Nem tudo o que reluz é ouro

Quando soube que um jornalista tinha sido demitido por causa de uma entrevista e, principalmente, de sua repercussão negativa depois do modo como o entrevistado encarou a matéria publicada, não pude deixar de reparar na palavra “militância” empregada no sentido de desqualificar o tal jornalista.

A palavra foi usada em referência a alguns posts que o jornalista fizera; compartilhamentos de links, na verdade; que supostamente eram favoráveis a políticos de partidos muito específicos, os quais têm sido hostilizados pela opinião pública.

No entanto, me chamou a atenção que o simples compartilhamento de posts possa ser considerado exemplo de militância. Fiquei em dúvida sobre o real sentido da palavra “militar”, verbo transitivo indireto e não o substantivo.

Recorri ao dicionário e obtive:

militar2
verbo
  1. 1.
    intransitivo
    seguir carreira nas forças armadas.
  2. 2.
    transitivo indireto e intransitivo
    participar de guerra; combater, lutar.
    “m. com bravura (contra o invasor)”
  3. 3.
    transitivo indireto
    seguir qualquer carreira ou profissão.
    “ela milita na medicina”
  4. 4.
    transitivo indireto
    lutar ativamente em favor de uma ideia ou causa.
    “m. a favor da liberdade de imprensa”
  5. 5.
    transitivo indireto
    ser filiado a um partido político.
    “milita no partido dos trabalhadores”
  6. 6.
    intransitivo
    ter força; vigorar, prevalecer.
    “atualmente, milita a regra dos reajustes escalonados”

Os itens 4 e 5 eu já esperava. Militar em um partido, isto é, estar filiado a um grupo de pessoas com ideias parecidas com as minhas ou mesmo militar por uma causa, lutar por ela, apoiá-la. O significado mais surpreendente, porém, foi o 3. Há quem considere a carreira política uma profissão, mas o exemplo que o dicionário nos dá é, de fato, uma profissão.

Nunca havia encontrado esse uso para a palavra “militar” e penso que deve ter caído em desuso pela carga negativa que ela parece conter. Nesses tempos em que as questões ideológicas se tornaram tão acirradas, há todo um movimento paradoxal que ojeriza qualquer sugestão política que uma discussão possa indiciar.

Ser militante, para muita gente, tem ligação direta com movimentos de esquerda – como no caso do entrevistado que mencionei no início – e, provavelmente, já remete à luta armada, de modo parecido com o item 1 do dicionário, mas, no caso, tem um teor que se aproxima da ideia de guerrilha e, penso eu, de terrorismo.

Mas, contrariando essas ideias, temos aí a imagem de alguém que milite em uma profissão. Isso mostra que, muito mais do que ideologia política, o substantivo militância requeira um envolvimento mais abrangente com o objeto de que se trata. Um médico militante é alguém que se decidiu pela carreira por questões subjetivas (ou financeiras mesmo, não estamos aqui para julgar), que estudou para realizar o trabalho e que ganha a vida, dedicando horas de seu dia ao exercício da medicina.

Ser militante me parece ser algo mais global do que localizado. É como se a militância de Facebook só contasse quando há algum tipo de ação fora dele. Um militante é alguém que tem uma relação profunda com a causa que apoia, e desenvolve essa relação em diversas esferas de sua atuação em sociedade e mesmo em sua vida pessoal.

Longe de mim querer definir os limites da militância alheia. Acho isso tão complicado quanto tentar definir os limites do humor – assunto que instaurou a rusga entre entrevistador e entrevistado. Mas o problema não é nem a relativização do que é ou não ser militante. É essa mania de pegar a parte pelo todo. Postou textão no Facebook? É militante. Criticou fulano de tal? É oposição.

No caso específico da polêmica, para considerar o jornalista um militante, o entrevistado precisaria ter outras informações sobre a conduta do entrevistador. O mero questionamento sobre os limites do humor não faz dele um militante. O simples ato de compartilhar um post em rede social não faz dele um militante. Pode ser um indício, mas não a prova cabal.

