I called him Morgan

Vi várias vezes a sugestão I called him Morgan no catálogo da Netflix, mas adiei assisti-lo, pois algo me incomodava na descrição do filme. Por um lado, pensei que seria mais um filme que demonizaria a mulher assassina confessa do músico. De outro lado, pensei que o documentário se ocuparia mais do crime e menos da música. Duplo engano.

I called Lee Morgan conta a vida do trompetista, desde o início da carreira, ainda menino, até o dia de sua morte. Na película, acompanhamos o quanto Lee impressionou músicos como Coltrane, Gillespie e, sobretudo, Art Blakey, com quem dividiu o palco na banda Art Blakey and The Jazz Messengers.

A narrativa faz o contraponto com a vida de Helen, mas não a descreve simplesmente como a esposa de Lee (ou como a assassina dele), mas como uma mulher importante em seu meio. Amiga de músicos, interessada por jazz e por culinária, Helen era o que hoje chamaríamos de “empreendedora”. Nunca quis ter um patrão. Buscou a independência numa época em que ser mulher já era sinônimo de ser subalterna.

Quando conheceu Morgan, ele já tinha sucumbido ao vício em heroína e, não fosse ela, talvez o músico não tivesse a relevância que chegou a ter. Mais do que ser companheira e tê-lo ajudado a superar o vício, Helen ajudou Lee a conduzir a sua carreira. Não é exagero dizer que ela o salvou e o tornou o músico que ele foi.

O filme dá voz à própria Helen, permitindo que ela relate o que vivenciou ao lado de Morgan e, mesmo com o desfecho terrível da história dos dois, I call him Morgan soube equilibrar muito bem a relevância da personalidade de Helen na vida de Lee sem sacrificar a imagem dela como companheira. É quase uma aula de como apresentar uma personalidade incrível de alguém que foi capaz de cometer um erro terrível e de escancarar que qualquer um pode estar sujeito a cometer um erro terrível.

 

Não conhece Lee Morgan? Ouça-o aqui com a banda Art Blakey and The Jazz Messengers.

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A arte do diálogo

Toda grande banda merece um filme que conte a sua história, mas é claro que nenhum  filme chegará aos pés do que de fato uma banda como Queen significou para a história da música. Digo isso porque ver o Queen ao vivo mesmo sem Freddie Mercury já foi uma experiência emocionante, única para mim. Algo que o filme tenta imprimir, sobretudo no final e até que chega perto de fazer o espectador acreditar que está diante da banda. Não me considero a maior das fãs, mas reconheço o que é estar diante de músicos que não se ouve todo dia ao vivo.

Bohemian Rhapsody, o filme, apresenta a vida de Freddie desde quando decidiu se juntar ao Brian May, Roger Meddows-Taylor e John Deacon para criar o Queen. O filme apela para a personalidade excêntrica que compunha a identidade dele como artista, mas deixa entrever que os demais integrantes tinham a sua parcela de responsabilidade no sucesso do Queen não só por serem, na maioria das vezes, mais metódicos do que Freddie, mas por terem entendido o que era e o que poderia se tornar o Queen. Só isso já faz a banda ser melhor e maior do que a média.

Embora o espectador sinta que o foco do filme é Freddie – e não está errado – a narrativa joga com a relevância dele para o Queen, o que me parece uma opção acertada. Logo após o primeiro e único show da banda que pude ver em 2015, vi muitos fãs se manifestarem a respeito da apresentação de Adam Lambert no lugar de Freddie sob o espectro da comparação entre os artistas. É evidente que Adam não é Freddie e nem tentou ser. E é mais evidente que o Queen sem Freddie não é o Queen verdadeiro. O que não significa que um show com a formação de 2015 tenha sido um show ruim.

Esse hábito de confundirmos a identidade do vocalista com a identidade da banda não é incomum, mas faz com que a gente incorra em certa injustiça com os demais músicos, além de ser uma redução grosseira de todo o grupo musical. Há quem considere Freddie Mercury a alma do Queen. Não discordo, porém não só de alma se faz uma banda. Por isso, o filme mostra quão arrependido ele ficou por ter deixado os amigos e sua frustração ao tentar uma carreira solo. Se há uma mensagem a ser disseminada pelo filme Bohemian Rhapsody é a de que um vocalista não existe sem a banda e uma banda não existe sem um vocalista (se a proposta original a se perseguir não era ser instrumental, claro).

E constatar isso não apaga os traços da genialidade de Freddie. A arte, ao menos aquela que dura, se faz com o confronto de ideias, com o diálogo e, muitas vezes, é preciso se contentar com a sobreposição da visão do outro sobre sua própria visão, isto é, arte não se faz sozinho. Essa é a graça de se ter uma banda, um grupo musical. Essa é a graça do Queen, pois cada indivíduo inseria a sua visão nas composições, nos arranjos e nas melodias da banda. Uma dinâmica que não é simples, não é fácil de conciliar. Mas dá margem para afirmar que se o Queen sem Freddie não é o Queen, Freddie não teria sido Freddie sem o Queen.

