Silêncio, rotina etc

Há dias em que a tentativa de ler e de escrever, seja a trabalho, seja por prazer, reduz-se a isso: uma tentativa. Não importa se você faz isso todo dia e meio que já criou as próprias saídas para vencer as distrações. Tem dias que só servem pra gente esbarrar nas quinas do texto.

Por costume, tentamos assumir a culpa, mas em geral não há o que fazer. Neste momento, queria viver num mundo em que reformas não fossem necessárias e que o som da esmerilhadeira moendo o asfalto e a paciência fossem só recurso retórico.

Eu já me afeiçoei ao silêncio, o problema é esse. Tanto que o som do cigarro queimando tem sido a única forma possível de alegria. Agora, infelizmente, além do som da cidade sendo quebrada, escuto as conversas que vêm da rua, daqueles que estão colocando a mão na massa, literalmente. Na verdade, discussões. Nem isso. São brigas, reclamações de quem é forçado a conviver com o outro diariamente, de sol a sol. Nada mais irritante do que um colega de trabalho, aquele que é um espelho da sua derrota diária. Como se não bastasse o peso em suportar a rotina.

Outro dia – um menos barulhento do que esse –, o Joaquim – que agora late para aumentar o meu tormento – voltou do seu banho semanal, um dos passeios que ele mais gosta de fazer. Chegou, bebeu água, comeu, deitou no sofá. A respiração descompassada, parecia ofegante. Estava exausto de tanta alegria por fazer as coisas de sempre. As coisas de que ele mais gosta (talvez porque as únicas). O Joaquim dá um charme todo especial para o conceito de rotina.

De passagem

Não gosto de finais. Em parte, porque não acredito em rupturas; dois tecidos que se dilaceram serão sempre parte de alguma coisa que não existe mais. Mas, o que eu acho terrível mesmo é aquele momento que prenuncia o final. Aquele segundo de ruído surdo que antecipa a pancada. Aquele átimo em que quase nos sentimos livres do susto, em que se encaixa uma forma vazia de esperança. Aquela iminência de que se abra uma fresta de dor que, sabemos, se avizinha e sobre a qual não temos controle. Aquele minuto que se antecipa à vertigem que nos coloca diante dos olhos vazados da realidade.

Apostasia

Numa tarde quente de domingo, por volta das 15h, deixou de sentir. Tomou o pulso, observou as batidas do peito, checou o rosto no espelho mais próximo e confirmou o diagnóstico.

Por um instante se surpreendeu com a volatilidade do tempo. Há dois dias, tinha derramado as últimas lágrimas sobre o travesseiro, um choro inexpressivo, sem lamento, prenúncio de fim de luto. No dia anterior, a véspera, achou que jamais se recuperaria do dano. Julgou-o insanável e quase assentiu com uma espécie de alegria aquiescente.

Mas, à tarde, não uma tarde qualquer; uma tarde de domingo, mais ou menos entre 15h, 15h30; percebeu o tórax aberto, como se a respiração lhe saísse facilmente depois de muito tempo. O rosto no seu melhor tom. Nada da vermelhidão costumeira dos momentos de inquietação, nem da palidez que denota a falta de viço dos que sofrem. Notou um sorriso que desconhecia, era novo. Imotivado, saía-lhe de não sei que parte, mas era leve, fácil. Estava livre. Era o último dia.

Não precisa gritar

Tem um não-dito na minha família que já senti na pele algumas vezes: a constatação de que eu, definitivamente, não bato muito bem. Sobretudo para coisas sensoriais. Se eu sentir cheiro de gás, por exemplo, a chance de ninguém acreditar em mim é enorme. O que eu faço? Nada. Eu espero a casa inteira explodir, mas não digo nada.

Antigamente, eu tinha o hábito de tentar convencer as pessoas de que eu estava certa. Posso me recordar, não sem algum constrangimento, das vezes em que disse em alto e bom som que eu NÃO SOU LOUCA. Mas, claro, nunca adiantou e até tornou a minha opinião menos crível. Dizer para as pessoas uma verdade que só você sabe, de forma agressiva, faz você não parecer confiável. Se você diz com veemência que não é louca, o interlocutor começa a achar que, sim, você é meio louca.

Isso me faz lembrar de uma teoria que venho testando sem muita pressa, sem muito método: a de que as pessoas dizem, quase sempre, o inverso das coisas que sentem. Quando alguém diz algo como “não estou nem aí para você” é possível que ela esteja, sim, muito aí para você. Do contrário, não diria nada. A pessoa finge uma indiferença que ela não sente na verdade.

Pode ser que não seja como você espera, claro. Talvez ela de fato não tenha os mesmos sentimentos de antigamente, nem te odeie, mas ao dizer isso ela espera que você sofra, que você se importe com o que ela sente, o que não tem nada a ver com a indiferença. Eu vejo as pessoas dizendo que não estão nem aí umas para as outras e rio. Eu rio e não digo nada, evidentemente.