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Nada a oferecer

Deu na Folha de São Paulo que jovens conhecidos como youtubers estão apostando em escrever ficção para continuar oferecendo, de certa forma, conteúdo para seus seguidores e para atrair outros públicos.

“Que tanta história de suas vidas meninos e meninas ainda em flor teriam para contar?”, diz a matéria, pondo em evidência, não sem alguma ironia, o fato de que esses mesmos youtubers já haviam publicado livros autobiográficos com a mesma intenção de manter a sua audiência devidamente satisfeita.

Mas é justamente essa questão da experiência, que está implícita no comentário da matéria, o que mais preocupa. Em primeiro lugar, para escrever uma autobiografia é preciso ter vivido alguma coisa relevante. E muito mais do que ter vivido, é preciso ter tido tempo para uma reflexão sobre determinados eventos, quase que numa experiência de alteridade.

Não estou, é claro, dizendo que esses jovens youtubers não tenham refletido sobre suas experiências, ou que não tenham tempo para isso. Aliás, penso que eles têm tempo, sim, ainda mais para criar vídeos sobre suas atividades diárias, escrever sobre suas próprias vidas e para criar objetos ficcionais, como a matéria apresentou.

Também não posso afirmar que uma pessoa jovem não seja capaz de escrever ficção. Se fosse assim, seríamos injustos com escritores que se tornaram parte do cânone e que iniciaram sua carreira cedo, como é o caso de Clarice Lispector (que mentia a idade, é verdade, mas que, independentemente disso, era jovem demais para a complexidade do que escrevia) e Arthur Rimbaud (que escrevia poesia e merece sempre ser lembrado pelo talento precoce).

Mas, me parece, que tanto esses novos autores, quanto a própria matéria pecam ao indicar que para se escrever autobiografia é preciso, simplesmente, ter vivido. Há um componente ficcional muito importante no modo como se conta uma história, seja ela baseada em fatos reais, seja ela totalmente inventada.

O modo como os fatos são escolhidos e apresentados. Aquilo que se decide enaltecer ou evidenciar em nossa própria história, geralmente, carece desse valor de veracidade, sobretudo quando confrontamos a história vivida com a perspectiva do outro. Não é incomum contar uma história pessoal e ter de enfrentar o testemunho alheio, que pode não desmentir a sua versão, mas apresentar um aspecto que ficou esquecido ou que fora negligenciado por nós, ao longo da narrativa, à propósito ou não.

Não é por acaso que muitos contratam ghost writers para contar a própria história. Não é qualquer um que consegue selecionar os fatos, recuperar arquivos, descrever os eventos, de modo a torná-los mais, digamos, atraentes para o leitor. E, nisso, considero que há, sim, importância em aproximar-se de quem lê, já que, em geral, escritores vivem do mercado editorial, isto é, precisam de leitores fiéis, que comprem o que eles produzem.

Convenhamos que muitas de nossas histórias pessoais são mais interessantes para nós – porque vividas por nós – do que para os outros. E em se tratando de youtubers, uma realidade que têm ficado cada vez mais comum, torna-se, a meu ver, ainda mais desafiador tornar uma história corriqueira em algo que, de fato, alguém queira ler além das primeiras páginas.

Não sei se esses jovens recém-escritores têm, de fato, algo a oferecer e serei a primeira a admitir o erro de afirmar sem ter lido – o que é preconceito, eu sei – que sua ficção é tão ruim quanto suas biografias. O dado espantoso é que a matéria – e aí já não sei se é irônico ou não – afirma que esses youtubers estão mostrando, com a nova empreitada, um amadurecimento.

Como as coisas acontecem muito rapidamente nesse mundo digital, confesso alguma desconfiança desse amadurecimento e lego essa opção pelos livros de ficção a uma visão de mercado, isso sim, surpreendente para a idade. Como o texto da Folha revela, esses jovens conseguiram transformar suas vidas em produto de consumo e o empenho para atingir mais uma fatia do mercado editorial mostra que eles continuam sendo produtos, agora como escritores.

