Contemplação

A impressão que dá é de que a nossa mente se abre num dado momento, quando estamos aprendendo uma língua estrangeira. Tem que esperar esse momento. É assim com as aulas de francês: nas primeiras semanas, você precisa fazer um pequeno esforço para adentrar o universo da língua e por ela se deixar aprisionar. É tipo um momento de entrega.

Os livros de que mais gostei de ler também foram assim. Teve vezes que precisei começar a ler tudo de novo para me assegurar de que estava no mesmo compasso que o autor. O livro não me conquista, se ele não se apresenta com essa espécie de barreira a qual é preciso transpor. E não tem nada a ver com linguagem hermética ou com conceitos abstratos. Tem a ver com o ritmo.

Algumas pessoas também são assim. A forma com que se apresentam para o mundo – as roupas, o jeito com que lidam com as pessoas, os elementos que nos remetem a elas – faz a gente se perguntar o tempo todo se realmente conseguiu ler quem elas são, se demos conta de apreender o universo delas. Você passa horas tentando entender o olhar, decifrar as palavras. E daí percebe que por mais que você tente adentrar o universo dessas pessoas, antes vai ser preciso conviver com elas, esperar que se desprendam e que se deixem ser contempladas. Com o tempo, você identifica o ritmo e escolhe se se deixa aprisionar ou não por ele.

Mas, tem que esperar o momento chegar.

P.S.1: Escrevi o texto depois de ler “Procura da poesia”, do Drummond.

P.S.2: Nem sempre o “se deixar aprisionar” pode ser uma escolha. Mas, eu prefiro pensar que seja, sim.

P.S.3: Pode ser que o momento nunca chegue.

Anúncios

Desenhando pausas

As coisas que de fato importam são feitas de pausas. O Drummond achou que a vida necessita delas. Eu, com todo o respeito que tenho a ele, acho mesmo é que as pausas já estão ali. A gente é que não lhes dá o devido valor.

Em tempos de WhatsApp, os grupos acabam sendo uma maneira de não se deixar engolir pelas pausas e pelo silêncio. A ideia é estar em contato, independentemente da necessidade ou da relevância da conversa. Os amigos estão sempre ali. A família e os colegas de trabalho, também. Na época em que trabalhava em empresa, o meu WhatsApp até parecia refúgio para alguns clientes que, olha, não sabiam aproveitar uma das melhores pausas: o fim de semana.

Ultimamente, eu tenho experimentado a ideia do vazio e muito tenho aprendido com ela. Com a dança contemporânea, estou tendo que aprender a lidar com espaços que preciso encontrar no corpo para a realização de alguns movimentos. Se rolar no chão é simples, tente fazer isso sem tirar as mãos e os pés do chão. Sincronizar esses movimentos requer que você conheça alguns espaços de fuga do corpo, os quais geralmente ignora, porque nunca se aproveitou deles como deveria. Nas aulas de desenho, o professor insiste para que eu desenhe os espaços vazios, que eu aprenda a enxergá-los na composição. O lance é olhar para o objeto, observar as formas que surgem dos espaços vazios e desenhá-las, pois também existem formas naquilo que não está lá. Na música, as pausas são indiscutivelmente essenciais e vêm na forma de silêncio. Não existe o som, se não existir o silêncio, e ao aprender a ouvir a canção como um todo, você aprende a ouvir o silêncio, passa a reconhecê-lo e identificar os movimentos que o som é capaz de criar.

As pausas também podem ser dolorosas, mas acho que a vantagem de se acostumar com elas é que você sempre as espera, de uma forma ou de outra. O Adorno diz que a descontinuidade pode ser insuportável para quem não consegue enxergar o todo – e as pausas fazem parte dele. O que significa que também é importante perceber quando sua vida está num momento desses de pausa. As pessoas falam sempre sobre buscar a felicidade, como se isso fosse um movimento para fora. Sair e ver o mundo, o que parece naturalmente bom, mas também perdem por não observar as pausas.

Encontrei, recentemente, uma citação do Kafka que, de certa maneira, tem a ver com o assunto:

Não é necessário sair de casa.

Permaneça em sua mesa e ouça.

Não apenas ouça, mas espere.

Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.

Então o mundo se apresentará desmascarado.

Em êxtase, se desdobrará sobre os seus pés.