Indicação de leitura

Muito de minhas memórias da infância se resumem a uma manta que usei nos primeiros minutos de vida e que foi feita pela minha mãe. Nossos brinquedos, meus e de minhas irmãs, e nossas roupas de criança foram doadas. Menos a manta e outros itens que minha mãe considera de valor sentimental. Aprisionada naquela manta estão os primeiros vestígios da minha existência e o índice dos cuidados de minha mãe sobre mim, já que eu iria nascer nos primeiros dias de maio, os quais costumavam ser mais frios e, portanto, mais agressivos para um bebê.

As relações que criamos com os objetos que nos cercam são bem mais complexas do que gostamos de admitir. Quando a minha avó faleceu, fui até a sua casa e abri o guarda-roupa dela como se eu pudesse encontrá-la ali. E ela realmente estava ali. O cheiro, o zelo, os tecidos destruídos pelo tempo (o tempo de vida de minha avó), os detalhes que ela gostava de acentuar, como bordados e aplicações, eram a minha memória de minha avó. Eram os rastros dela por este mundo.

Percebo que, de tempos em tempos, escolho um item de vestuário como favorito e tento usá-lo de maneiras diferentes por algum tempo, até que as alternativas se esgotam e eu passe a escolher outro item e a adotar ideias semelhantes para o uso. Há a questão do fetiche, quando somos aprisionados pela ideia do consumo – e pelos objetos somos consumidos -, mas há também, a questão da memória que permanece nos objetos. As roupas permanecem neste mundo por mais tempo do que nós e são lastros da nossa existência.

É sobre as roupas, sua memória, sua importância para a vida em sociedade e para consumação de nossa identidade que se trata o livro “O casaco de Marx”.

Foto: The cactus tree

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Campo de trigo com ciprestes

Eu sempre tive pressa. Quando criança, passei do colo da minha mãe para o chão, sem passar pelo engatinhar. Acho que eu sempre quis alcançar coisas maiores e mais desafiadoras – e curiosamente tenho tão pouco de altura.

Depois de pintar minha primeira tela, uma paisagem noturna em tinta à óleo, busquei algo que realmente tivesse algum sentido para mim e escolhi “Campo de trigo com ciprestes”, que foi pintado por Van Gogh no período em que ele passou em Saint-Rémy, recuperando-se de uma crise de nervos – ou da boa e velha loucura. Foi logo depois de ele arrancar uma das orelhas.

Desde que decidi por esse quadro, tenho lidado com os meus próprios julgamentos sobre uma possível manifestação de presunção de minha parte. Eu já aceitei que não sou nenhum Van Gogh. Meu professor disse o mesmo. Mas, eu não queria pintar qualquer coisa. Eu queria entender esse turbilhão que Van Gogh registrou na tela, que acomete os campos e o céu. Eu posso criar a minha própria versão de Van Gogh. Eu posso me afundar no meu intento – e me perder por esses campos e por essas nuvens, como já está acontecendo com as primeiras pinceladas. Não importa. Van Gogh vale o risco (e a tinta).

Li por aí que, entre os significados de cipreste, temos luto e longevidade. Talvez Van Gogh quisesse registrar a consciência de sua mortalidade mas, com a tela, estivesse tentando alcançar a imortalidade. Eu quero, sim, como sempre quis, alcançar muitas coisas, mas a minha presunção, ainda bem, não é páreo para a de Van Gogh. A consciência de nossos próprios limites é mais importante até do que a consciência da mortalidade. E nessa arte – a de conhecer os meus limites – eu já sou bastante avançada.

Desenhando pausas

As coisas que de fato importam são feitas de pausas. O Drummond achou que a vida necessita delas. Eu, com todo o respeito que tenho a ele, acho mesmo é que as pausas já estão ali. A gente é que não lhes dá o devido valor.

Em tempos de WhatsApp, os grupos acabam sendo uma maneira de não se deixar engolir pelas pausas e pelo silêncio. A ideia é estar em contato, independentemente da necessidade ou da relevância da conversa. Os amigos estão sempre ali. A família e os colegas de trabalho, também. Na época em que trabalhava em empresa, o meu WhatsApp até parecia refúgio para alguns clientes que, olha, não sabiam aproveitar uma das melhores pausas: o fim de semana.

