Apostasia

Numa tarde quente de domingo, por volta das 15h, deixou de sentir. Tomou o pulso, observou as batidas do peito, checou o rosto no espelho mais próximo e confirmou o diagnóstico.

Por um instante se surpreendeu com a volatilidade do tempo. Há dois dias, tinha derramado as últimas lágrimas sobre o travesseiro, um choro inexpressivo, sem lamento, prenúncio de fim de luto. No dia anterior, a véspera, achou que jamais se recuperaria do dano. Julgou-o insanável e quase assentiu com uma espécie de alegria aquiescente.

Mas, à tarde, não uma tarde qualquer; uma tarde de domingo, mais ou menos entre 15h, 15h30; percebeu o tórax aberto, como se a respiração lhe saísse facilmente depois de muito tempo. O rosto no seu melhor tom. Nada da vermelhidão costumeira dos momentos de inquietação, nem da palidez que denota a falta de viço dos que sofrem. Notou um sorriso que desconhecia, era novo. Imotivado, saía-lhe de não sei que parte, mas era leve, fácil. Estava livre. Era o último dia.

Não precisa gritar

Tem um não-dito na minha família que já senti na pele algumas vezes: a constatação de que eu, definitivamente, não bato muito bem. Sobretudo para coisas sensoriais. Se eu sentir cheiro de gás, por exemplo, a chance de ninguém acreditar em mim é enorme. O que eu faço? Nada. Eu espero a casa inteira explodir, mas não digo nada.

Antigamente, eu tinha o hábito de tentar convencer as pessoas de que eu estava certa. Posso me recordar, não sem algum constrangimento, das vezes em que disse em alto e bom som que eu NÃO SOU LOUCA. Mas, claro, nunca adiantou e até tornou a minha opinião menos crível. Dizer para as pessoas uma verdade que só você sabe, de forma agressiva, faz você não parecer confiável. Se você diz com veemência que não é louca, o interlocutor começa a achar que, sim, você é meio louca.

Isso me faz lembrar de uma teoria que venho testando sem muita pressa, sem muito método: a de que as pessoas dizem, quase sempre, o inverso das coisas que sentem. Quando alguém diz algo como “não estou nem aí para você” é possível que ela esteja, sim, muito aí para você. Do contrário, não diria nada. A pessoa finge uma indiferença que ela não sente na verdade.

Pode ser que não seja como você espera, claro. Talvez ela de fato não tenha os mesmos sentimentos de antigamente, nem te odeie, mas ao dizer isso ela espera que você sofra, que você se importe com o que ela sente, o que não tem nada a ver com a indiferença. Eu vejo as pessoas dizendo que não estão nem aí umas para as outras e rio. Eu rio e não digo nada, evidentemente.

Uma ova, “Fred”

Tem uma cena ótima em Breakfast at Tiffany’s. Uma mulher, no meio da bagunça que eram as festas da Holly, bebe diante de um espelho e ri, como se conversasse com outra pessoa. Um pouco mais tarde, na mesma festa, a mulher aparece chorando diante do espelho, como se compartilhasse suas mazelas com um interlocutor. Essa cena me lembra muito uma de How I Met Your Mother, em que o Marshall, estando em uma boate, depois de muitos drinks, começa a flertar consigo mesmo diante de um espelho.

Eu acho que isso resume bem o lance com o álcool. Por mais que a gente costume beber em grupo e que a bebida tenha a capacidade de nos deixar mais sociáveis, penso que é uma atividade bastante solitária. Você bebe para se sentir melhor ou para entrar na bad de uma vez. Mas, é você com você mesmo.

Em eventos sociais chatíssimos sempre somos salvos pela bebida. E, eventualmente, pelo cigarro. O cigarro é quase que totalmente antissocial, porque as pessoas que não fumam buscam uma distância segura de suas baforadas e, geralmente, a gente sai para fumar com o pretexto de não importuná-las.