No princípio era a semente

Olho o pão com manteiga e vejo que o pão com manteiga na mesa não é só o pão com manteiga na mesa. O pão, ao menos o de forma, fora prensado e moldado para se encaixar no suporte da mesa. Mas antes disso, o pão era massa homogênea e farinesca deslizando nos arrolamentos de uma estrutura industrial. Mas antes disso, o pão era, separadamente, farinha, água, levedura e sal. Mas antes disso, o pão era amido, mais precisamente, moléculas de açúcar que a levedura conseguiu quebrar e transformar em dióxido de carbono, álcool etílico etc. Mas antes disso, o pão era trigo na lavoura deslizando a cada sopro do vento. Mas antes disso, o pão era semente na mão do lavrador. Mas antes disso, o pão era flor sem cálice sem corola, várias delas unidas em uma espiga. Mas antes disso, o pão veio da Mesopotâmia; veio do Iraque, da Síria, da Turquia, da Jordânia. Antes de Cristo. Quando o Deus era semente.

Sobre meninos e lobos

Se Faulkner pudesse assistir à série Fargo, diria o mesmo que já disse em um de seus romances: “as pessoas são as mesmas em toda parte, mas (…) numa cidade pequena, onde o mal é mais difícil de se realizar, onde as oportunidades de privacidade são mais escassas, (…) as pessoas podem inventar mais dele em nome de outras pessoas”. No caso de Fargo, as pessoas não só inventam o mal, mas o cometem em nome de outras pessoas.

Os personagens de Fargo, com raras exceções, me parecem divididos entre selvagens, valentões mesmo, dispostos a comprovar o tempo todo as vantagens de sua força física, predadores, ao menos se colocam assim aqueles que o são, e ingênuos, provincianos do tipo que foram protegidos demais dos males do mundo.

Em parte, essa três características parecem ser justificadas pelo espaço em que o enredo se desenrola. Uma cidade pequena, Bemidji, que passa o ano todo debaixo do mais rigoroso frio e da neve, só pode ser palco de personagens que vivem praticamente sob suas próprias leis, como se fosse um faroeste, só que ao invés de uma ambientação de deserto, há neve. Há até a figura do taberneiro, oferecendo café no balcão com a toalha no ombro. No entanto, é uma visão inicial, pois os policiais do FBI que aparecem mais para o fim da temporada e são de Las Vegas são basicamente dois idiotas.

Numa rápida busca por “Bemidji” no Google, vários sites mencionam que se trata de uma cidade “progressista”. Mas não é bem assim que a cidade é retratada na série. Um dos personagens provenientes de Fargo observa que sequer há uma biblioteca em Bemidji. “Toda cidade tem ao menos uma biblioteca”, ele diz inconformado. De certo modo, os interesses da população de Bemidji são muito distantes do conhecimento formal e acadêmico. E mesmo os melhores policiais – uma das profissões mais recorrentes na série – são bons graças à capacidade de seguir os instintos.

Quando um dos personagens conta que sonhava em ser carteiro, mas, por falta de vagas, acabou aplicando-se com a polícia, de certo modo ele demonstra que, em uma cidade pequena, como a que vivem, não há muitas opções para quem vai para o mercado de trabalho. Ou se assume o posto em carreiras básicas (vendedor de seguros, policial, carteiro) ou não há muito mais a se fazer. Os personagens estão sempre buscando se encaixar em estruturas que não lhes são naturais ou não lhes despertam interesse por pura necessidade, pelo modo como a sociedade se organiza. Por isso também que, sobretudo a polícia, é tão despreparada para lidar com os acontecimentos que acometem a cidade e por isso os personagens ficam tão à mercê de predadores como Lorne Malvo.

 

O primeiro crime

A temporada conta a história “real” de Lester Nygaard, um pacato vendedor de seguros que acaba assassinando a esposa. Tudo começa quando ele encontra um colega de escola que o perseguia e descobre que, diante dele, as posições de perseguidor e perseguido se mantém. O bully, Sam Hess, acaba machucando-o. No hospital, conhece Lorne Malvo que, ao saber da história, afirma que uma pessoa assim merece morrer. Nygaard afirma que, se ele pensa assim, então deveria matá-lo para ele. Os olhos de Malvo brilham e Sam Hess é assassinado.

Lorne Malvo é um desses personagens marcantes não só por uma certa sagacidade ao elaborar seus crimes, pela frieza com que se relaciona com as suas vítimas, mas por uma percepção que ele demonstra ter das pessoas que o cercam: são meros fantoches. Ele se vê como um predador e age como tal. Diz estudar as organizações e, por meio desse “estudo”, consegue fazer com que as pessoas acabem realizando ações previamente calculadas por ele. Ele se delicia por reconhecer que uma pessoa como Lester é capaz de cometer um crime por seu incentivo. Por isso diz a Lester que ele precisa se impor, porque sabe bem o tipo de homem que Lester costuma ser: do tipo que acumula as maiores humilhações e nada faz contra elas por medo das consequências.