 

Duas notas sobre nudez

#1

É curioso como essas ideias pretensamente moralistas invadem a discussão pública como rastilho de pólvora. Os museus estão expondo obras com pessoas nuas e em franco bacanal há anos e até ontem ninguém ligava para isso.

Quem frequenta museus, peças de teatro, lê livros, enfim, vive, lida com a nudez, seja ela sexualizada ou não há muito tempo. Os demais, estavam bem confortáveis vendo pornografia às escondidas, antes da polêmica.

#2

As pessoas adoram abraçar essas causas indiscutíveis, porém vazias. É muito bonito defender a Amazônia, os gays, como se fossem pautas completamente desconectadas de pautas maiores que, por sua vez, estão imbuídas de ideologias.

Basta alguém alegar que há indício de pedofilia em uma obra de arte para o primeiro cretino levantar a mão e se mostrar defensor da moral e dos bons costumes. Ter um homem nu a poucos metros de distância parece uma ofensa, se relacionado à pedofilia.

Qualquer pessoa com um pouco de consciência é capaz de ser contra a pedofilia. Mas muito pouca gente é capaz de reconhecer onde não há pedofilia. Ou seja, sem pensar muito estão lá abraçando um causa que nem existe (ou melhor, existe, sim, só que em outro contexto).

 

Confrontos não foram feitos para serem evitados

Entendo muito bem as pessoas que não querem ou não conseguem ter empatia. É muito mais fácil viver ensimesmado, preocupado apenas consigo (ou com quem você gosta) e completamente alheio ao que pode estar desgraçando a cabeça do outro.

Quando você tem empatia, percebe muito rapidamente a irritação das pessoas e aprende a ler o que as faz agirem de forma obtusa. É justamente a empatia que não permite que você as confronte, mas que procure investir em argumentos racionais e lógicos para que consigam enxergar o que as aflige sem o efeito das emoções. Infelizmente, dado o grau de ranzinzice pelo qual a pessoa está passando, essa racionalidade toda não vai fazer sentido.

Tem dias que eu me surpreendo tentando questionar os motivos pelos quais a pessoa está disposta a se irritar. Em geral, não consigo dissuadi-la disso e ainda percebo uma sugestão de que parte do problema sou eu. A pessoa que está em guerra consigo mesma ou com o mundo não suporta a ideia de que você não entre nessa também. Qual é? Que paz de espírito é essa? Como atingiu esse grau de deboísmo quase desumano porque impossível?

Já saquei que não adianta discutir muito com quem não consegue admitir que está sendo infantil. Porque a raiva, a ira e os sentimentos relacionados têm um quê de infantil. Eles são provenientes de situações que fugiram ao seu controle, do fato de que as pessoas ao seu redor não estão agindo conforme as suas expectativas. Então você tenta fazer a pessoa enxergar outros lados da questão e ela se nega e pode até ficar contra você.

Não raramente, nesses casos, a pessoa adota a famosa postura agressivo-passiva. Ela fala sobre o assunto, como se não se importasse com ele – mas, se não se importasse, não estaria perdendo tempo com isso – e você tem que ajudá-la a lidar emoções que nem ela admite ter.

Você está lá, trocando mensagens com a pessoa, e quase a enxerga enfezada, cerrando os punhos e grunhindo, expelindo um ou dois centímentros de baba no canto da boca. No fim, você que já percebeu os sintomas da desmedida, até que gostaria de fazer alguma coisa pela vítima. Mas, a ira é um sentimento que se retroalimenta.

Convém esperar uns dias para ver se vale a pena insistir em trazer o irado à razão ou se a ira vai se esvair por si mesma em algum momento. Infelizmente, nesse tempo de espera, quem pode não ficar em paz é você.

A cidade natal (que nem é assim tão invisível)

Um pouco influenciada pelo Calvino passei alguns dias me lembrando da cidade em que nasci. Falo pouco sobre ela, mas é porque é como falar sobre algo que já não existe. A cidade tem cheiro de infância, mas também tem as marcas daquele momento – cuja data não marcamos – em que aprendemos a esquecer.