Uma ova, “Fred”

Tem uma cena ótima em Breakfast at Tiffany’s. Uma mulher, no meio da bagunça que eram as festas da Holly, bebe diante de um espelho e ri, como se conversasse com outra pessoa. Um pouco mais tarde, na mesma festa, a mulher aparece chorando diante do espelho, como se compartilhasse suas mazelas com um interlocutor. Essa cena me lembra muito uma de How I Met Your Mother, em que o Marshall, estando em uma boate, depois de muitos drinks, começa a flertar consigo mesmo diante de um espelho.

Eu acho que isso resume bem o lance com o álcool. Por mais que a gente costume beber em grupo e que a bebida tenha a capacidade de nos deixar mais sociáveis, penso que é uma atividade bastante solitária. Você bebe para se sentir melhor ou para entrar na bad de uma vez. Mas, é você com você mesmo.

Em eventos sociais chatíssimos sempre somos salvos pela bebida. E, eventualmente, pelo cigarro. O cigarro é quase que totalmente antissocial, porque as pessoas que não fumam buscam uma distância segura de suas baforadas e, geralmente, a gente sai para fumar com o pretexto de não importuná-las.

A minha primeira impressão do final de Breafkast at Tiffany’s foi uma certa decepção. De jeito nenhum aquela mulher se casaria com aquele cara, ainda mais depois daquele papinho de que as pessoas se pertencem. Uma ova, “Fred”. Alguém que tem coragem de abandonar o próprio animal de estimação, que por sinal nem tinha nome que era pra evitar apegos, não poderia ser a pessoa que busca salvação por meio do amor romântico. Não a Holly.

Mas, depois, pensei por outro lado. A chance dela ter optado por uma saída segura, em vista da falta de perspectivas na qual se encontrava, é enorme. E a gente tem que considerar que ela toma a decisão de ficar com o “Fred” depois que ele entrega o anel gravado na Tiffany. A loja era o que lhe remetia a uma espécie de lar. Pelo menos é o que ela diz no início. Segurança, né. (Alguém precisa contar a ela sobre o quanto a profissão de escritor é imprevisível.).

No fim, o “Fred” era não só a única alternativa da Holly, mas também um cara legal com quem ela gostava de sair e encher a cara. Não dá nem para julgá-la, porque acho que a gente sempre acaba se casando com o cara legal, que tope dividir as contas e que só te leve para casa quando você estiver bem bêbada.

Se a Robin de HIMYM estivesse na mesma situação que a Holly, provavelmente teria se casado com o Ted na primeira oportunidade. Mas, a Robin era uma mulher independente, a Holly dependia dos caras que pagavam 50 conto para que ela fosse ao toalete. Ou seja, nos dois casos, os casamentos me parecem fadados ao fracasso. Por isso, acho a Robin bastante inteligente. Ela claramente gostava do Ted, mas não se via casada com ele, com filhos e tal. Portanto, achou melhor deixar para lá. Já a Holly, quando se der conta de que suas expectativas sobre a própria vida mudaram – porque isso sempre acontecia com ela, convenhamos – e que o “Fred” também era o cara que dependia das mulheres com quem saía, tem toda a chance de pular fora no próximo táxi em direção à Tiffany. Ou irá escolher o álcool como salvação.

A trajetória

Quando estava passando pelo processo seletivo para o Mestrado, perguntei ao Fernando como é que seria a entrevista. Entre outras informações, ele mencionou que poderiam perguntar sobre a minha trajetória. Fodeu, pensei. Achei que não seria de bom tom explicar que sempre gostei de literatura, mas nunca tive lá muito foco e no início pensei que estudaria poesia, depois fiz estágio sobre mitologia e astronomia, mas aí eu saí da universidade e trabalhei com coisas diversas e não muito relacionadas com o que havia estudado, comecei e parei publicidade, depois achei que deveria estudar moda e o fiz e agora poderia estar matando, roubando e me prostituindo, mas estou aqui pensando em estudar um autor que conheci aleatoriamente, quando escrevia um artigo para uma revista de moda.

“Ninguém pode avaliar a trajetória das pessoas”, disse o Fernando. E fez uma expressão de quem percebe muito rapidamente o equívoco nas próprias palavras. Porque se tem uma coisa que as pessoas fazem é avaliar a trajetória umas das outras e estabelecer paralelos com quem você é hoje e com o que faz. Engraçado é que na área de literatura pega muito mal se você fizer uma análise de uma obra considerando aspectos da biografia do autor. É evidente que as pessoas escrevem sobre coisas que viveram ou que puderam observar, mas os limites entre o que é real e o que é invenção não são assim tão definíveis. Além do mais, o que a pessoa viveu pouco importa diante dos efeitos e sentidos que o texto nos permite ler. Então, se você justificar a leitura do texto com algum dado sobre a vida do autor, vão torcer o nariz imediatamente.

