Contém spoiler

Um spoiler não deveria estragar um filme inteiro, mas geralmente estraga. Eu não vi Game of Thrones, mas li que Arya Stark disse a frase “Not today” para outro personagem e só de contar isso ao meu marido, estraguei todo o episódio que depois ele assistiu. Eu entendo quem odeia spoiler. É sacanagem passar 3 horas no cinema vendo um filme que se resume em apenas uma frase. É como comprar um carro, mas nunca ter dinheiro para colocar gasolina, ou seja, você se satisfaz com a compra, mas não pode se satisfazer com a experiência que o produto poderia dar.

Reconheço que há spoilers e spoilers. Quando assisti Breaking Bad, lembro de como me senti após ver a cena que se tornou a minha favorita da série: a cena em que Heisenberg enfrenta o Tuco com o seu conhecimento sobre química. O impacto da cena, a sensação que senti quando ele explodiu a boca do traficante, fora definitivo para que eu compreendesse o quanto aquele personagem estava se deixando seduzir pelo poder da condição que escolhera para si.

Na noite em que vi o episódio mencionado, meu marido dormiu no sofá e perdeu esse trecho tão importante, ao meu ver, para a constituição do personagem a quem conhecíamos a cada novo episódio. Contei a ele o que havia acontecido mais ou menos como expliquei aqui: Heisenberg enfrentou Tuco com a sua inteligência. Expliquei, também, as consequências de sua atitude e os possíveis desdobramentos para a série. Veja, se ele não quisesse rever o episódio, nem faria falta. Porém, eu queria que ele se sentisse como eu me senti diante da tela. Queria que aquele impacto o incendiasse e o levasse a compreender quem era Heisenberg, pois, inclusive, aquela cena é, para mim, um encontro do personagem consigo mesmo ou com quem ele sempre quisera ser.

Dei esse spoiler de Breaking Bad para mostrar que há, sim, modos de se contar uma história sem deixar o espectador puto por perder a experiência que a cena pode lhe causar. Mas também sei que Breaking Bad é o tipo de série que permite um spoiler sem que a gente sinta que perdeu a trajetória. É uma série cujos fatos estão tão bem elaborados na estrutura do roteiro, que é fácil separar o “como” d’ “o que”. Imagino que em boa parte dos filmes e das séries o “como” é, digamos, não tão bem arranjado, daí que se você contar “o que”, o filme ou a série acaba aí.


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O fim dos likes

Não sei se existe coincidência, mas recentemente vi alguns posts no Twitter mencionando blogs antigos e o quanto era divertido ser articulista de um nicho de 20 pessoas numa época nem tão distante. A primeira vez que ouvi falar em blogs foi num artigo da Veja e o primeiro que acessei foi o Blog dos Excluídos. Não convém falar dele neste momento, mas na época fiquei encantada com a possibilidade de compartilhar meu diário com as pessoas.

Um dos meus primeiros blogs tinha a função de me ajudar a manter o hábito da escrita e eu escrevia uns textos bem confessionais, os quais apaguei sem dó, quando me dei conta de que ninguém queria saber. Mas, até hoje eu mantenho esse espaço aqui (mantenho financeiramente, inclusive), no qual trato de assuntos diversos, no tom que mais me apetece, sem me preocupar com palavras-chave e demais ferramentas que me façam ser encontrada pelos bots do Google, porque gosto de tratar de temas que me ocupam a mente no dia a dia, por mais estúpidos que sejam. Tenho meus momentos de resenhista e de articulista, mas são fases da vida, nas quais nos afundamos todos.

Desde que o Mark anunciou que pretende acabar com os likes nas redes sociais, tenho me preocupado com a existência deste espaço aqui e já vou explicar o motivo. Curiosamente (ou não), tenho sentido falta de escrever sobre o meu dia a dia e coisas que penso corriqueiramente: sobre aulas de canto, sobre a vontade de (tentar) escrever literatura, sobre o quanto o mestrado é amargo e parece nunca ter um fim. Enfim, coisas que não servem nem para quem ainda lê blog, nem para as pessoas que utilizam blogs como ferramenta de trabalho.

Não servia, aliás. O anúncio do Mark veio com a informação da nova estratégia, que nem é tão nova assim, de que “o ouro” (palavras dele), agora, são as mensagens inbox, aquelas que a gente envia via Messenger, via Mensagem Direta, via WhatsApp. Mark sacou faz tempo que a gente só tem compartilhado conteúdo filtrado. Veja, a quantidade de likes em aplicativos como o Instagram ajuda os seguidores a saberem o quanto aquele perfil é querido por outros seguidores. Quanto mais likes, mais relevância o perfil tem. A necessidade de likes, porém, gera uma ansiedade naquele que publica, o que, paradoxalmente, tem feito as pessoas publicarem menos por medo da rejeição. Cada vez mais, estamos buscando lugares, digamos, mais seguros para compartilhar nossas ideias e para, no limite, bater papo.