A minha cidade, por ser muito pequena, tem aquela famigerada característica: todo mundo sabe das vidas uns dos outros. Os fatos, porém, correm à boca pequena e nunca chegam aos ouvidos do dono.

Até que um dia, apercebendo-se os olhares e murmúrios, a vítima do falatório infere que todos ao seu redor sabem. Ao invés de interpelar os outros, vive como se de nada soubesse. Na cidade em que nasci, pode-se viver a vida toda sem falar de um fato ocorrido do qual todos têm conhecimento.

As ruas eram todas largas, as mais largas que já vi. Pelo menos é assim que me lembro. E só registrei esse fato, quando estive pela primeira vez em outra cidade e notei a estreiteza das ruas alheias. Pode ser, no entanto, que houvessem, isso sim, poucas pessoas na cidade e, consequentemente, poucas casas e que os estabelecimentos comerciais fossem em número reduzido. A impressão do tamanho pode ser uma ilusão de que só agora, enquanto escrevo, me dou conta.

A pequenice, no que confere as cidades, tem lá suas vantagens. Pode-se muito bem morar próximo aos seus amigos ou, no meu caso, ter uma avó que é vizinha de sua melhor amiga. Eu ia todo dia a casa de minha amiga, sob pretexto de visitar a vó. Com isso, levei fama de boa neta. O que é muito injusto, reconheço.

Passados uns 5 anos que havia saído de lá, encontrei na nova cidade um amigo com quem estudara por alguns anos. Dividimos uma centena de recreios juntos, conversamos bobagens antes e durante as aulas. E ele foi um de meus primeiros amigos que passava os finais de semana se embriagando. Aqui, na nova cidade, ele estava trabalhando numa ótica, na verdade uma loja que vende armações dessas que só têm óculos da moda.

Me aproximei dele, chamei-o pelo apelido – a primeira sílaba do nome –, perguntei como estava, disse que era bom vê-lo. Ele pareceu meio constrangido e após um breve silêncio disse: “o que você usa para limpar os óculos?”. E me vendeu um produto de limpeza específico para lentes de grau. Uma charlatanice qualquer. Nada que eu não conseguiria utilizando água e sabonete líquido. Só então percebi que em nenhum momento havia dito o meu nome. Não havia me reconhecido. E assim como todas as pessoas que passam pela nossa vida, boa parte delas ao menos, coloquei-o naquele lugar em que ficam as lembranças a que normalmente não recorremos. Só me lembrei da situação agora que escrevo sobre ela.

Uma infestação

Uma das músicas mais bonitas dos Beatles, Something, e também uma das mais românticas já escritas é tão cheia de dúvidas que, se a gente olhar direito, fala só desse momento em que o sentimento está vivo dentro de nós, desse segundo em que olhamos atentamente alguma coisa e por ela somos afetados. Mas, talvez, sejam essas dúvidas sobre como a gente vai se sentir após esse momento que faça com que a gente se identifique tanto com a música.

Quando eu tinha, sei lá, uns 8 anos, lembro de ter pensado que eu tinha certeza sobre as coisas que me faziam feliz. Não demorou muito – na verdade, acho que foi no mês seguinte – que eu vi tudo desmoronar e algumas dessas coisas se acabarem. Até hoje, eu tenho uma dificuldade enorme em me agarrar às coisas, às pessoas, porque nada nunca permanece.

Pensei até que eu já tivesse me acostumado com a sensação. Ontem eu vi que não. E me odiei por ainda pensar no mundo como algo que eu possa controlar. As coisas se desmancham por mais sólidas que pareçam. E o processo se dá quando não as estamos olhando atentamente – talvez por isso sejamos incapazes de perceber as nuances. Aquela porta cerrada que nunca abrimos e quando nos damos conta, já foi tomada pelos cupins ou qualquer outra praga.

