Miopia

Há quem diga que o autoretrato feito por Dalí em seu quadro “Cisnes refletindo elefantes”, no qual ele dá as costas justamente para os cisnes – que podem ser os elementos mais importantes da tela -, se trata de uma expressão de sua insatisfação contra os caminhos tomados pelo surrealismo na época. Mesmo parecendo “disque-me-disque”, tomei a liberdade de não consultar a fonte, mas, ainda assim, oferecer essa informação logo de início e, em seguida, dar, eu mesma, as costas a ela.

A tela de Dalí, já pelo nome – “Cisne refletindo elefantes” – incita a busca por enxergar o óbvio: os cisnes, refletidos na água, formam a imagem de elefantes. E por falar em obviedades, o quadro remete ao mito de Narciso, que também foi reproduzido pelo artista. No entanto, o mito de Narciso e o quadro dos cisnes se diferenciam pelo resultado da imagem refletida na água (e não, necessariamente, pelas consequências da imagem refletida para os personagens, sobretudo para o pobre do Narciso): enquanto, de certa forma, o primeiro vê o próprio rosto, tal como é, refletido na água, o segundo encontra outra forma que, a princípio, em nada lhe parece.

Mas, concentrando-nos em “Cisnes refletindo elefantes”, perceba que, mesmo vendo a imagem dos elefantes na água, os cisnes ainda estão ali. As imagens dos dois animais estão misturadas, o observador vê tanto os elefantes, quanto os cisnes. Não é qualquer reflexo. É uma versão da imagem dos cisnes.

A separação entre o espaço dos cisnes e o reflexo na água pode soar como se, de fato, os dois mundos instigassem dois olhares diferentes e, por isso mesmo, apresentem imagens distintas. Porém, por mais que exista uma clara separação entre esses dois “mundos”, não há como negar que a forma elefante está presente na forma cisne, ainda que os dois, quando observados em outros contextos, demonstrem diferenças substanciais entre si. Se olharmos com os olhos de Dalí, podemos ver que não há nada que o cisne não tenha que o elefante deixe a desejar, no que diz respeito às suas formas. Elas se misturam e se completam harmonicamente.

A palavra refletir, muito mais do que a ação de revelar promovida pelo espelho da água, também oferece o sentido que envolve a meditação, o pensamento cuidadoso. E é possível perceber que o cisne descobriu seu outro rosto elefante por meio da ação de refletir. Esse olhar sobre si mesmo é responsável pela descoberta da forma que já se encontra lá. Então, não é qualquer olhar, não se trata de um rápido espiar, mas sim de um olhar precoce, como o de Murilo Mendes, que em “O olho precoce” conta como conquistou a habilidade de enxergar os dois mundos, “o visível e o invisível”, em suas palavras, por meio da observação contínua de fotografias. De maneira parecida, o ato de aprender a olhar o próprio reflexo seria uma forma de enxergar o próprio rosto. Digo aprender, porque esse olhar não se faz com o mesmo olho automatizado e encarcerado na rotina que nos é usual. Há um processo de transformação do olhar, que se assenta na reflexão (nesse caso, nos dois sentidos) e que, consequentemente, promove possíveis mudanças ou reajustes na imagem que se vê.

“Não há paisagem senão o que somos”, disse o Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa). E num mergulho para dentro de si mesmo, os cisnes encontraram uma outra imagem que, apesar de ser quase um oposto (cisne X elefante passa a ser cisne = elefante + cisne), se iguala ao que aparentam ser em termos de formas. No texto do Bernardo Soares que citei, “A renúncia é a libertação. Não querer é poder.”, o autor enfatiza a necessidade de nos atentarmos para o particular, pois não há nada do lado de fora que seja possível perceber se já não estiver do lado de dentro. O que confirma o fato de que o elefante já existe dentro do cisne e não se trata de uma relação que se encerra na aparência ou numa possível confusão com as formas. Ele não conseguiria reconhecer o que não estivesse lá – pressupondo, claro, que o cisne é que esteja vendo a imagem do elefante, pois se não estiver, caro amigo observador, o elefante está é dentro de você.

(Em tempos de um constante olhar atento à própria imagem, temos dado de ombros – quando não, as costas, num plágio mal feito de Dalí – ao rosto que está no mais profundo da alma.)

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Campo de trigo com ciprestes

Eu sempre tive pressa. Quando criança, passei do colo da minha mãe para o chão, sem passar pelo engatinhar. Acho que eu sempre quis alcançar coisas maiores e mais desafiadoras – e curiosamente tenho tão pouco de altura.

Depois de pintar minha primeira tela, uma paisagem noturna em tinta à óleo, busquei algo que realmente tivesse algum sentido para mim e escolhi “Campo de trigo com ciprestes”, que foi pintado por Van Gogh no período em que ele passou em Saint-Rémy, recuperando-se de uma crise de nervos – ou da boa e velha loucura. Foi logo depois de ele arrancar uma das orelhas.