A princípio, parece que Malvo tem uma espécie de ideologia que vincula as pessoas ao seu passado nas cavernas. Ele diz: “nossa vida é uma maré vermelha, Lester. A merda que nos fazem engolir, dia após dia, o chefe, a esposa e outras coisas acabam com a gente. Se não se impuser e mostrar que no fundo ainda é um primata, você será sempre insignificante.”. Mas, apesar desse discurso, com o desenrolar dos episódios, percebemos que pode se tratar de mais um caso de manipulação, pois, ao perceber o quanto Lester se esconde sob o medo, Malvo tenta fazer com que ele pareça tomar as rédeas da situação. É como se aquelas palavras pudessem libertá-lo, mas, na realidade, Lester apenas estaria se submetendo a outras regras, às regras de Malvo.

 

O segundo e o terceiro crime

O assassinato da esposa acontece por causa da máquina de lavar que está com defeito. A esposa comenta que o cunhado costuma consertar tudo o que quebra em sua casa e que isso faz dele um homem. Então, Lester, tentando ser um homem, tenta consertar a máquina, mas falha. Ao receber de sua esposa as maiores ofensas e influenciado pelas ideias de Malvo sobre se aproximar de seu lado “homem das cavernas”, ele a mata à marteladas.

Ao mesmo tempo, a morte de Sam Hess está sendo investigada e o nome de Lester surge, pois uma testemunha afirma tê-lo escutado falando sobre a vítima com um homem estranho no hospital. A coisa se complica, pois o chefe da polícia decide ir até a casa de Lester e descobre o assassinato de Pearl (a esposa).

Lester já havia ligado para Malvo para pedir que lhe ajudasse com o corpo.  Estando os três – Lester, Malvo e Vern, o chefe da polícia – na casa, acontece o terceiro crime: Malvo atira em Vern.  Lester esconde seus crimes, consegue colocar a culpa em seu irmão por vingança e passa a se sentir como uma espécie de predador, assim como Malvo lhe ensinou.

 

O controle dos fatos

A única que reconhece que há algo de errado na história é a policial Molly Solverson, a única pessoa capaz de raciocinar a temporada toda. Com a morte do chefe de polícia, outro policial é levado ao cargo de chefia e a tese dele é a de que vagabundos, bandidos aleatórios, assassinaram Sam Hess, a esposa de Lester e o chefe de polícia, o que não poderia ser mais ridículo.

Molly trabalha incansavelmente no caso e considera todas as perspectivas possíveis, inclusive a de que Lester estaria envolvido nesses crimes. Bill, o novo chefe de polícia, no entanto, considera absurdo que uma pessoa amedrontada como Lester possa ter algum envolvimento. Aliás, é tão convencido disso que sequer procura provas que atenuem a possibilidade de sua participação nos crimes e impede que Molly faça o trabalho investigativo.

De algum modo, os homens têm uma conivência que não existe só para que se mantenham amigos, mas por acreditarem de fato que são pessoas confiáveis e respeitáveis. Os homens estão sempre trabalhando, fazendo coisas que os aproximam de sua essência mais ancestral (comprando armas, consertando as coisas de casa, passando a noite no prostíbulo) e sempre se protegendo de problemas e da insistência de uma mulher que faça perguntas demais.

As mulheres, por sua vez, dificilmente assumem postos de chefia em Bemidji. Trabalham, sim, mas sempre em posição subalterna, e o seu papel mais corriqueiro é o de serem mães e esposas. Até mesmo Molly aparece no fim da temporada cumprindo esses papéis.

“Ter o controle dos fatos”, dizia Vern, o antigo chefe de polícia, algo que é praticamente impossível em uma série produzida pelos Coen e, sobretudo, em um lugar em que as pessoas não têm um compromisso real com os fatos, a não ser Molly, e que preferem colocar uma pedra no assunto, ao invés de verificar o que há debaixo dela.

O único que parece ter controle dos fatos, para azar dos demais personagens, é Lorne Malvo pois em uma sociedade em que se mantém os papéis de sempre – em que a mulher, em geral, continua sendo a dona de casa, a mãe, a esposa – e que os homens ou são selvagens, ou são mais inocentes do que crianças, fica fácil ser o predador.

 

Uma pequena consideração sobre o trabalho da polícia

Lester consegue incriminar o irmão pela morte da esposa.  Ele deixa todas as provas (o martelo com que Pearl foi morta, fotos sensuais e alguma lingerie pertencente a ela) junto às armas que o irmão comprou e esconde em casa. Teria sido, portanto, um crime passional. Para que a polícia pudesse suspeitar do irmão, Lester também “planta” uma dessas armas dentro da mochila do sobrinho, a qual é encontrada por seus colegas de classe.

O meu incômodo com essa história é que em momento algum a polícia desconfia desse excesso de provas em um mesmo local. Pense bem. Depois de assassinar alguém, você manteria a prova do crime junto a todos os objetos relacionados à pessoa assassinada? Guardaria tudo isso junto à sua coleção de armas adquiriras ilegalmente?

