Duas notas sobre nudez

#1

É curioso como essas ideias pretensamente moralistas invadem a discussão pública como rastilho de pólvora. Os museus estão expondo obras com pessoas nuas e em franco bacanal há anos e até ontem ninguém ligava para isso.

Quem frequenta museus, peças de teatro, lê livros, enfim, vive, lida com a nudez, seja ela sexualizada ou não há muito tempo. Os demais, estavam bem confortáveis vendo pornografia às escondidas, antes da polêmica.

#2

As pessoas adoram abraçar essas causas indiscutíveis, porém vazias. É muito bonito defender a Amazônia, os gays, como se fossem pautas completamente desconectadas de pautas maiores que, por sua vez, estão imbuídas de ideologias.

Basta alguém alegar que há indício de pedofilia em uma obra de arte para o primeiro cretino levantar a mão e se mostrar defensor da moral e dos bons costumes. Ter um homem nu a poucos metros de distância parece uma ofensa, se relacionado à pedofilia.

Qualquer pessoa com um pouco de consciência é capaz de ser contra a pedofilia. Mas muito pouca gente é capaz de reconhecer onde não há pedofilia. Ou seja, sem pensar muito estão lá abraçando um causa que nem existe (ou melhor, existe, sim, só que em outro contexto).

 

Uma infestação

Uma das músicas mais bonitas dos Beatles, Something, e também uma das mais românticas já escritas é tão cheia de dúvidas que, se a gente olhar direito, fala só desse momento em que o sentimento está vivo dentro de nós, desse segundo em que olhamos atentamente alguma coisa e por ela somos afetados. Mas, talvez, sejam essas dúvidas sobre como a gente vai se sentir após esse momento que faça com que a gente se identifique tanto com a música.

Quando eu tinha, sei lá, uns 8 anos, lembro de ter pensado que eu tinha certeza sobre as coisas que me faziam feliz. Não demorou muito – na verdade, acho que foi no mês seguinte – que eu vi tudo desmoronar e algumas dessas coisas se acabarem. Até hoje, eu tenho uma dificuldade enorme em me agarrar às coisas, às pessoas, porque nada nunca permanece.

Pensei até que eu já tivesse me acostumado com a sensação. Ontem eu vi que não. E me odiei por ainda pensar no mundo como algo que eu possa controlar. As coisas se desmancham por mais sólidas que pareçam. E o processo se dá quando não as estamos olhando atentamente – talvez por isso sejamos incapazes de perceber as nuances. Aquela porta cerrada que nunca abrimos e quando nos damos conta, já foi tomada pelos cupins ou qualquer outra praga.