No Facebook, por exemplo, diminuiu a quantidade de gente publicando conteúdo sobre política, já que, ao invés de debater ideias ou de conquistar o rótulo de um cidadão bem informado, quando você publica links/textos sobre política, conquista desafetos. Ao perceber que as pessoas estão evitando compartilhar informação nos feeds e timelines da vida, Mark está focado em vasculhar nossas mensagens privadas. E é aí que eu entro.

É evidente que ninguém ainda comentou nada sobre blogs, mas, dentro dessa lógica, os blogs mais voltados para a vida pessoal de quem escreve vão estar no espectro dessa gente que tem motivos escusos para acompanhar nossa vida privada – não importa quão desinteressante ela pareça ser. Isso me faz questionar, com muito pesar, a existência deste espaço de escrita, pois (e digo isso com a consciência de que é tarde para me preocupar com a quantidade de informação que descarto na internet), ao invés de usá-lo na contramão das técnicas de SEO, há a chance de que eu o tenha alimentado exatamente com a informação que há de me manipular.

Acho estranho e meio sintomático que, recentemente, várias pessoas tenham sentido falta de ler blog, sendo que, com blog, elas não estão se referindo àqueles vinculados a sites de notícias, mas sim, a lugares anacrônicos como esse aqui e mais uns 5 que existem na internet e que estão até desatualizados há anos, mas resistindo bravamente. Pode ser paranoia minha e pode ser coincidência. Mas sei lá se existe coincidência.

Uma chatice fazer aula de canto. Mentira, é bem legal. Legal só porque te ajuda a cantar melhor, claro. Legal só quando você começa a notar melhoras. Todo mês eu acho que estou um pouco melhor, o que é bom, sim, mas também irritante, porque eu nunca me apresento do jeito que eu queria e fica aquela auto cobrança: ah, mas se eu soubesse que em abril de 2019 eu estaria cantando assim, não teria feito aquele show X para aquela plateia Y. Fazer o quê? A vida é assim, como diria o filho de 5 anos da minha amiga.

Música é ficar o tempo todo correndo atrás de algo que você não sabe bem o que é, mas tem consciência de que está logo depois daquilo que você já achou. Sim, todas as carreiras são assim. Mas a área de artes é foda, porque depende 99% da crítica alheia. O artista só existe, porque alguém gosta dele. É muito bonita a história do cara que produziu a vida inteira e só foi reconhecido após a morte. Um cara à frente de seu tempo, que gênio! História bonita, mas cruel. A gente precisa viver daquilo em que trabalha, afinal.

Só que as coisas não acontecem no tempo que a gente precisa e, algumas delas, não acontecem. Tirar de si mesmo o peso de ser sempre bem-sucedido ajuda a gente a ter saúde mental para continuar. Mas não é fácil atingir esse grau de leveza, de evolução espiritual e de autocontrole emocional. Até esses dias, pra você entender, eu estava achando que quem me viu cantar até janeiro não tinha visto tudo o que eu poderia fazer musicalmente. Agora já estou achando que abril foi o divisor de águas. E no meio tem muitos dias em que a única palavra que encontro para descrever minha voz é “lixo”. Esse high low cansa. Porém, não sei se tem outro jeito.

O jeito é continuar por um motivo só: não há escolha. A gente vai tentando, se surpreendendo, se irritando consigo mesma e assim vai. A outra possibilidade é desistir (ou seja, há outras escolhas, sim).

Robert Johnson e o demônio do blues

Não sei se Robert Johnson, caso pudesse voltar no tempo e reescrever a sua história, teria optado por uma vida comum, livre do estigma que se criou (e que ele alimentou) para si mesmo. É certo, no entanto, que ele teve poucas escolhas a fazer e que por isso, conhecera o inferno. A contrapartida – que não sei se é bem um consolo – é que ele jamais fora esquecido.

A fama diabólica do blues, como consta no documentário Remastered – o diabo na encruzilhada, disponível na Netflix, é proveniente de uma dessas campanhas da igreja contra o que era o seu adversário do momento: o blues. Quando perceberam que perdiam fiéis, enquanto os bares ficavam cada vez mais lotados, os pastores começaram a divulgar que aquele estilo musical tão atraente era “coisa do diabo”: a igreja, claro, sempre muito competente em avivar a fama da concorrência. Tal estigma, no entanto, custou caro para Robert Johnson que foi impedido de conviver com esposas e filhos, em grande parte, pelo seu interesse no estilo musical.

