– Miss Jill Scott, Words and Sounds –


Neste exato momento, estou escrevendo e ouvindo “Experience”, álbum de Jill Scott, pela primeira vez. Estou, também, me odiando um pouco por ter deixado para ouvir esse álbum só agora. Mas é a vida.

Jill Scott, indicação do querido Filipe Murbak, é um passeio pelo soul, R&B, jazz, hip hop, gospel. Jill não é só versátil na música, mas também tem um currículo que passa por aulas de inglês, publicação de poemas e até participação como atriz em séries de TV. 

Não bastasse ser uma cantora de voz potente e ágil, ela ainda é uma super compositora (na qualidade e na quantidade). Diz-se que quando foi lançar “Who is Jill Scott – Words and Sounds Vol 1”, ela apresentou 50 músicas à gravadora, que, claro, tiveram que ser reduzidas a um número mais comercializável. 

Junto a esse álbum, lançado em 2000, Jill lançou “Experience: Jill Scott 826+” (2001), “Beautifully Human: Words and Sounds Vol 2” (2004), “Collaborations” (2007), “The Real Thing: Words and Sounds Vol 3” (2007), “Live in Paris+” (2008), “The light of the sun” (2011), “Woman” (2015), o último com músicas criadas a partir de anotações de um antigo diário.

O primeiro álbum que ouvi dela foi “Woman” e me senti impactada. Ele faz você experimentar o dia a dia na vida de uma mulher, com todos os altos e baixos, seja no amor, seja no trabalho. É um álbum que transita entre uma pegada experimental aqui e um blues enérgico acolá. Se você não se sentir conquistado com “Say thank You”, não tem como sair incólume de “Coming to you”. 

Jill Scott é um caminho sem volta.

Ouça Jill Scott no Spotify: https://open.spotify.com/artist/6AVLthptCPhfrxlHadOBJD

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Betty Davis, Nasty Gal

Quando ouvi Betty Davis pela primeira vez, corri para a internet para procurar o que diziam suas letras, já que meu inglês mal falado me impedia de compreendê-las. Não encontrei quase nada. Apesar da barreira linguística, o conteúdo de suas músicas, o que elas significam quando você sente o groove, ouve as guitarras pesadas e o arranhado da voz é muito claro.

Betty Davis lançou poucos álbuns: o “Betty Davis” (meu preferido), o “They say I’m different”, “Is it love or desire” e o “Nasty Gal”. Para escrever esse texto, voltei a eles e encontrei o “The Columbia Years” – arranjado pelo trompetista Hugh Masekela, com participação de Herbie Hancock, John McLaughlin, Mitch Mitchell e Billy Cox -, no qual há, entre outras músicas, “Politician Man”, “Born on the Bayou” e a voz de Miles Davis dando sugestões a ela sobre as gravações. A qualidade dos álbuns não se deve só às parcerias definitivas, como se pode ver pelo “Columbia”, mas à própria Betty, que criava a maior parte de suas músicas e se não as produzia, escolhia a dedo quem o faria.

Qualquer uma de suas músicas indicam que ela era uma artista que não se coloca na prateleira do funk, do soul, do blues ou do rock. Talvez por isso Betty Davis não tenha conseguido o espaço merecido na época em que lançou os discos, além do fato de que se tratava de uma mulher negra falando abertamente sobre sexo no início dos anos 70 nos EUA. Vá ouvir “Nasty Gal”, “Talkin’ Trash”, “Walkin up the road” e entenda.

Se é exagero dizer que ela deu sua contribuição ao fusion, não é exagero dizer que sem Betty Davis não teríamos o “Bitches Brew” do Miles, disco em que o trompetista se rendeu à mistura do rock com o jazz, graças à influência da cantora (que foi sua esposa). Como cantora, não acho que ela era inventiva como uma Ella ou técnica como uma Aretha – o que não significa que ela não estudava. O que se destaca nela, para mim, é sua voz rasgada, agressiva, é a força que vem da sua personalidade vibrante e até um pouco irredutível. 

Betty desistiu (infelizmente!) da carreira de cantora por negar-se a se curvar ao que a indústria exigia dela (aparentemente, as gravadoras queriam que deixasse de explorar sua sexualidade nas músicas, já que houve até boicote às suas apresentações). Queria ser livre para criar à sua maneira. Recusou ser produzida por Eric Clapton (por considerá-lo muito careta) e disse outros sonoros “nãos” até refugiar-se na Philadelphia e viver uma vida reclusa, como, aliás, vive até hoje.

Ouça Betty Davis no Spotify: https://open.spotify.com/artist/5Ryxgm3uLvQOsw4H5ZpHDn

P.S.1: em agosto do ano passado, saiu o documentário “Betty – They say I’m different”, do diretor Phil Cox, que tinha um pouco esse objetivo de tornar conhecida uma cantora tão importante como ela. Tô louca pra ver!

P.S.2: esse texto faz parte de uma série de texto que pretendo fazer na minha página do Facebook a cada 15 dias, se eu conseguir, pois frequência é complicado.

Referências:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/08/betty-davis-tem-trajetoria-revista-em-documentario-que-esta-a-caminho-do-brasil.shtml

https://oglobo.globo.com/cultura/estreia-no-brasil-documentario-que-desvenda-misterios-de-betty-davis-pioneira-do-funk-americano-23252674

https://revistatrip.uol.com.br/tpm/betty-davis-a-cantora-que-marcou-o-funk-e-antecipou-lutas-importantes-do-feminismo

A arte do diálogo

Toda grande banda merece um filme que conte a sua história, mas é claro que nenhum  filme chegará aos pés do que de fato uma banda como Queen significou para a história da música. Digo isso porque ver o Queen ao vivo mesmo sem Freddie Mercury já foi uma experiência emocionante, única para mim. Algo que o filme tenta imprimir, sobretudo no final e até que chega perto de fazer o espectador acreditar que está diante da banda. Não me considero a maior das fãs, mas reconheço o que é estar diante de músicos que não se ouve todo dia ao vivo.