A mesma estranheza me atordoou no caso da morte daquele preparador físico com quem Malvo se alia para tirar dinheiro do dono do mercado. Malvo amarra-o à uma metralhadora, em frente à porta de sua própria casa, contra a luz e atira de dentro da casa em um carro estacionado em frente ao local.

A ideia é que a polícia imagine que há um atirador ali dentro e, por esse tal atirador não se render (está preso dentro da casa), ela entre no local atirando. Tudo acontece conforme planejado, o rapaz é morto. A polícia, percebendo o próprio erro, afirma ser o suicídio mais estranho já visto. Ninguém percebe que o rapaz jamais conseguiria se atar daquela forma à arma…

E o fato de que Malvo é assassinado em uma emboscada por um civil? Entendo que o civil fez um bem à humanidade, mas ao invés de ser julgado, é condecorado pelo ato heroico. Mais provincianismo moralmente discutível não há.

 

O acaso é uma via de mão dupla

Em vários filmes que têm o dedo dos Coen sentimos que o acaso vem para resolver problemas e para trazer novos. E pode-se dizer também que o acaso só vem.

Na vida, temos a impressão de que podemos controlar as coisas e que as nossas ações podem trazer consequências. Nada disso se confirma com segurança, viver é basicamente um amontoado de fatos que acumulamos, situações que vivenciamos e interpretamos, porém nem sempre as relações existem realmente. Apesar disso, na série Fargo, no fim tudo se ajeita, o bandido morre no final e Molly, uma das personagens mais importantes, consegue provar a sua razão no caso em que Lester é culpado.

Mas, à rigor, não é ela quem pega Malvo, mas sim o seu marido, um ex-policial que está trabalhando como carteiro. Ele, que é muito legal, mas meio bobalhão, está na estrada, pensando nos riscos que a esposa está correndo ao perseguir tal bandido, quando quase atropela um lobo (ou um cachorro desses de clima frio, perdão pela minha incapacidade de reconhecer espécies).

Ao parar o carro, evitando o acidente, ele percebe que está próximo ao esconderijo de Malvo e que o mesmo está de saída. Gus (o marido de Molly) espera por Malvo e o mata, quando tem chance. Na casa, estão as provas de que Lester é o culpado. Não o vemos ser preso e acusado pelos crimes. No entanto, isso pouco importa.

Os assassinatos só acontecem para mostrar que, de certa forma, estamos todos sujeitos a nos aproximar de nossos instintos mais animalescos. Malvo é a válvula de escape de Lester, mas o que o levou a cometer todos os crimes foi a necessidade de revidar todos os anos de humilhação. As pessoas podem ser cruéis naquilo que dizem. E todas elas se acostumaram a sê-lo em relação a Lester.

A série mostra que por mais que estejamos organizados em sociedade, tenhamos condições de racionalizar as coisas, o que há de mais humano em nós é muito mais próximo do animal do que de uma pretensa civilidade, seja você um selvagem, seja um inocente ou um predador. Quando Molly diz para Lester que um homem assim (Malvo) pode nem ser humano, ela negligencia o fato de que diante dela há um homem que cometeu atos terríveis, bárbaros, e que o ser humano pode ser responsável por atos desumanos (matar, humilhar, ofender).

Consideramos os atos bárbaros como desumanos, isto é, como não humanos, porque achamos que um homem não seria capaz disso. De algum modo, esquecemos que somos animais e que somos capazes de coisas terríveis. A diferença entre os seres humanos que vivem em uma cidade pequena e os que vivem em uma cidade grande é que na cidade pequena essa nossa proximidade com o que há de mais selvagem e inocente em nós é mais evidente.

 

Uns deslocados

Trabalhei por quase dois anos em uma escola pública da periferia da cidade em que vivo. Algumas das melhores histórias que já contei saíram daquelas paredes, daqueles alunos, das pessoas com quem convivi diariamente.

Hoje, enquanto lia Vidas Secas, lembrei de uma família cujo filho mais velho estudou lá. Lembro muito pouco deles. Um silêncio consentido. A pele castigada pelo sol. Nada que os diferenciava de outros pais que iam até mim resolver questões administrativas.

Quando conheci essa família, eles foram até a escola solicitar a transferência do filho. Estranhei conhecerem tão bem a mecânica burocrática que acometeu o universo escolar não só na região da secretaria, onde me alocava.  Chequei o prontuário. Devia ser a quarta vez que transferiam o filho de escola, só naquele ano.

Perguntei o motivo da mudança. Estavam de partida para o Maranhão, a trabalho. Verifiquei onde mais aquela família tinha se instalado naquele ano. Sempre no Maranhão. Pelo que constava nos registros, tinham ido e voltado daquele estado o ano todo. Ao perceber a minha expressão de estranhamento, a mãe explicou que da outra vez achou que haveria uma boa oportunidade de trabalho, mas tinha se enganado.