Ultimamente, eu tenho experimentado a ideia do vazio e muito tenho aprendido com ela. Com a dança contemporânea, estou tendo que aprender a lidar com espaços que preciso encontrar no corpo para a realização de alguns movimentos. Se rolar no chão é simples, tente fazer isso sem tirar as mãos e os pés do chão. Sincronizar esses movimentos requer que você conheça alguns espaços de fuga do corpo, os quais geralmente ignora, porque nunca se aproveitou deles como deveria. Nas aulas de desenho, o professor insiste para que eu desenhe os espaços vazios, que eu aprenda a enxergá-los na composição. O lance é olhar para o objeto, observar as formas que surgem dos espaços vazios e desenhá-las, pois também existem formas naquilo que não está lá. Na música, as pausas são indiscutivelmente essenciais e vêm na forma de silêncio. Não existe o som, se não existir o silêncio, e ao aprender a ouvir a canção como um todo, você aprende a ouvir o silêncio, passa a reconhecê-lo e identificar os movimentos que o som é capaz de criar.

As pausas também podem ser dolorosas, mas acho que a vantagem de se acostumar com elas é que você sempre as espera, de uma forma ou de outra. O Adorno diz que a descontinuidade pode ser insuportável para quem não consegue enxergar o todo – e as pausas fazem parte dele. O que significa que também é importante perceber quando sua vida está num momento desses de pausa. As pessoas falam sempre sobre buscar a felicidade, como se isso fosse um movimento para fora. Sair e ver o mundo, o que parece naturalmente bom, mas também perdem por não observar as pausas.

Encontrei, recentemente, uma citação do Kafka que, de certa maneira, tem a ver com o assunto:

Não é necessário sair de casa.

Permaneça em sua mesa e ouça.

Não apenas ouça, mas espere.

Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.

Então o mundo se apresentará desmascarado.

Em êxtase, se desdobrará sobre os seus pés.

 

São as palavras

Sempre que penso seriamente em desistir do blog (afinal, quem lê blog?), alguém o elogia. É sério, parece até que adivinham. Nessas ocasiões em que a desistência pesa, fico me perguntando o motivo pelo qual eu o mantenho (cá para nós, blog é tão 2012, não?). Mas, o fato é que o que mais me motiva não são as pessoas – embora eu goste muito de receber o feedback de vocês, continuem. Também não continuo porque gosto de saber como se sentem ao ler meus textos. O que me anima a manter o blog é o ato de escrever em si. É o como as palavras se organizam na minha frente, à espera de que eu as selecione, as combine, troque uma ou outra de lugar, as substitua, remende aqui e ali. Coloque um ponto final, onde sequer deveria. É a dinâmica da escrita que me move. São as palavras.

Caminho sem volta

Eu lembro de ter estragado o livro da escola. Aquele que a professora mandou encapar e cuidar bem para que durasse o ano todo. Mas o uso ou talvez o meu descaso natural fizeram com que as folhas se soltassem. Aos poucos, o livro que era novo me pareceu velho, com as folhas todas se perdendo pela casa. Eu me preocupei e recorri à mãe, que me deu a solução: “Sua avó pode costurar o livro”.

Costurar o livro. Me encantei por unir as páginas do livro por meio de um processo tão arcaico quanto a costura. O conhecimento sendo entrelaçado pela costura de minha avó. Era o fio de Ariadne marcando um caminho que, em meu caso, não teria volta. O texto (re-) construído pelas agulhas de minha avó. Cada ponto entrelaçando ideias. Reconstruindo fatos.

Era eu sendo salva pelas linhas para me trancafiar definitivamente entre o fio e as páginas do livro. Caminho sem volta.

Ano que vem quem sabe

Todo início de ano eu fico mais reflexiva e acabo criando posts mais pessoais do que eu gostaria de fazer por aqui. É que, ainda que eu não goste de admitir, essa fase do ano acaba “me pegando” e, meio que por costume, eu acabo fazendo um plano ou outro, profissional ou não, necessário para a manutenção da minha lucidez ou não.

Daí que, recentemente, eu voltei a me exercitar. Na verdade, tudo começou lá para novembro, antevendo os quilos a mais que as festas de fim de ano nos causam. Eu não gosto de festas de fim de ano, mas sabe como é, né. A comida está ali. A bebida, também. Quando se dá conta, lá se vai todo o trabalho duro que uma corrida em volta do quarteirão significa.

Tarde demais. Não dá para ficar lamentando “o leite derramado” – embora, se tivesse leite nessas ocasiões, a gente fatalmente iria beber antes que ele tivesse tempo de ser derramado. Mas, longe de ser uma gordófoba, fiquei pensando na possibilidade real de me tornar uma corredora: um desejo antigo que nunca consegui concretizar, devido à correria no trabalho, à falta de tempo para treinar, à vida.