Bohemian Rhapsody, o filme, apresenta a vida de Freddie desde quando decidiu se juntar ao Brian May, Roger Meddows-Taylor e John Deacon para criar o Queen. O filme apela para a personalidade excêntrica que compunha a identidade dele como artista, mas deixa entrever que os demais integrantes tinham a sua parcela de responsabilidade no sucesso do Queen não só por serem, na maioria das vezes, mais metódicos do que Freddie, mas por terem entendido o que era e o que poderia se tornar o Queen. Só isso já faz a banda ser melhor e maior do que a média.

Embora o espectador sinta que o foco do filme é Freddie – e não está errado – a narrativa joga com a relevância dele para o Queen, o que me parece uma opção acertada. Logo após o primeiro e único show da banda que pude ver em 2015, vi muitos fãs se manifestarem a respeito da apresentação de Adam Lambert no lugar de Freddie sob o espectro da comparação entre os artistas. É evidente que Adam não é Freddie e nem tentou ser. E é mais evidente que o Queen sem Freddie não é o Queen verdadeiro. O que não significa que um show com a formação de 2015 tenha sido um show ruim.

Esse hábito de confundirmos a identidade do vocalista com a identidade da banda não é incomum, mas faz com que a gente incorra em certa injustiça com os demais músicos, além de ser uma redução grosseira de todo o grupo musical. Há quem considere Freddie Mercury a alma do Queen. Não discordo, porém não só de alma se faz uma banda. Por isso, o filme mostra quão arrependido ele ficou por ter deixado os amigos e sua frustração ao tentar uma carreira solo. Se há uma mensagem a ser disseminada pelo filme Bohemian Rhapsody é a de que um vocalista não existe sem a banda e uma banda não existe sem um vocalista (se a proposta original a se perseguir não era ser instrumental, claro).

E constatar isso não apaga os traços da genialidade de Freddie. A arte, ao menos aquela que dura, se faz com o confronto de ideias, com o diálogo e, muitas vezes, é preciso se contentar com a sobreposição da visão do outro sobre sua própria visão, isto é, arte não se faz sozinho. Essa é a graça de se ter uma banda, um grupo musical. Essa é a graça do Queen, pois cada indivíduo inseria a sua visão nas composições, nos arranjos e nas melodias da banda. Uma dinâmica que não é simples, não é fácil de conciliar. Mas dá margem para afirmar que se o Queen sem Freddie não é o Queen, Freddie não teria sido Freddie sem o Queen.

Intervalos consonantes

As pessoas desenvolvem suas obsessões de forma diferente. Eu, quando obcecada por uma melodia, tento ouvi-la todo dia, várias vezes (às vezes isso dura alguns meses ou anos). Mas, faço isso sempre intercalando outras que também são de minha estima e cuja harmonia se assemelham. Esses “intervalos”, nos quais insiro outras músicas pelas quais não estou exatamente obcecada, desencadeiam uma sensação de falta da música que de fato quero ouvir. Não é incomum me esquecer da melodia que é motivo da minha obsessão (pode ser um trecho de uma música, não necessariamente a música inteira) e registrar outros sons que, de tão parecidos, inflamam a necessidade de recuperá-la na memória, porque eu meio que preciso alimentar a obsessão. É uma forma saudável, se é que posso chamar assim, de usufruir da música sem que o excesso me faça enjoar dela. Sou assim com as pessoas também.

Born Under a Bad Sign

A imagem é mesmo muito marcante. Nas aulas de desenho aprendi que a dificuldade que a maior parte das pessoas encontra para desenhar existe porque criamos símbolos na nossa cabeça de tudo o que vemos ao longo da vida. Aí, quando vamos tentar desenhar algo ou alguém, desenhamos os símbolos e não aquilo que, efetivamente, estamos vendo.

Isso é curioso, porque quando penso em música a relação é parecida. Eu sempre tento cantar as músicas do meu jeito – ou do jeito que eu sei.  Mas, essa ideia de criar uma ideia simbólica sobre as coisas explica o fato de eu não conseguir cantar as músicas da Janis Joplin. Eu não consigo interpretar as músicas dela, porque o que ela faz já se cristalizou na minha cabeça. Também não seria capaz de imitá-la e nem acho que deva.

Algumas músicas “pedem” para que você as interprete. É o caso de Born Under a Bad Sign. Hoje, ouvi algumas versões dela e qualquer um consegue perceber que, apesar de uma base melódica comum, todo cantor vai tentar colocar algo de seu na interpretação. Acho isso bem bacana, porque a música acaba renascendo, de certa forma, na voz de cantores diferentes. É como se a imagem dessa música mudasse para cada um que a cantasse. Você pode perceber ao ouvir as versões de Albert King, do Cream, do Buddy Guy e da Nina Simone, só para citar alguns. Quando tiver gravado, posto a minha também que, claro, jamais será tão impressionante quanto a desses caras.

 

P.S.: Para quem não sabe: sou vocalista da banda Luigi e os Pirandellos e Born Under a Bad Sign tem sido um de meus desafios nos últimos ensaios.