Desde que decidi por esse quadro, tenho lidado com os meus próprios julgamentos sobre uma possível manifestação de presunção de minha parte. Eu já aceitei que não sou nenhum Van Gogh. Meu professor disse o mesmo. Mas, eu não queria pintar qualquer coisa. Eu queria entender esse turbilhão que Van Gogh registrou na tela, que acomete os campos e o céu. Eu posso criar a minha própria versão de Van Gogh. Eu posso me afundar no meu intento – e me perder por esses campos e por essas nuvens, como já está acontecendo com as primeiras pinceladas. Não importa. Van Gogh vale o risco (e a tinta).

Li por aí que, entre os significados de cipreste, temos luto e longevidade. Talvez Van Gogh quisesse registrar a consciência de sua mortalidade mas, com a tela, estivesse tentando alcançar a imortalidade. Eu quero, sim, como sempre quis, alcançar muitas coisas, mas a minha presunção, ainda bem, não é páreo para a de Van Gogh. A consciência de nossos próprios limites é mais importante até do que a consciência da mortalidade. E nessa arte – a de conhecer os meus limites – eu já sou bastante avançada.

Viver com arte

Não tem nada mais bobo e, ao mesmo tempo, mais legal do que fazer aniversário. Bobo porque, mesmo que não admita, basta começar o mês do seu aniversário que você já está esperando ele chegar. Também é preciso admitir que dar/receber parabéns é uma coisa bem desconfortável. Por outro lado, é o tempo perfeito para repensar a vida e como você tem aproveitado cada dia. É melhor do que ano novo, porque é (em tese) só seu.

Não saberia o que escrever neste dia. Por sorte, escrevi há um tempo atrás um texto para concorrer a uma vaga. Era um texto livre. Não é do tipo que se escreve para um possível empregador, mas vale o registro. Ela é a prova cabal de que eu sempre quis – e continuo querendo – viver com arte.

Não sei bem o motivo, mas quando me pedem para escrever sobre algo de que gosto me vem arte na cabeça. Como se já não fosse cruel o suficiente ter de escrever sobre qualquer coisa – qualquer coisa num mundo lotado de assuntos –, fica a escolha baseada em estranhos fatos da minha vida, os quais basicamente me tornam quem sou.

Talvez a ideia aqui seja falar sobre algum assunto de forma mais formal, para que um revisor mais atento se sinta à vontade para criticar aspectos normativos da Língua Portuguesa nesse texto. Se for esse o caso, já me dei mal desde o começo. Mas como não me foi especificado se o texto deveria ser uma dissertação, uma narrativa, um poema ou até uma crônica, sinto-me mais à vontade para não ser tão purista.

Pois bem, Arte. A minha relação com essa palavra aí começou ainda muito cedo. Na infância, para ser mais precisa. Já contei essa estória a muitos amigos. Eu brincava na biblioteca do meu pai, quando criança, ao lado de muitos livros – inclusive de artes –, de uma vitrola com discos do Elvis e de algumas reproduções de obras importantes. Conheço a Mona Lisa desde aquela época e ela sorria para mim todo santo dia, como se me observasse. Eu costumo dizer que aquela foi a melhor época da minha vida. Não que não tenha tido outras épocas de que gostei muito, mas a infância guarda um sabor de nostalgia que a gente sempre vai sentir. 

Desde então, passei a querer aprender a tocar instrumentos, a cantar. Ou ser atriz (afinal, o Elvis era casado com uma atriz, tinha de haver alguma coisa especial nessa profissão). E durante a minha pequena jornada, busquei realizar esses desejos todos e, apesar de não ser nenhum prodígio, sempre enganei bem. A verdade é que poder trabalhar com arte é uma das coisas que sempre quis fazer pela minha vida. Mas ela, a Vida, não torna as coisas tão simples como a gente gostaria. Fui fazer Letras, porque pretendia ficar mais perto das Artes. Fui feliz no meu intento e acho que trabalhar com texto é meio como ser artista. E, obviamente, não é fácil, como nada é.

Esse texto, por exemplo, nem tem um foco apenas e já me deu um trabalhão. O maior deles foi manter a concentração num dia longo de trabalho em que levei parte desse trabalho para fazer em casa. O que me faz admitir que escrever é uma questão técnica. Não só de inspiração vive o homem, mas existe um trabalho apurado a se fazer, apesar do cansaço que você possa estar sentindo. O resultado é algo muito parecido com arte, embora nem todos o enxerguem assim.

Obviamente, não estou querendo convencer ninguém de que esse texto é um objeto artístico. Apesar de que definir o que é arte e o que não é não é tão simples. O fato é que me sinto bem quando escrevo, ainda que não seja fácil. E se puder trabalhar com algo que me proporcione escrever muito, vou achar que a minha vida tem assim um pouquinho de Arte.