A minha primeira impressão do final de Breafkast at Tiffany’s foi uma certa decepção. De jeito nenhum aquela mulher se casaria com aquele cara, ainda mais depois daquele papinho de que as pessoas se pertencem. Uma ova, “Fred”. Alguém que tem coragem de abandonar o próprio animal de estimação, que por sinal nem tinha nome que era pra evitar apegos, não poderia ser a pessoa que busca salvação por meio do amor romântico. Não a Holly.

Mas, depois, pensei por outro lado. A chance dela ter optado por uma saída segura, em vista da falta de perspectivas na qual se encontrava, é enorme. E a gente tem que considerar que ela toma a decisão de ficar com o “Fred” depois que ele entrega o anel gravado na Tiffany. A loja era o que lhe remetia a uma espécie de lar. Pelo menos é o que ela diz no início. Segurança, né. (Alguém precisa contar a ela sobre o quanto a profissão de escritor é imprevisível.).

No fim, o “Fred” era não só a única alternativa da Holly, mas também um cara legal com quem ela gostava de sair e encher a cara. Não dá nem para julgá-la, porque acho que a gente sempre acaba se casando com o cara legal, que tope dividir as contas e que só te leve para casa quando você estiver bem bêbada.

Se a Robin de HIMYM estivesse na mesma situação que a Holly, provavelmente teria se casado com o Ted na primeira oportunidade. Mas, a Robin era uma mulher independente, a Holly dependia dos caras que pagavam 50 conto para que ela fosse ao toalete. Ou seja, nos dois casos, os casamentos me parecem fadados ao fracasso. Por isso, acho a Robin bastante inteligente. Ela claramente gostava do Ted, mas não se via casada com ele, com filhos e tal. Portanto, achou melhor deixar para lá. Já a Holly, quando se der conta de que suas expectativas sobre a própria vida mudaram – porque isso sempre acontecia com ela, convenhamos – e que o “Fred” também era o cara que dependia das mulheres com quem saía, tem toda a chance de pular fora no próximo táxi em direção à Tiffany. Ou irá escolher o álcool como salvação.

A trajetória

Quando estava passando pelo processo seletivo para o Mestrado, perguntei ao Fernando como é que seria a entrevista. Entre outras informações, ele mencionou que poderiam perguntar sobre a minha trajetória. Fodeu, pensei. Achei que não seria de bom tom explicar que sempre gostei de literatura, mas nunca tive lá muito foco e no início pensei que estudaria poesia, depois fiz estágio sobre mitologia e astronomia, mas aí eu saí da universidade e trabalhei com coisas diversas e não muito relacionadas com o que havia estudado, comecei e parei publicidade, depois achei que deveria estudar moda e o fiz e agora poderia estar matando, roubando e me prostituindo, mas estou aqui pensando em estudar um autor que conheci aleatoriamente, quando escrevia um artigo para uma revista de moda.

“Ninguém pode avaliar a trajetória das pessoas”, disse o Fernando. E fez uma expressão de quem percebe muito rapidamente o equívoco nas próprias palavras. Porque se tem uma coisa que as pessoas fazem é avaliar a trajetória umas das outras e estabelecer paralelos com quem você é hoje e com o que faz. Engraçado é que na área de literatura pega muito mal se você fizer uma análise de uma obra considerando aspectos da biografia do autor. É evidente que as pessoas escrevem sobre coisas que viveram ou que puderam observar, mas os limites entre o que é real e o que é invenção não são assim tão definíveis. Além do mais, o que a pessoa viveu pouco importa diante dos efeitos e sentidos que o texto nos permite ler. Então, se você justificar a leitura do texto com algum dado sobre a vida do autor, vão torcer o nariz imediatamente.

Muito antes de eu escrever esse texto aqui, estava eu na fila para ver uma peça de teatro e não pude deixar de ouvir uma conversa de pessoas que, aparentemente, pertenciam à classe teatral da minha cidade. A peça era um monólogo com textos do Caio Fernando Abreu. Um dos caras atrás de mim perguntou: “quem é mesmo o Caio Fernando Abreu?”. O outro começou: “ah, ele era homossexual…”.