Miopia

Há quem diga que o autoretrato feito por Dalí em seu quadro “Cisnes refletindo elefantes”, no qual ele dá as costas justamente para os cisnes – que podem ser os elementos mais importantes da tela -, se trata de uma expressão de sua insatisfação contra os caminhos tomados pelo surrealismo na época. Mesmo parecendo “disque-me-disque”, tomei a liberdade de não consultar a fonte, mas, ainda assim, oferecer essa informação logo de início e, em seguida, dar, eu mesma, as costas a ela.

A tela de Dalí, já pelo nome – “Cisne refletindo elefantes” – incita a busca por enxergar o óbvio: os cisnes, refletidos na água, formam a imagem de elefantes. E por falar em obviedades, o quadro remete ao mito de Narciso, que também foi reproduzido pelo artista. No entanto, o mito de Narciso e o quadro dos cisnes se diferenciam pelo resultado da imagem refletida na água (e não, necessariamente, pelas consequências da imagem refletida para os personagens, sobretudo para o pobre do Narciso): enquanto, de certa forma, o primeiro vê o próprio rosto, tal como é, refletido na água, o segundo encontra outra forma que, a princípio, em nada lhe parece.

Mas, concentrando-nos em “Cisnes refletindo elefantes”, perceba que, mesmo vendo a imagem dos elefantes na água, os cisnes ainda estão ali. As imagens dos dois animais estão misturadas, o observador vê tanto os elefantes, quanto os cisnes. Não é qualquer reflexo. É uma versão da imagem dos cisnes.

A separação entre o espaço dos cisnes e o reflexo na água pode soar como se, de fato, os dois mundos instigassem dois olhares diferentes e, por isso mesmo, apresentem imagens distintas. Porém, por mais que exista uma clara separação entre esses dois “mundos”, não há como negar que a forma elefante está presente na forma cisne, ainda que os dois, quando observados em outros contextos, demonstrem diferenças substanciais entre si. Se olharmos com os olhos de Dalí, podemos ver que não há nada que o cisne não tenha que o elefante deixe a desejar, no que diz respeito às suas formas. Elas se misturam e se completam harmonicamente.

A palavra refletir, muito mais do que a ação de revelar promovida pelo espelho da água, também oferece o sentido que envolve a meditação, o pensamento cuidadoso. E é possível perceber que o cisne descobriu seu outro rosto elefante por meio da ação de refletir. Esse olhar sobre si mesmo é responsável pela descoberta da forma que já se encontra lá. Então, não é qualquer olhar, não se trata de um rápido espiar, mas sim de um olhar precoce, como o de Murilo Mendes, que em “O olho precoce” conta como conquistou a habilidade de enxergar os dois mundos, “o visível e o invisível”, em suas palavras, por meio da observação contínua de fotografias. De maneira parecida, o ato de aprender a olhar o próprio reflexo seria uma forma de enxergar o próprio rosto. Digo aprender, porque esse olhar não se faz com o mesmo olho automatizado e encarcerado na rotina que nos é usual. Há um processo de transformação do olhar, que se assenta na reflexão (nesse caso, nos dois sentidos) e que, consequentemente, promove possíveis mudanças ou reajustes na imagem que se vê.

“Não há paisagem senão o que somos”, disse o Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa). E num mergulho para dentro de si mesmo, os cisnes encontraram uma outra imagem que, apesar de ser quase um oposto (cisne X elefante passa a ser cisne = elefante + cisne), se iguala ao que aparentam ser em termos de formas. No texto do Bernardo Soares que citei, “A renúncia é a libertação. Não querer é poder.”, o autor enfatiza a necessidade de nos atentarmos para o particular, pois não há nada do lado de fora que seja possível perceber se já não estiver do lado de dentro. O que confirma o fato de que o elefante já existe dentro do cisne e não se trata de uma relação que se encerra na aparência ou numa possível confusão com as formas. Ele não conseguiria reconhecer o que não estivesse lá – pressupondo, claro, que o cisne é que esteja vendo a imagem do elefante, pois se não estiver, caro amigo observador, o elefante está é dentro de você.

(Em tempos de um constante olhar atento à própria imagem, temos dado de ombros – quando não, as costas, num plágio mal feito de Dalí – ao rosto que está no mais profundo da alma.)