Enquanto redigia o documento, pensei o que poderia fazer com que uma família toda se sentisse esperançosa a cada nova oportunidade de emprego, a ponto de simplesmente saírem, quantas vezes fossem necessárias, de um lugar do qual haviam retornado e do qual nada conseguiram.

Em parte, Fabiano de Vidas Secas tem essa esperança que nos desconcerta, porque não sabemos bem de onde ela vem e como se justifica, pois, ao redor dele, no espaço em que se encontra, quase nada floresce, nada frutifica e nada é garantia de melhora. Fabiano, mesmo com o coração grosso, tem uma existência auspiciosa, sempre esperando que a seca um dia acabe, sempre encarando a estrada, talvez o único espaço com o qual ele consiga ter alguma intimidade.

Eu entreguei os papéis aos pais e pensei que não seria de se estranhar que dali alguns meses voltassem a solicitar matrícula. Pensei, também, que por piores que fossem as condições de vida daquela família, havia neles uma espécie de liberdade, de desprendimento que eu jamais conseguiria compreender.

Eu sei que o Hemingway dizia que a gente não deve escrever tudo de uma vez, se quiser escrever bem. Sei, também, que o Hemingway não trabalhou com produção de conteúdo. Ele abominaria esse ofício. Quase tanto quanto eu.

Um dos bônus de se trabalhar com a escrita é poder dizer que fiz um bom texto em menos de meia hora. O exercício diário da escrita, por mais criativo que pareça, também pode ser mecanizado e transformado numa construção matemática e técnica o suficiente para ser adequado aos propósitos de quem paga os honorários. Uma vantagem, no entanto, que se contrapõe ao idealismo de quem sempre se interessou pela literatura. A vida adulta tem dessas sacanagens.

É contraditório, inclusive, pensar que se possa escolher a carreira de redator, produtor de conteúdo ou qualquer denominação que procure definir esse tipo de trabalho como uma forma de fazer algo que mais se aproxime de um trabalho como escritor. Mas nem isso nos é permitido. Quem trabalha nisso precisa se moldar e se adaptar a um tipo de texto que dá pouco ou nenhuma concessão à inventividade e, ironicamente, o redator tenta se identificar como um criativo.

Nos últimos tempos, quando tento escrever algo que não seja de trabalho, eu falho. Me parece que, aos poucos, venho me adaptando a um estilo que não é o meu, pois, reconheço, nem tive tempo de desenvolver algo que soe como um estilo. Imagino que a idade tem me feito afrouxar a rebeldia e a necessidade de confrontar as regras. De todo modo, sinto que vou perdendo o jeito de parecer algo que eu nunca fora, mas que, dentro de minha lógica produzida na sociedade técnica, eu planejei ser.

Penso que, de certa forma, eu também não soube lidar muito bem com os momentos de liberdade, estes nos quais eu escrevo somente para mim. Os textos que publico aqui e os que guardo à sete chaves sempre nasceram de um lampejo inventivo, uma ideia que me acometia inteiramente e pela qual eu me deixava tomar. Eram lazer, em outras palavras. Desaprendi a conviver com a palavra, a pensar nela com a acuidade de quem rebita o ouro. Assimilei a ideia de que trabalho é algo pelo qual recebo uma remuneração e, se não for assim, não vale a pena. O perfil desistente se apoderou tanto de mim e atingiu uma das atividades de que mais gostei ao longo da vida.

Estou buscando, agora, reverter isso. De certo modo, me vejo estacionada como projeto de escritora e sem prespectivas de melhora. Quero reaprender a construir um texto, a insistir nas ideias que pretendo desenvolver nele, a buscar as palavras que de fato quero inserir ali. Um intento que já se revela falho, quando o defino sem escapar de um plano matemático, o que, para a escrita que pretendo desenvolver, pode ser impossível.

Filho de cavalo pônei é

Há uma diferença básica entre imaginação e memória: o fato de que, na segunda, há o real como componente, além, é claro, do tempo passado, enquanto a primeira é fruto de um processo criativo racional. Por algum motivo, algumas lembranças nos afetam mais do que outras e permanecem por mais tempo conosco, ainda que venham a se modificar com o tempo. Estamos habituados a pensar na memória como aquilo de que nos lembramos, mas ela também é aquilo de que você já se esqueceu. Aquilo de que não se lembra ou não sabe também faz parte de quem você é.

O segundo episódio da quarta temporada da série Bojack Horseman, “A casa velha do Sr. Sugarman”, dá muito o que pensar sobre memória e esquecimento e sobre o quanto tudo isso acaba por fazer parte de quem somos. A primeira cena desse episódio recupera a última do episódio final da temporada anterior. Após desaparecer, Bojack vai buscar o passado ao voltar para a casa abandonada da família, lugar em que viveu sua mãe, Bea.