Contei para o meu marido e ele, que dificilmente me engana com essas vontades momentâneas que eu tenho, disse: “treina este ano para correr as maratonas no ano que vem”. Sem querer me desanimar, claro, mas um choque de realidade é sempre bom. Eu concordei, afinal, eu dou duas voltas no quarteirão e faleço (mentira, dou 1.5 volta). Mas, a ideia de me superar no dia seguinte é sempre desafiadora. E ando precisando de um estímulo a mais.

Hoje, eu corri, tomei banho e me olhei no espelho. A vermelhidão continuava aparecendo nas bochechas. Estranhamente, eu me senti bonita. Sem maquiagem, sem artifícios e com a cara de quem quase morreu dando duas voltas no quarteirão (tá, 1,5 volta…). Entendi como um bônus da vida para que eu continue tentando. Embora eu saiba, lá no fundo, que era só a água quente, o cansaço e o calor fazendo o seu papel. Mas, é para ser otimista? Vá lá. Sejamos otimistas.

 

P.S.: A foto em destaque do post eu tirei num daqueles dias que você se anima para sair para correr/caminhar e, no exato momento em que coloca os pés na rua, começa a chover. Depois desse dia, que foi o dia do pontapé inicial das corridas/caminhadas, eu desisti. Entenda isso, como quiser.

2016

Terminei o ano sem qualquer expectativa sobre 2016. E nem por isso acho que ele vá ser ruim; acho mesmo que vá ser um ano de transformação, já que 2015 foi meu ano de completa renúncia, de reflexão, mas, sobretudo, de admitir que renegar a literatura foi meu grande erro.

Não por acaso, mas sem qualquer premeditação, meu último livro de 2015 foi A Metamorfose. Como no livro, o processo que estou vivenciando foi bem parecido: o de ser obrigada a conviver com uma nova realidade e se questionar sobre a vida que levava anteriormente. É um processo sofrido e que leva tempo para assimilar. Mas, é necessário.

Em respeito a esse momento, optei por deixar de lado as resoluções de ano novo. Vou me dar ao luxo de viver um dia após o outro. Seja lá o que isso queira dizer.

O último do ano

Vai ver, esse é o último post do ano. Vai ver, é aquele post que é, mas nunca devia ter sido. Vai ver, esse ano segue a mesma lógica do post e, por isso mesmo, nem vale a pena ser escrito.

Não foi um bom ano, confesso. Ainda assim, ele me trouxe coisas boas. Fiquei alguns minutos tentando listá-las na cabeça e percebi que, de certa forma, eu consegui atingir alguns objetivos não relacionados a trabalho, algo que eu vinha tentando fazer há um tempo.

Fiz um curso rápido de desenho de moda:

desenho_moda

Virei vocalista de uma banda de rock, quebrando o celibato musical de uns 5 anos:

banda

Visitei a praia (duas vezes!):

Fui ao Rock in Rio e assisti o show do Queen + Adam Lambert:

queen_adam_lambert

Adotei um cãozinho travesso:

Cortei drasticamente o cabelo (mas estou deixando crescer de novo):

bruna

Voltei a ler coisas de que gosto. Na verdade, voltei a ler o que, por si só, já é o suficiente…

Enfim, não foi o ano que eu esperava – até porque eu não esperava nada mesmo… -, mas foi um ano bom. O que incomoda é que é a primeira vez na vida que termino um ano sem saber exatamente como vai ser o outro. E “pisar em ovos” não é algo que deixe qualquer pessoa confortável. Mas, admito, vai ser um novo exercício. Não planejar nada e ver no que dá. Como uma tela em branco. Ou um livro que está prestes a ser escrito. Mais ou menos como esse texto aqui, que começou sem eira nem beira e acabou da mesma forma.

Tá vendo só? 2016 nem começou e já está a cara deste blog… Vamos ver o que mais nos espera.

Fases da vida

Poucas vezes, neste blog, eu fiquei tanto tempo sem escrever e com tão pouca vontade. Não creio, no entanto, que seja culpa do blog, mas de uma certa sonolência. De vez em quando, falta de tempo. Mas, de modo geral, a boa e velha preguiça.

Estou passando por uma fase de transição e fazendo escolhas bem difíceis e definitivas, sobre as quais ainda não posso falar. Acredito que isso esteja colaborando, pois toda a minha energia  tem ficado nos meus novos projetos e na conclusão de algumas etapas da minha vida.