O Caio Fernando Abreu escreveu romances, contos, peças de teatro, ganhou Jabutis (embora eu nem me importe com esses prêmios, mas ele ganhou e ganhou mais de um) e a primeira coisa que as pessoas lembram sobre ele é que era homossexual. Nessas horas, vejo até uma certa beleza no fato de eu nunca ter sido boa em absolutamente nada. Nunca vou ter minha obra ofuscada por nenhum traço de minha nada emocionante biografia. Ninguém nunca vai dizer que Bruna Venancio deixou o ballet, quando conseguiu finalmente chegar ao segundo ano, porque tinha disciplinas do mestrado para fazer. Jamais veremos aquelas manchetes terríveis, como “O ballet perde fulano(a)”. Ninguém se lembrará daquele fatídico ano em que meus pais me tiraram às pressas de uma escola particular e me devolveram para a pública porque tive dificuldades com algumas matérias. Aliás, se eu abandonar o mestrado agora, as pessoas julgarão coerente com a falta de foco com que sempre levei a vida.

Fico até com alguma pena do Caio Fernando Abreu e de tantos outros autores, cuja memória não consegue descansar em paz, graças à sua trajetória. Tão talentosos e tão dedicados aos ofícios que escolheram. Nunca saberão o que é alguém ler um texto seu sem achar que você escreveu aquilo porque é homossexual, feminista, simpatizante das baleias do Ártico ou porque nunca encontrou nada mais interessante para fazer da vida.

Roubando vidas

Quando me lembro de todos os grupos de amigos de que fiz parte na vida, desde os primórdios de minha existência como aluna, eu penso que era a menina da turma que escrevia. Mais escrevia do que lia, é verdade, apesar de que sempre me interessei pela leitura e não foi algo natural. Meu pai era professor, formado em Letras e cultivava uma pequena biblioteca em casa, local este em que também se localizavam meus brinquedos e discos de vinil do Elvis, que, por sua vez, foi o meu primeiro amor.

Mas, o lance é que eu escrevia. E quando me disseram que para escrever bem eu tinha que ler, comecei a me dedicar mais a essa atividade e, com ela, desenvolvi uma certa obsessão por livros. Por tê-los em casa. Em todos os cantos. Por alcançá-los sem precisar levantar, ir até outro cômodo e procurá-los.

Foi assim que eu descobri a biblioteca da minha avó. Ela sempre estivera ali na sala como um indicativo de que naquela casa moravam pessoas cultas e estudadas. Minha avó nunca abriu aqueles livros, penso eu, principalmente porque muitos deles eram de medicina – os outros filhos se formaram em odontologia e em psicologia, nada muito relevante para se ostentar; ao menos, não tanto quanto medicina.

Como encontrara um Oswald de Andrade aqui, um Euclides da Cunha acolá, comecei a pedir que me emprestasse os livros. Tinha toda a intenção de devolvê-los, mas sabe como é. Ela veio a falecer muito antes disso. Como eu sou a única da família que tem algum interesse neles, penso que são a minha herança, que já são meus por direito. Uma espécie de usucapião livreiro.

Aliás, eu vivo pegando livros emprestados. De absolutamente todo mundo. E sempre leio vários ao mesmo tempo, o que revela uma certa compulsão ou, no limite, uma falta de foco fodida. Eu juro que sempre penso em devolver os livros para as pessoas, mas nunca sei exatamente quando. Alguns eu termino de ler e deixo aqui para ler mais uma vez. Sempre parto do princípio de que o dono do livro virá me cobrar, caso precise dele. Assim, a minha consciência está sempre tranquila.

No início dessa semana, fiz a prova de proficiência, que é uma das etapas de aprovação para o mestrado (uma etapa meio esquizofrênica, mas estou muito atarefada para falar sobre isso agora). Como era permitido levar um dicionário, eu procurei o meu. Estava no fundo do armário, um belo exemplar editado pela Universidad de Salamanca, espanhol-espanhol, novinho em folha. Tentei me lembrar como é que eu o conseguira. Ah, sim, meu pai emprestou de alguém, para que eu pudesse fazer as lições na universidade, e jamais o devolvera.

P.S.: O título desse post é uma homenagem à Suzane Mesquista, que sempre se lembrava do filme Roubando Vidas, quando eu comentava a forma de aquisição dos meus livros.

