse. Você pode perceber ao ouvir as versões de Albert King, do Cream, do Buddy Guy e da Nina Simone, só para citar alguns. Quando tiver gravado, posto a minha também que, claro, jamais será tão impressionante quanto a desses caras.

 

P.S.: Para quem não sabe: sou vocalista da banda Luigi e os Pirandellos e Born Under a Bad Sign tem sido um de meus desafios nos últimos ensaios.