Muito antes de eu escrever esse texto aqui, estava eu na fila para ver uma peça de teatro e não pude deixar de ouvir uma conversa de pessoas que, aparentemente, pertenciam à classe teatral da minha cidade. A peça era um monólogo com textos do Caio Fernando Abreu. Um dos caras atrás de mim perguntou: “quem é mesmo o Caio Fernando Abreu?”. O outro começou: “ah, ele era homossexual…”.

O Caio Fernando Abreu escreveu romances, contos, peças de teatro, ganhou Jabutis (embora eu nem me importe com esses prêmios, mas ele ganhou e ganhou mais de um) e a primeira coisa que as pessoas lembram sobre ele é que era homossexual. Nessas horas, vejo até uma certa beleza no fato de eu nunca ter sido boa em absolutamente nada. Nunca vou ter minha obra ofuscada por nenhum traço de minha nada emocionante biografia. Ninguém nunca vai dizer que Bruna Venancio deixou o ballet, quando conseguiu finalmente chegar ao segundo ano, porque tinha disciplinas do mestrado para fazer. Jamais veremos aquelas manchetes terríveis, como “O ballet perde fulano(a)”. Ninguém se lembrará daquele fatídico ano em que meus pais me tiraram às pressas de uma escola particular e me devolveram para a pública porque tive dificuldades com algumas matérias. Aliás, se eu abandonar o mestrado agora, as pessoas julgarão coerente com a falta de foco com que sempre levei a vida.

Fico até com alguma pena do Caio Fernando Abreu e de tantos outros autores, cuja memória não consegue descansar em paz, graças à sua trajetória. Tão talentosos e tão dedicados aos ofícios que escolheram. Nunca saberão o que é alguém ler um texto seu sem achar que você escreveu aquilo porque é homossexual, feminista, simpatizante das baleias do Ártico ou porque nunca encontrou nada mais interessante para fazer da vida.

Roubando vidas

Quando me lembro de todos os grupos de amigos de que fiz parte na vida, desde os primórdios de minha existência como aluna, eu penso que era a menina da turma que escrevia. Mais escrevia do que lia, é verdade, apesar de que sempre me interessei pela leitura e não foi algo natural. Meu pai era professor, formado em Letras e cultivava uma pequena biblioteca em casa, local este em que também se localizavam meus brinquedos e discos de vinil do Elvis, que, por sua vez, foi o meu primeiro amor.

Mas, o lance é que eu escrevia. E quando me disseram que para escrever bem eu tinha que ler, comecei a me dedicar mais a essa atividade e, com ela, desenvolvi uma certa obsessão por livros. Por tê-los em casa. Em todos os cantos. Por alcançá-los sem precisar levantar, ir até outro cômodo e procurá-los.

Foi assim que eu descobri a biblioteca da minha avó. Ela sempre estivera ali na sala como um indicativo de que naquela casa moravam pessoas cultas e estudadas. Minha avó nunca abriu aqueles livros, penso eu, principalmente porque muitos deles eram de medicina – os outros filhos se formaram em odontologia e em psicologia, nada muito relevante para se ostentar; ao menos, não tanto quanto medicina.

Como encontrara um Oswald de Andrade aqui, um Euclides da Cunha acolá, comecei a pedir que me emprestasse os livros. Tinha toda a intenção de devolvê-los, mas sabe como é. Ela veio a falecer muito antes disso. Como eu sou a única da família que tem algum interesse neles, penso que são a minha herança, que já são meus por direito. Uma espécie de usucapião livreiro.

Aliás, eu vivo pegando livros emprestados. De absolutamente todo mundo. E sempre leio vários ao mesmo tempo, o que revela uma certa compulsão ou, no limite, uma falta de foco fodida. Eu juro que sempre penso em devolver os livros para as pessoas, mas nunca sei exatamente quando. Alguns eu termino de ler e deixo aqui para ler mais uma vez. Sempre parto do princípio de que o dono do livro virá me cobrar, caso precise dele. Assim, a minha consciência está sempre tranquila.

No início dessa semana, fiz a prova de proficiência, que é uma das etapas de aprovação para o mestrado (uma etapa meio esquizofrênica, mas estou muito atarefada para falar sobre isso agora). Como era permitido levar um dicionário, eu procurei o meu. Estava no fundo do armário, um belo exemplar editado pela Universidad de Salamanca, espanhol-espanhol, novinho em folha. Tentei me lembrar como é que eu o conseguira. Ah, sim, meu pai emprestou de alguém, para que eu pudesse fazer as lições na universidade, e jamais o devolvera.

P.S.: O título desse post é uma homenagem à Suzane Mesquista, que sempre se lembrava do filme Roubando Vidas, quando eu comentava a forma de aquisição dos meus livros.