A minha casa

Gosto muito da minha casa. Gosto como quem não costuma pensar no tanto que gosta, devido ao hábito e por sempre estar lá. Gosto como se fosse o único lugar em que tivesse estado durante toda a minha vida. Como se nunca dantes na história da minha vida capenga, tivesse existido outra casa.

Eu gosto que tudo nela que seja de sentar seja irremediavelmente fofo e confortável. O sofá e a poltrona, sim, mas as cadeiras que circundam a mesa também. Gosto que não haja excesso de quinquilharias decorativas, muito embora tenha livros, canetas e objetos aleatórios, como uma dançarina de flamenco e um bojudo boneco de neve, por todos os cantos. Gosto que os livros fiquem no chão, na beirada do sofá, sobre o rack, dentro dos armários e a gente nunca se acostume com a presença deles, sempre tenha de tirá-los do caminho para deitar ou para andar.

Gosto que tenha bebidas e garrafas vazias em lugares inapropriados, como o banheiro e a gaveta da sala. E também que haja espaço para o cachorro correr e nos fazer de bobos, mas não tanto espaço para receber mais do que 5 pessoas. Eu não tenho um milhão de amigos e os que tenho não são frequentadores assíduos.

Eu gosto que ela se localize numa rua tranquila, em que quase nunca passam carros ou pessoas. Gosto que as duas janelas – as únicas – fiquem defronte um outro prédio e que as únicas pessoas que me vêem caminhar seminua durante o dia sejam uns poucos vizinhos que, geralmente, não estão em casa, pelo menos é o que me dizem as janelas sempre cerradas.

Gosto das sacadas. Se bem que uma delas eu não visito há tempos, graças a um problema na maçaneta, que vou consertar por esses dias. Quando a outra está aberta, gosto de colocar uma cadeira nela, acender um cigarro e olhar para a rua, cujos transeuntes nunca vêm. Gosto de observar a fumaça passando entre as grades do parapeito da sacada.

Eu gosto tanto, mas tanto da minha casa, que tem dias em que eu preciso sair dela, como quem enjoa da roupa favorita, como quem precisa dar um tempo da sobremesa que come diariamente, como quem evita por uns tempos olhar para o espelho e encontrar os traços que o tempo marcou na própria face.

Um texto para quem lê meus textos

Vez ou outra, tenho de dar algum tipo de explicação sobre algo que eu escrevi neste blog. O que é bem divertido, se você pensar que nada do que escrevo aqui é realmente sério. Ou de fato aconteceu. Ou tem qualquer compromisso com a realidade.

Não que eu não escreva sobre coisas que me aconteceram. Afinal, eu sempre preciso de uma referência para escrever e algumas situações que você vivencia podem ser bons pontos de partida. Mas boa parte do que você encontra aqui é invenção ou, no limite, coisa que de alguma forma eu aumentei. Diálogos que poderiam ter acontecido ou que acho que ainda podem acontecer. Ideias que tive ao presenciar uma situação qualquer, seja ela corriqueira, seja ela completamente fora do esperado, mas que achei um jeito de contar.

Muito do que escrevo é só para guardar de alguma forma algo que vivi ou que imaginei. Esse blog é, sim, aquela caixa de lembranças que você guarda no fundo do armário e nunca se lembra dela, porque o fato de estar ali já faz com que você não se esqueça do conteúdo e isso meio que basta (e quando você a abre não sabe bem porque guardou). Mas, também é aquilo que você imagina que pode acontecer ou que poderia ter acontecido, ainda que não faça nenhum sentido. Ainda não achei o limite entre uma coisa e outra, mas me sinto confortável assim. Então, não é porque eu citei um determinado fato que me aconteceu ou alguma conversa com a qual você se identifica ou se lembra de ter participado, que ela, de fato, significa alguma coisa. Quando escrevi sobre, já se tornou outra coisa.

Para ser bem honesta, só escrevo sobre coisas banais. As coisas que de fato importam não aparecem aqui. Eu não saberia escrever sobre elas.