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Eu sei que o Hemingway dizia que a gente não deve escrever tudo de uma vez, se quiser escrever bem. Sei, também, que o Hemingway não trabalhou com produção de conteúdo. Ele abominaria esse ofício. Quase tanto quanto eu.

Um dos bônus de se trabalhar com a escrita é poder dizer que fiz um bom texto em menos de meia hora. O exercício diário da escrita, por mais criativo que pareça, também pode ser mecanizado e transformado numa construção matemática e técnica o suficiente para ser adequado aos propósitos de quem paga os honorários. Uma vantagem, no entanto, que se contrapõe ao idealismo de quem sempre se interessou pela literatura. A vida adulta tem dessas sacanagens.

É contraditório, inclusive, pensar que se possa escolher a carreira de redator, produtor de conteúdo ou qualquer denominação que procure definir esse tipo de trabalho como uma forma de fazer algo que mais se aproxime de um trabalho como escritor. Mas nem isso nos é permitido. Quem trabalha nisso precisa se moldar e se adaptar a um tipo de texto que dá pouco ou nenhuma concessão à inventividade e, ironicamente, o redator tenta se identificar como um criativo.

Nos últimos tempos, quando tento escrever algo que não seja de trabalho, eu falho. Me parece que, aos poucos, venho me adaptando a um estilo que não é o meu, pois, reconheço, nem tive tempo de desenvolver algo que soe como um estilo. Imagino que a idade tem me feito afrouxar a rebeldia e a necessidade de confrontar as regras. De todo modo, sinto que vou perdendo o jeito de parecer algo que eu nunca fora, mas que, dentro de minha lógica produzida na sociedade técnica, eu planejei ser.

Penso que, de certa forma, eu também não soube lidar muito bem com os momentos de liberdade, estes nos quais eu escrevo somente para mim. Os textos que publico aqui e os que guardo à sete chaves sempre nasceram de um lampejo inventivo, uma ideia que me acometia inteiramente e pela qual eu me deixava tomar. Eram lazer, em outras palavras. Desaprendi a conviver com a palavra, a pensar nela com a acuidade de quem rebita o ouro. Assimilei a ideia de que trabalho é algo pelo qual recebo uma remuneração e, se não for assim, não vale a pena. O perfil desistente se apoderou tanto de mim e atingiu uma das atividades de que mais gostei ao longo da vida.

Estou buscando, agora, reverter isso. De certo modo, me vejo estacionada como projeto de escritora e sem prespectivas de melhora. Quero reaprender a construir um texto, a insistir nas ideias que pretendo desenvolver nele, a buscar as palavras que de fato quero inserir ali. Um intento que já se revela falho, quando o defino sem escapar de um plano matemático, o que, para a escrita que pretendo desenvolver, pode ser impossível.