Desde o momento em que Bojack entra na casa, lembranças de fatos importantes para a construção da personalidade de Bea aparecem. O personagem aparentemente ignora essas lembranças, mas elas o acompanham não só no plano da cena, mas metaforicamente. Bojack é, de certa forma, resultado dos eventos que aconteceram ali: é fruto de uma família que foi destruída pela guerra, de um casamento que se realizou por convenção (como vamos descobrir nos próximos capítulos) e que por convenção perdurou. Bea vivenciou o sofrimento e a perturbação da própria mãe, criada (ambas) dentro de uma estrutura social que dá pouca ou nenhuma liberdade aos indivíduos, sobretudo às mulheres. Bojack é, então, parte de um ciclo que se inicia com a infelicidade de seus avós, que se reflete em seus pais, em relação ao casamento e à vida que levam, e que o acomete desde a infância.

O personagem não se caracteriza, no entanto, pelo hábito de tentar compreender e, em certa medida, analisar o próprio passado. Ele evita refletir com acuidade sobre os eventos que viveu e sobre as próprias atitudes, adotando uma postura de negação ou de falseamento na resolução de qualquer problema. Muito mais do que ignorar determinadas situações vividas por seus familiares, ele se dedica a não conhecê-los. Se durante todo o episódio ele busca reconstruir a casa dos avós, de modo que ela volte a ser exatamente como era antes; num movimento de recuperação e de busca por um tempo que faz parte do que ele se tornou; não é surpreendente que no final do episódio ele se decida por destruir a casa repetindo o ditado de seu avô de que “a flecha do tempo corre sempre para a frente”. Importante notar que o avô de Bojack também diz, não sem razão, que a casa nunca desaparecerá (“assim como a poliomielite e o racismo”).

Ao mesmo tempo, conhece a libélula Eddie, que vive em frente à antiga casa e o ajuda na reconstrução dela. Esse personagem funciona como contraponto do personagem principal: enquanto Bojack se esforça para se desvencilhar do passado e evita, inclusive, pensar sobre ele, a libélula está completamente presa ao passado, aprisionada por ele. A libélula perdeu a esposa em um acidente e disso nunca se recuperou, tendo, inclusive, deixado de fazer coisas que são inerentes à sua espécie, como voar.

Esse aprisionamento de Eddie é enfatizado quando num jogo de cena em que passado e presente se juntam, ele canta a bela música I will always think of you com a avó de Bojack, que também não conseguiu seguir normalmente a vida após a morte do filho na guerra.

É válido comentar que são personagens agindo como humanos. Se fossem animais agindo como animais, esses problemas de memória, esquecimento e angústia não existiriam.

 

Uma realidade inventada

Se por um lado, afirmar que somos resultados da memória e do esquecimento pode parecer uma visão determinista, pois insere o indivíduo numa posição de produto de uma série de fatos, muitas vezes não vivenciados, por outro lado mostra o quanto pode ser difícil desenvolver uma personalidade e uma consciência saudável num mundo em que determinadas situações nos tornam amargos, como é o caso de Bea e, consequentemente, de Bojack. Desde criança ele passara os dias sendo culpado pela infelicidade da mãe e pela frustração do pai. Uma criança que passa os dias ouvindo o quanto é inútil e o quanto destruiu a vida dos pais, dificilmente se tornará um adulto emocionalmente equilibrado.

No início da série, não sabemos bem o que cunhou a sua personalidade egoísta, maníaca depressiva e o que o faz tão infeliz. Temos indícios, pois, eventualmente surgem cenas de sua infância, mas tudo se esclarece quando descobrimos que seus pais tiveram que se casar quando Bea ficou grávida e que a própria rotina do casamento e as muitas concessões que acabam sendo feitas; no caso do pai de Bojack, desistir de ser um escritor; foram minando a vida dos dois.

Em alguns momentos é possível perceber que Bojack escolhe ser um ator/humorista para agradar aos pais e às pessoas de um modo geral. Ele quer ser lembrado por ter feito alguma coisa importante. Mas Bojack se torna uma celebridade, e nem toda celebridade é, de fato, um artista ou faz coisas relevantes. Para manter a audiência e o interesse alheio, ele precisa representar um personagem que interesse a todos, e isso não só diante das câmeras, mas fora delas. Logo ele percebe o quanto é preciso fingir, ser um personagem de si mesmo e assumir uma postura de artista que seja agradável aos olhos dos outros. É preciso ser o Bojack Horseman que todos esperam ver. Do contrário, ele se torna irrelevante. O show business pode ser tão nocivo quanto a guerra, não é por acaso que frases como “o show business é assim” e “a guerra é assim” são proferidas quase ao mesmo tempo ao longo do episódio.

Ele ganha fama e dinheiro como ator, mas sequer é um ator. Como diz Herb Kazzaz, diretor da série que estrelou na juventude, Bojack é bom em dizer suas falas em alto e bom som, de forma articulada e na marcação correta. E seu único prêmio importante como ator foi por um filme cujas cenas foram criadas por programas de computador. Ele é uma farsa, sabe disso, mas não faz nem fará nada para mudar.