Além do incentivo dos pastores da época, a pecha de diabo se consolidou pelo seu desaparecimento por cerca de um ano. Quando retornou, Robert havia se tornado um exímio violonista, o que fez crescer a ideia de que só vendendo a alma ao diabo poderia ter se tornado excepcional em tão pouco tempo. Espalhou-se a história de que ele teria ido a uma encruzilhada, entregado o violão para o diabo e solicitado a habilidade que lhe faltava para tocar. O diabo lhe concedera a habilidade, mas pedira sua alma em troca.

Para os africanos, a encruzilhada era o local de encontro, de cruzamento com espíritos e deuses, mas também de entrega de oferendas e sacrifícios. Combinado com o mito cristão, a encruzilhada se tornou o local de encontro com o diabo. Porém, apesar do temor que a história gerava, toda essa atmosfera sinistra fez de Robert um músico conhecido e admirado, juntando-se a isso, claro, o fato de que ele apresentava uma habilidade jamais vista. Nada como um relato mítico para chamar de seu, afinal. O documentário destaca a sagacidade de Robert ao estimular o mistério, explorá-lo em suas canções, criando toda uma curiosidade sobre si mesmo como artista.

O documentário evidencia o quanto a vida de um artista como Robert Johnson é cheia de sacrifícios maiores do que qualquer lenda. Seu interesse pelo blues tirou-lhe a possibilidade de ter uma vida em família, algo que parecia ser de seu interesse, e o deixou à margem de vínculos afetivos e de uma vida social mais próxima daquilo que, por falta de palavra melhor, chamamos de “normal”. Sem qualquer pretensão de reforçar a magia que emoldura a trajetória que conhecemos de Robert Johnson (mas com muito respeito a esta aura mítica que se formou em torno dele, pois seu talento era e é digno de admiração), o filme mostra que a encruzilhada pela qual ele de fato passou foi dedicar a sua vida à música: recebendo dela toda a glória, mas entregando-lhe tudo de si.



– Juçara Marçal, “Toque certeiro, pra onde apontar” –


Me sinto uma anã tentando escalar sem muito sucesso os ombros de gigantes, ao tentar esboçar qualquer coisa sobre Metá Metá. Um trio que une a experiência afro-eletro-punk de Kiko Danucci, o sax abrasivo de Thiago França e a voz inquietante de Juçara Marçal numa combinação que não tem nada de adocicada. Metá Metá é um retorno às origens, ou melhor uma redescoberta delas, uma (re-)entrega às nossas origens africanas tão, ao mesmo tempo, brasileiras, pois sequer há fronteiras entre elas. Metá Metá é um hiato indissociável em nossa música, “uma beleza disforme, sem rosto/ sem nome, sem moderação”. Não é pra qualquer um, mas todo mundo se reconhece nesse som que nos carrega para lá adiante, num vem e vai que faz a gente se conhecer um pouco mais a partir do que veio antes de nós. E se conhecer é esse risco, esse ritual que é feio e às vezes dói.

Ouça Metá Metá: http://metametaoficial.com.br (os álbuns estão todos disponíveis para download).


Inveja dos cães

Estou cansada de ter ideias para textos e nunca conseguir escrevê-los. Meu senso de organização ficou comprometido demais nos últimos tempos. Eu só tenho ideias. As ideias pululam. Assim como Clarice, tenho muita tristeza em não ter sido bicho. Eu olho para o Joaquim e o invejo. Invejo a vida com tempo estendido que ele tem – talvez por isso a vida dos cães seja tão curta. Tempo para dormir, para comer. Tempo para ser. O ser humano nem parece que é. A gente não vive, sobrevive. Mas esse papo também já cansou. Ando me recusando a discutir coisas para as quais não tenho solução. O que é um problema, pois decidi fazer pós-graduação e às vezes parece que meu trabalho ali é só dar solução. Não é. Não se resolve os problemas da África via literatura. Mas, então, como será que resolve? Não resolve. Se sofre. Se vive. Aliás, se sobrevive. Deixa pra lá. Eu já estou sofrendo por antecipação com a reunião que tenho amanhã. Diacho de gente que quer resolver tudo na base da conversa. Pior, na base de uma conversa localizada no tempo. Imagina: em 1h se resolve a crise política, ideológica e identitária da África! Chocante. Vamos fazer uma reunião para colocar os problemas desses caras em dia. Não aguento mais ler sobre a África. Deu pra reparar? Toda vez que leio mais um pouco, penso: insolucionável. E dói. Eu sangro em cada palavra. Mas, e daí, nem sou eu que moro lá. Se fosse, seria pior. A gente não pode reclamar da vida, não. Na verdade, eu não queria mais do que tenho agora. Na verdade na verdade mesmo, eu queria mais tempo.