Com as mudanças, passei a ver menos graça em algumas coisas que, antes, eu adorava, como o meu corte de  cabelo. Ando sentindo muita falta de fazer um rabo de cavalo, sabe? De enrolar as pontas com baby liss. De escovar fios que batem na cintura e de fazer escova. Também estou completamente desconcertada com as minhas roupas. Fiz uma pequena seleção dos 200 vestidos que lá estão e que, tenho certeza, não usarei mais e, em breve, atualizarei minha lojinha do Enjoei.

No mais, enquanto as coisas não começam de verdade, prometo que alguns posts voltarão por aqui. Nem que seja uma vez por semana, mas eles virão. Prometo, também, que isso é só uma fase. E, como sempre, elas passam. Normalmente, de uma perspectiva positiva.

Viver com arte

Não tem nada mais bobo e, ao mesmo tempo, mais legal do que fazer aniversário. Bobo porque, mesmo que não admita, basta começar o mês do seu aniversário que você já está esperando ele chegar. Também é preciso admitir que dar/receber parabéns é uma coisa bem desconfortável. Por outro lado, é o tempo perfeito para repensar a vida e como você tem aproveitado cada dia. É melhor do que ano novo, porque é (em tese) só seu.

Não saberia o que escrever neste dia. Por sorte, escrevi há um tempo atrás um texto para concorrer a uma vaga. Era um texto livre. Não é do tipo que se escreve para um possível empregador, mas vale o registro. Ela é a prova cabal de que eu sempre quis – e continuo querendo – viver com arte.

Não sei bem o motivo, mas quando me pedem para escrever sobre algo de que gosto me vem arte na cabeça. Como se já não fosse cruel o suficiente ter de escrever sobre qualquer coisa – qualquer coisa num mundo lotado de assuntos –, fica a escolha baseada em estranhos fatos da minha vida, os quais basicamente me tornam quem sou.

Talvez a ideia aqui seja falar sobre algum assunto de forma mais formal, para que um revisor mais atento se sinta à vontade para criticar aspectos normativos da Língua Portuguesa nesse texto. Se for esse o caso, já me dei mal desde o começo. Mas como não me foi especificado se o texto deveria ser uma dissertação, uma narrativa, um poema ou até uma crônica, sinto-me mais à vontade para não ser tão purista.

Pois bem, Arte. A minha relação com essa palavra aí começou ainda muito cedo. Na infância, para ser mais precisa. Já contei essa estória a muitos amigos. Eu brincava na biblioteca do meu pai, quando criança, ao lado de muitos livros – inclusive de artes –, de uma vitrola com discos do Elvis e de algumas reproduções de obras importantes. Conheço a Mona Lisa desde aquela época e ela sorria para mim todo santo dia, como se me observasse. Eu costumo dizer que aquela foi a melhor época da minha vida. Não que não tenha tido outras épocas de que gostei muito, mas a infância guarda um sabor de nostalgia que a gente sempre vai sentir. 

Desde então, passei a querer aprender a tocar instrumentos, a cantar. Ou ser atriz (afinal, o Elvis era casado com uma atriz, tinha de haver alguma coisa especial nessa profissão). E durante a minha pequena jornada, busquei realizar esses desejos todos e, apesar de não ser nenhum prodígio, sempre enganei bem. A verdade é que poder trabalhar com arte é uma das coisas que sempre quis fazer pela minha vida. Mas ela, a Vida, não torna as coisas tão simples como a gente gostaria. Fui fazer Letras, porque pretendia ficar mais perto das Artes. Fui feliz no meu intento e acho que trabalhar com texto é meio como ser artista. E, obviamente, não é fácil, como nada é.

Esse texto, por exemplo, nem tem um foco apenas e já me deu um trabalhão. O maior deles foi manter a concentração num dia longo de trabalho em que levei parte desse trabalho para fazer em casa. O que me faz admitir que escrever é uma questão técnica. Não só de inspiração vive o homem, mas existe um trabalho apurado a se fazer, apesar do cansaço que você possa estar sentindo. O resultado é algo muito parecido com arte, embora nem todos o enxerguem assim.

Obviamente, não estou querendo convencer ninguém de que esse texto é um objeto artístico. Apesar de que definir o que é arte e o que não é não é tão simples. O fato é que me sinto bem quando escrevo, ainda que não seja fácil. E se puder trabalhar com algo que me proporcione escrever muito, vou achar que a minha vida tem assim um pouquinho de Arte.