Não é possível afirmar que o personagem conseguirá se desvencilhar desse ciclo de amarguras no qual está inserido, sequer há uma solução definitiva para ele. A série joga justamente com essa ideia de que não há esse momento em que todas as respostas chegam até nós e que encerram nossas dúvidas e angústias. Mas, e isso sim é possível afirmar, se voltar ao passado não parece ser uma opção, ignorá-lo também não o ajudará a entender e a aceitar quem ele se tornou.

Não se livra de nada

Estamos sempre retirando as coisas de um lugar, passando para outro para depois devolvermos no de origem. E isso faz os dias cada vez mais desgastantes. Esse movimento de ir às compras, de retirar objetos das prateleiras, colocá-los no balcão até que a conta seja paga e levá-los para casa, onde temos de encontrar um novo lugar para o objeto recém adquirido.

O Arnaldo Antunes tem razão quando diz que “as coisas não têm paz”. Na realidade somos nós que não temos paz e culpamos tudo o que está ao nosso redor, tudo o que está ao alcance dos dedos. As coisas nos incomodam, mas fomos nos que as colocamos ali, temos de lidar com elas, aceitar que dividimos o mundo e a existência com elas, aprender a viver no meio delas, saber que, mesmo quando conseguimos nos livrar delas, vão continuar existindo por aí. Não se livra de nada.

Nos sujeitamos diariamente a vencer o acúmulo de poeira que recai sobre os móveis ou a evitar o aspecto desagradável que os pelos do cão deixam no ambiente. Mas tudo precisa estar em um lugar, assim como o pó e os pelos. As coisas não só não desaparecem, como parecem retornar ao lugar de origem; são fardos aos quais nos enredamos. E que estão insistentemente nos lembrando de que o menor esforço é vão.

Festas de fim de ano são cruéis com essa coisa de acúmulo. São sinônimo de muita gente, muitos embrulhos, muitas compras, muitos presentes, muita comida, muita bebida e uma quantidade inigualável de louças para lavar. Há, sempre, coisas que precisam ser organizadas antes e depois. Momentos de angústia que se prolongam, acabam e retornam no ano seguinte. Elas nos dão a impressão de que a vida é esse fosso diário e aleatório das mesmas inutilidades.

À margem

Vi o Inside Llewyn Davis, filme dirigido pelos irmãos Coen, umas três vezes (a última essa semana) e sempre fico surpresa com a atmosfera do filme e com o tempo. Uma lentidão em que acontecem poucos fatos relevantes e, ao mesmo tempo, a impressão de que muita coisa acontece em poucos dias. Coisa de personagem que não tem uma rotina determinada pelo horário comercial.

Llewyn, um músico de folk, desfaz muito do estereótipo que se construiu sobre a personalidade de um músico. Não é dos mais simpáticos ou carismáticos. Não parece querer agradar os outros e não consegue se conectar com as pessoas (ao contrário de Troy Nelson). Embora tenha sensibilidade musical, enxerga a música como um trabalho e não exatamente como uma forma de expressar bons sentimentos – algo que, de certa maneira, explica suas escolhas de repertório e de estilo. Essa rigidez ele provavelmente adquiriu do fato de que vive da música, ou melhor, precisa sobreviver por meio dela.

Uma sobrevivência que se localiza sempre à margem de tudo e de todos. Llewyn não tem casa, sequer tem um casaco decente para enfrentar o inverno. Não fossem os amigos que lhe oferecem o sofá – alguns muito à revelia –, ele não teria onde dormir. Mas até essas amizades, algumas delas, mostram como construímos a maior parte das relações pela via da conveniência. Se Llewyn só espera deles o sofá e um teto temporário, os amigos fazem dele uma espécie de personagem excêntrico – “o músico”, “o artista” –, pedindo-lhe que cante para agradar as visitas e para a manutenção de uma certa imagem que tentam emplacar: a de mecenas, a de que valorizam a arte.

Os amigos e conhecidos com formação acadêmica, por exemplo, apesar da boa intenção e disponibilidade em receber Llewyn sem nem um telefonema que o anteceda, parecem ser os mais deslumbrados no que diz respeito à carreira musical. São, inclusive, injustos quando fazem afirmações que indicam que basta somente um hit para que o artista tenha sucesso. Desconhecem a vida diária de um músico como Llewyn – que não tem onde dormir – e parecem ter aquela falsa ideia de que a música permite uma vida glamourosa e dinheiro fácil.

E Llewyn é exatamente o oposto disso. É tão marginal, tão avesso à vida regular com que nos habituamos, que sequer entende a lógica dos impostos e da contribuição sindical. Quando decide ir para a Marinha Mercante (decisão esta motivada pela falta de perspectivas em terra), descobre que precisa pagar meses atrasados ao sindicato. Preocupado com a possibilidade de ficar sem dinheiro, pede que esses meses atrasados sejam descontados de seu primeiro pagamento, o que não é possível. Llewyn parece não entender que deve e que isso não tem a ver com o salário que irá receber. Isso fica evidente quando ele desiste da viagem e pede que lhe devolvam o dinheiro com que pagou a dívida, o que, obviamente, também não é possível.