(Lembro de mim mesma, criança, mal tinha conhecimento do meu tamanho no mundo. Sentei no piano. Toquei. Todo mundo chocado. A menina toca de ouvido! Acho que não era bem isso… Eu tinha tempo. Eu passeava pelas teclas e pensava nelas, ouvia o que elas tinham para me dizer. Depois, quando eu já fazia aulas de órgão, eu entrei na igreja – e lá era o único lugar que tinha um órgão fora a escola de música – e toquei Asa Branca. Teve gente que me repreendeu. Não se toca música “do mundo” por aqui. Foi meu primeiro delito. Foi quando entendi que tinha outros mundos além do meu. Isso me fez ficar mais perto de deus.)

Ato falho

Para Fábio Caldeira

Era filme de super-heróis e eu não sou exatamente uma entusiasta deles. Acontece que na logística dos relacionamentos, está pressuposta a inconveniência de vez ou outra, abrir mão do seu gosto para saciar a vontade daquele que nos tolera. É o mínimo, aliás. Não é propriamernte um fardo. Sobretudo em relações, digamos, mais “frescas”.

Mas o fato é: ele queria ver um filme de super-heróis, eu queria estar com ele. Por isso, abri mão daquela série de filmes, cujas salas de cinema estão sempre às moscas – deveria existir essa categoria -, e me dirigi a uma concorrida sessão de um desses blockbusters da moda. Era início de março, período em que o verão começa a demonstrar cansaço e resignação, assim como nós.

A sessão se iniciava a exatas 22h, tempo suficiente para que nos alimentássemos e nos dirigíssemos calmamente ao lugar determinado no bilhete. Não fosse um certo retraimento de minha parte, poderia dizer que tudo corria na mais perfeita ordem. Agora, avaliando com alguma tranquilidade, posso dizer que meu comportamento tacanho não tolera uma quantidade que ultrapasse dois adolescentes. Não era bem o caso daquela sessão. Tratava-se de um sábado. Não há muito mais a se fazer no mundo, quando se tem entre 13 e 16 anos em pleno sábado.

Veio o filme. Entre um embate e outro, um soco aqui, um pontapé acolá, notei que um casal se levantava. Pensei, primeiramente, em reclamar pelo fato de estarem atrapalhando a visão de todos. Porém, em seguida, percebi que o motivo da saída deles era o fato de estarem exatamente embaixo de uma goteira. Na verdade, chamar aquilo de goteira é até subestimar a capacidade dela de incomodar quem está abaixo. Praticamente chovia sobre a cabeça dos desavisados. 

Uma sensação de pânico me acometeu, quando fui surpreendida por outra goteira. E outra. E mais outra. E em poucos minutos nem parecia que estávamos no cinema, supostamente protegidos por uma estrutura de, sei lá, concreto (?) e gesso. Senti falta da faculdade básica de respirar. Mini-ataque de pânico? Mini-ataque de pânico.

Confesso que, a partir deste momento, algumas cenas ficaram confusas para mim. Mas é certo que o teto desabou. Bem, antes disso, tenho outras confissões a fazer; ideias que me vieram à mente um segundo antes do fato trágico que contei. Primeiro, pensei em correr, aquele óbvio instinto de sobrevivência que se aciona naturalmente em cada ser vivo. Segundo, um sentimento de vergonha, por falta de palavra melhor. Vergonha, no caso, por estar em uma sessão de filme de super herói; imaginei as manchetes no dia seguinte relatando o caso e meu nome envolvido.

Antes que você possa me julgar, sugiro que pense naquilo que detesta ou que diz detestar às pessoas. Algo que não faz parte da identidade que passou anos cunhando, definindo e adaptando. Pense que seu último suspiro vai ser envolto em tudo o que esse seu desgosto significa. E imagine isso estampado nas capas de jornais.

