À margem

Vi o Inside Llewyn Davis, filme dirigido pelos irmãos Coen, umas três vezes (a última essa semana) e sempre fico surpresa com a atmosfera do filme e com o tempo. Uma lentidão em que acontecem poucos fatos relevantes e, ao mesmo tempo, a impressão de que muita coisa acontece em poucos dias. Coisa de personagem que não tem uma rotina determinada pelo horário comercial.

Llewyn, um músico de folk, desfaz muito do estereótipo que se construiu sobre a personalidade de um músico. Não é dos mais simpáticos ou carismáticos. Não parece querer agradar os outros e não consegue se conectar com as pessoas (ao contrário de Troy Nelson). Embora tenha sensibilidade musical, enxerga a música como um trabalho e não exatamente como uma forma de expressar bons sentimentos – algo que, de certa maneira, explica suas escolhas de repertório e de estilo. Essa rigidez ele provavelmente adquiriu do fato de que vive da música, ou melhor, precisa sobreviver por meio dela.

Uma sobrevivência que se localiza sempre à margem de tudo e de todos. Llewyn não tem casa, sequer tem um casaco decente para enfrentar o inverno. Não fossem os amigos que lhe oferecem o sofá – alguns muito à revelia –, ele não teria onde dormir. Mas até essas amizades, algumas delas, mostram como construímos a maior parte das relações pela via da conveniência. Se Llewyn só espera deles o sofá e um teto temporário, os amigos fazem dele uma espécie de personagem excêntrico – “o músico”, “o artista” –, pedindo-lhe que cante para agradar as visitas e para a manutenção de uma certa imagem que tentam emplacar: a de mecenas, a de que valorizam a arte.

Os amigos e conhecidos com formação acadêmica, por exemplo, apesar da boa intenção e disponibilidade em receber Llewyn sem nem um telefonema que o anteceda, parecem ser os mais deslumbrados no que diz respeito à carreira musical. São, inclusive, injustos quando fazem afirmações que indicam que basta somente um hit para que o artista tenha sucesso. Desconhecem a vida diária de um músico como Llewyn – que não tem onde dormir – e parecem ter aquela falsa ideia de que a música permite uma vida glamourosa e dinheiro fácil.

E Llewyn é exatamente o oposto disso. É tão marginal, tão avesso à vida regular com que nos habituamos, que sequer entende a lógica dos impostos e da contribuição sindical. Quando decide ir para a Marinha Mercante (decisão esta motivada pela falta de perspectivas em terra), descobre que precisa pagar meses atrasados ao sindicato. Preocupado com a possibilidade de ficar sem dinheiro, pede que esses meses atrasados sejam descontados de seu primeiro pagamento, o que não é possível. Llewyn parece não entender que deve e que isso não tem a ver com o salário que irá receber. Isso fica evidente quando ele desiste da viagem e pede que lhe devolvam o dinheiro com que pagou a dívida, o que, obviamente, também não é possível.

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O personagem parece ter uma lógica própria e tenta dividir o mundo com quem já aceitou a ideia de que é preciso planejar o futuro, construir uma carreira, usar o trabalho como um meio para se ter coisas materiais. Mesmo ciente de que é preciso sobreviver de seu trabalho, o que, em geral, significa fazer concessões, ele abomina a ideia de usar a música como meio para conquistar coisas.

É evidente que não há redenção para alguém assim, pois é um personagem que vive num mundo todo feito contra ele, mas, ao contrário de Macabéa, ele tem toda consciência disso. Acompanhamos toda a sua trajetória em busca de um contrato com um produtor e de continuar fazendo o que, talvez, seja a única coisa que faz sentido para ele. Tudo é vão. Ele é um Ulisses que não tem lugar para voltar. E, no fim, quando parece que ainda há uma chance dele se destacar e ter algum sucesso como músico, há a sugestão de que será ofuscado pelo Bob Dylan, o que de fato aconteceu com Dave Van Ronk, músico que inspirou a construção do personagem Llewyn Davis.

 

 

Uma ova, “Fred”

Tem uma cena ótima em Breakfast at Tiffany’s. Uma mulher, no meio da bagunça que eram as festas da Holly, bebe diante de um espelho e ri, como se conversasse com outra pessoa. Um pouco mais tarde, na mesma festa, a mulher aparece chorando diante do espelho, como se compartilhasse suas mazelas com um interlocutor. Essa cena me lembra muito uma de How I Met Your Mother, em que o Marshall, estando em uma boate, depois de muitos drinks, começa a flertar consigo mesmo diante de um espelho.

Eu acho que isso resume bem o lance com o álcool. Por mais que a gente costume beber em grupo e que a bebida tenha a capacidade de nos deixar mais sociáveis, penso que é uma atividade bastante solitária. Você bebe para se sentir melhor ou para entrar na bad de uma vez. Mas, é você com você mesmo.

Em eventos sociais chatíssimos sempre somos salvos pela bebida. E, eventualmente, pelo cigarro. O cigarro é quase que totalmente antissocial, porque as pessoas que não fumam buscam uma distância segura de suas baforadas e, geralmente, a gente sai para fumar com o pretexto de não importuná-las.

A minha primeira impressão do final de Breafkast at Tiffany’s foi uma certa decepção. De jeito nenhum aquela mulher se casaria com aquele cara, ainda mais depois daquele papinho de que as pessoas se pertencem. Uma ova, “Fred”. Alguém que tem coragem de abandonar o próprio animal de estimação, que por sinal nem tinha nome que era pra evitar apegos, não poderia ser a pessoa que busca salvação por meio do amor romântico. Não a Holly.

Mas, depois, pensei por outro lado. A chance dela ter optado por uma saída segura, em vista da falta de perspectivas na qual se encontrava, é enorme. E a gente tem que considerar que ela toma a decisão de ficar com o “Fred” depois que ele entrega o anel gravado na Tiffany. A loja era o que lhe remetia a uma espécie de lar. Pelo menos é o que ela diz no início. Segurança, né. (Alguém precisa contar a ela sobre o quanto a profissão de escritor é imprevisível.).

No fim, o “Fred” era não só a única alternativa da Holly, mas também um cara legal com quem ela gostava de sair e encher a cara. Não dá nem para julgá-la, porque acho que a gente sempre acaba se casando com o cara legal, que tope dividir as contas e que só te leve para casa quando você estiver bem bêbada.

Se a Robin de HIMYM estivesse na mesma situação que a Holly, provavelmente teria se casado com o Ted na primeira oportunidade. Mas, a Robin era uma mulher independente, a Holly dependia dos caras que pagavam 50 conto para que ela fosse ao toalete. Ou seja, nos dois casos, os casamentos me parecem fadados ao fracasso. Por isso, acho a Robin bastante inteligente. Ela claramente gostava do Ted, mas não se via casada com ele, com filhos e tal. Portanto, achou melhor deixar para lá. Já a Holly, quando se der conta de que suas expectativas sobre a própria vida mudaram – porque isso sempre acontecia com ela, convenhamos – e que o “Fred” também era o cara que dependia das mulheres com quem saía, tem toda a chance de pular fora no próximo táxi em direção à Tiffany. Ou irá escolher o álcool como salvação.