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O personagem parece ter uma lógica própria e tenta dividir o mundo com quem já aceitou a ideia de que é preciso planejar o futuro, construir uma carreira, usar o trabalho como um meio para se ter coisas materiais. Mesmo ciente de que é preciso sobreviver de seu trabalho, o que, em geral, significa fazer concessões, ele abomina a ideia de usar a música como meio para conquistar coisas.

É evidente que não há redenção para alguém assim, pois é um personagem que vive num mundo todo feito contra ele, mas, ao contrário de Macabéa, ele tem toda consciência disso. Acompanhamos toda a sua trajetória em busca de um contrato com um produtor e de continuar fazendo o que, talvez, seja a única coisa que faz sentido para ele. Tudo é vão. Ele é um Ulisses que não tem lugar para voltar. E, no fim, quando parece que ainda há uma chance dele se destacar e ter algum sucesso como músico, há a sugestão de que será ofuscado pelo Bob Dylan, o que de fato aconteceu com Dave Van Ronk, músico que inspirou a construção do personagem Llewyn Davis.

 

 

Nem tudo o que reluz é ouro

Quando soube que um jornalista tinha sido demitido por causa de uma entrevista e, principalmente, de sua repercussão negativa depois do modo como o entrevistado encarou a matéria publicada, não pude deixar de reparar na palavra “militância” empregada no sentido de desqualificar o tal jornalista.

A palavra foi usada em referência a alguns posts que o jornalista fizera; compartilhamentos de links, na verdade; que supostamente eram favoráveis a políticos de partidos muito específicos, os quais têm sido hostilizados pela opinião pública.

No entanto, me chamou a atenção que o simples compartilhamento de posts possa ser considerado exemplo de militância. Fiquei em dúvida sobre o real sentido da palavra “militar”, verbo transitivo indireto e não o substantivo.

Recorri ao dicionário e obtive:

militar2
verbo
  1. 1.
    intransitivo
    seguir carreira nas forças armadas.
  2. 2.
    transitivo indireto e intransitivo
    participar de guerra; combater, lutar.
    “m. com bravura (contra o invasor)”
  3. 3.
    transitivo indireto
    seguir qualquer carreira ou profissão.
    “ela milita na medicina”
  4. 4.
    transitivo indireto
    lutar ativamente em favor de uma ideia ou causa.
    “m. a favor da liberdade de imprensa”
  5. 5.
    transitivo indireto
    ser filiado a um partido político.
    “milita no partido dos trabalhadores”
  6. 6.
    intransitivo
    ter força; vigorar, prevalecer.
    “atualmente, milita a regra dos reajustes escalonados”

Os itens 4 e 5 eu já esperava. Militar em um partido, isto é, estar filiado a um grupo de pessoas com ideias parecidas com as minhas ou mesmo militar por uma causa, lutar por ela, apoiá-la. O significado mais surpreendente, porém, foi o 3. Há quem considere a carreira política uma profissão, mas o exemplo que o dicionário nos dá é, de fato, uma profissão.

Nunca havia encontrado esse uso para a palavra “militar” e penso que deve ter caído em desuso pela carga negativa que ela parece conter. Nesses tempos em que as questões ideológicas se tornaram tão acirradas, há todo um movimento paradoxal que ojeriza qualquer sugestão política que uma discussão possa indiciar.

Ser militante, para muita gente, tem ligação direta com movimentos de esquerda – como no caso do entrevistado que mencionei no início – e, provavelmente, já remete à luta armada, de modo parecido com o item 1 do dicionário, mas, no caso, tem um teor que se aproxima da ideia de guerrilha e, penso eu, de terrorismo.

Mas, contrariando essas ideias, temos aí a imagem de alguém que milite em uma profissão. Isso mostra que, muito mais do que ideologia política, o substantivo militância requeira um envolvimento mais abrangente com o objeto de que se trata. Um médico militante é alguém que se decidiu pela carreira por questões subjetivas (ou financeiras mesmo, não estamos aqui para julgar), que estudou para realizar o trabalho e que ganha a vida, dedicando horas de seu dia ao exercício da medicina.

Ser militante me parece ser algo mais global do que localizado. É como se a militância de Facebook só contasse quando há algum tipo de ação fora dele. Um militante é alguém que tem uma relação profunda com a causa que apoia, e desenvolve essa relação em diversas esferas de sua atuação em sociedade e mesmo em sua vida pessoal.

Longe de mim querer definir os limites da militância alheia. Acho isso tão complicado quanto tentar definir os limites do humor – assunto que instaurou a rusga entre entrevistador e entrevistado. Mas o problema não é nem a relativização do que é ou não ser militante. É essa mania de pegar a parte pelo todo. Postou textão no Facebook? É militante. Criticou fulano de tal? É oposição.

No caso específico da polêmica, para considerar o jornalista um militante, o entrevistado precisaria ter outras informações sobre a conduta do entrevistador. O mero questionamento sobre os limites do humor não faz dele um militante. O simples ato de compartilhar um post em rede social não faz dele um militante. Pode ser um indício, mas não a prova cabal.