Betty Davis, Nasty Gal

Quando ouvi Betty Davis pela primeira vez, corri para a internet para procurar o que diziam suas letras, já que meu inglês mal falado me impedia de compreendê-las. Não encontrei quase nada. Apesar da barreira linguística, o conteúdo de suas músicas, o que elas significam quando você sente o groove, ouve as guitarras pesadas e o arranhado da voz é muito claro.

Betty Davis lançou poucos álbuns: o “Betty Davis” (meu preferido), o “They say I’m different”, “Is it love or desire” e o “Nasty Gal”. Para escrever esse texto, voltei a eles e encontrei o “The Columbia Years” – arranjado pelo trompetista Hugh Masekela, com participação de Herbie Hancock, John McLaughlin, Mitch Mitchell e Billy Cox -, no qual há, entre outras músicas, “Politician Man”, “Born on the Bayou” e a voz de Miles Davis dando sugestões a ela sobre as gravações. A qualidade dos álbuns não se deve só às parcerias definitivas, como se pode ver pelo “Columbia”, mas à própria Betty, que criava a maior parte de suas músicas e se não as produzia, escolhia a dedo quem o faria.

Qualquer uma de suas músicas indicam que ela era uma artista que não se coloca na prateleira do funk, do soul, do blues ou do rock. Talvez por isso Betty Davis não tenha conseguido o espaço merecido na época em que lançou os discos, além do fato de que se tratava de uma mulher negra falando abertamente sobre sexo no início dos anos 70 nos EUA. Vá ouvir “Nasty Gal”, “Talkin’ Trash”, “Walkin up the road” e entenda.

Se é exagero dizer que ela deu sua contribuição ao fusion, não é exagero dizer que sem Betty Davis não teríamos o “Bitches Brew” do Miles, disco em que o trompetista se rendeu à mistura do rock com o jazz, graças à influência da cantora (que foi sua esposa). Como cantora, não acho que ela era inventiva como uma Ella ou técnica como uma Aretha – o que não significa que ela não estudava. O que se destaca nela, para mim, é sua voz rasgada, agressiva, é a força que vem da sua personalidade vibrante e até um pouco irredutível. 

Betty desistiu (infelizmente!) da carreira de cantora por negar-se a se curvar ao que a indústria exigia dela (aparentemente, as gravadoras queriam que deixasse de explorar sua sexualidade nas músicas, já que houve até boicote às suas apresentações). Queria ser livre para criar à sua maneira. Recusou ser produzida por Eric Clapton (por considerá-lo muito careta) e disse outros sonoros “nãos” até refugiar-se na Philadelphia e viver uma vida reclusa, como, aliás, vive até hoje.

Ouça Betty Davis no Spotify: https://open.spotify.com/artist/5Ryxgm3uLvQOsw4H5ZpHDn

P.S.1: em agosto do ano passado, saiu o documentário “Betty – They say I’m different”, do diretor Phil Cox, que tinha um pouco esse objetivo de tornar conhecida uma cantora tão importante como ela. Tô louca pra ver!

P.S.2: esse texto faz parte de uma série de texto que pretendo fazer na minha página do Facebook a cada 15 dias, se eu conseguir, pois frequência é complicado.

Referências:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/08/betty-davis-tem-trajetoria-revista-em-documentario-que-esta-a-caminho-do-brasil.shtml

https://oglobo.globo.com/cultura/estreia-no-brasil-documentario-que-desvenda-misterios-de-betty-davis-pioneira-do-funk-americano-23252674

https://revistatrip.uol.com.br/tpm/betty-davis-a-cantora-que-marcou-o-funk-e-antecipou-lutas-importantes-do-feminismo

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