Afora esse rápido devaneio, meu corpo foi completamente soterrado pelos destroços. E então, aconteceu. Percebi um calor ir aumentando e uma iluminação ir se sobressaindo entre os escombros. Era ele. Ele, que estivera ao meu lado durante toda a noite. Ele, por quem me submeti a uma sessão de filme de super herói. Não posso esclarecer como isso se passou, mas ele brilhava como a luz do sol às malditas 12h e, em um breve mas intenso segundo, conseguiu afastar as pedras de cima de nós.

Nunca mais o vi. Também não o procurei. E por mais que lhe deva a minha vida, não posso suportar a ideia de que durante todo o nosso relacionamento – breve, mas real – eu havia me interessado pelo tipo mais inverossímil de todos: o super herói.

Ana Cañas, Amor e Caos

Rapaz, acho que estou para ouvir Ana Cañas desde 2009 e os dias passaram tão rapidamente e tão desavidamente, que eu precisei de um #OuçaMulheres para colocar em dia a agenda musical.

Com Ana, divido algumas particularidades e gostos: 1. começar a cantar tardiamente; 2. gostar e se lembrar de como se sentiu a primeira vez que ouviu Ella Fitzgerald; 3. cantar e gostar de jazz (Ana começou a carreira cantando jazz); 4. se sentir meio sem um estilo definido e insistir nessa mistura para fazer sempre as mesmas coisas.

Formada em Artes Cênicas pela ECA, cheia das parcerias definitivas (Nando Reis, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Arnaldo Antunes, Lúcio Maia), desde que começou na música, Ana gravou “Amor e Caos” (2007), “Hein?” (2009), “Volta” (2012), “Tô na vida” (2015). Esse último, confesso, ainda não ouvi, e é o que ela mais considerou característico do estilo que escolheu para si mesma e com o qual se posicionou mais como artista do que como cantora.

É mais uma cantora que não se coloca em prateleira, apesar de a gente reconhecer que ela é bossa nova e rock’n’roll e é vocal jazz – vá lá ouvir os covers dela e confirmar. Mas a voz tem essas nuances apimentadas de Elis Regina. Uma agressividade que é só na intenção, o que faz a gente lembrar da Patti Smith. Mas isso sou eu tentando entender o que nem Ana entende. 

Ouça Ana Cañas no Spotify: https://open.spotify.com/artist/4v1mao101nIWvxzotCSKyz…

#AnaCañas #OuçaMulheres

P.S.: Ouça Ana Cañas no Sesc Rio Preto! Semana que vem ela vai estar aqui. Segue o eventono Facebook: https://www.facebook.com/events/567358390436374/

Referências Bibliográficas:

http://www.anacanas.com.br/index.php/biografia/

https://revistatrip.uol.com.br/tpm/entrevista-to-na-vida-novo-disco-de-ana-canas

Nikki Hill, Feline Roots

É sempre uma chateação, a coisa da comparação. Mas se isso convencer você a ouvir Nikki Hill, aí vai: já foi considerada a nova Aretha Franklin e foi comparada à Etta James. A melhor comparação, no entanto, veio da Minneapolis Star-Tribune: “If Tina Turner and Little Richard had a daughter and raised her with the help of uncles James Brown and Chuck Berry, she’d be like Nikki Hill.”. Apesar de entender as comparações, para mim, Nikki está mais para ACDC (que é uma de suas bandas favoritas).

Nikki tem três álbuns gravados: “Here’s Nikki Hill” (2013), “Heavy Hearts Hard Fists” (2015) e “Feline Roots” (2016). Conheci a cantora num SESC Jazz’n’Blues da vida e sempre quis ouvir mais do trabalho autoral dela. Um rock sulista, com tempero de blues, soul, reggae e funk. Funciona assim: a gente fica com a impressão de que vai ver um show de blues e se depara com um show de rock. Nikki apresenta o mesmo “problema” que Betty Davis: sua música não tem lugar em classificação nenhuma. E por isso vale a pena ouvir.

No palco, ao menos no dia em que a assisti, há duas protagonistas: sua voz potente e brilhante e o peso da guitarra. Algumas vezes, achei que ela nem estava se importando muito com a nossa presença ali, conversando com a banda, vibrando com os solos dos demais instrumentistas. Em sua música estão claras as raízes do gospel e a rebeldia de quem um dia teve de ser independente e adquirir autonomia sobre a própria vida. Mas como a autonomia é coisa que nem existe, estão lá, em cada letra, em cada nota, os traços de uma fusão perfeita de estilos que compõem Nikki como artista.

Ouça Nikki Hill no Spotify: https://open.spotify.com/artist/28Vn4HKpcOqzagc7tiAxNz

P.S.: Esse post faz parte da série #OuçaMulheres que criei para minha fanpage.