Um texto para quem lê meus textos

Vez ou outra, tenho de dar algum tipo de explicação sobre algo que eu escrevi neste blog. O que é bem divertido, se você pensar que nada do que escrevo aqui é realmente sério. Ou de fato aconteceu. Ou tem qualquer compromisso com a realidade.

Não que eu não escreva sobre coisas que me aconteceram. Afinal, eu sempre preciso de uma referência para escrever e algumas situações que você vivencia podem ser bons pontos de partida. Mas boa parte do que você encontra aqui é invenção ou, no limite, coisa que de alguma forma eu aumentei. Diálogos que poderiam ter acontecido ou que acho que ainda podem acontecer. Ideias que tive ao presenciar uma situação qualquer, seja ela corriqueira, seja ela completamente fora do esperado, mas que achei um jeito de contar.

Muito do que escrevo é só para guardar de alguma forma algo que vivi ou que imaginei. Esse blog é, sim, aquela caixa de lembranças que você guarda no fundo do armário e nunca se lembra dela, porque o fato de estar ali já faz com que você não se esqueça do conteúdo e isso meio que basta (e quando você a abre não sabe bem porque guardou). Mas, também é aquilo que você imagina que pode acontecer ou que poderia ter acontecido, ainda que não faça nenhum sentido. Ainda não achei o limite entre uma coisa e outra, mas me sinto confortável assim. Então, não é porque eu citei um determinado fato que me aconteceu ou alguma conversa com a qual você se identifica ou se lembra de ter participado, que ela, de fato, significa alguma coisa. Quando escrevi sobre, já se tornou outra coisa.

Para ser bem honesta, só escrevo sobre coisas banais. As coisas que de fato importam não aparecem aqui. Eu não saberia escrever sobre elas.

Escrever, observar, lamentar (um parênteses gigante neste blog)

Hoje o dia está péssimo e eu nem sei explicar o porquê. Minhas dores nas costas sumiram. Eu não tive sono durante o dia – o que é habitual. O tempo não estava nem muito quente, nem muito frio. Eu lembrei de fazer arroz para o almoço de amanhã (eu sempre tenho fome, mas nunca lembro de fazer comida). O Joaquim está se alimentando do que resta do meu tapete de crochê e, embora me doa muito ver o estrago que está fazendo, fico feliz por ele estar calmo.

Nesses momentos de vazio existencial absoluto, eu me questiono sobre a vida e sobre como eu a tenho levado. Estou aqui assistindo um filme que acho péssimo, mas que sempre me faz pensar – Comer, Rezar, Amar -, e me perguntando como seria legal se eu simplesmente fosse viajar. Sem um plano milimetricamente definido. Só viajar. Pra ajudar, hoje me toquei de que faz quatro anos que não vou à praia. Acho que a falta de um contato maior com a natureza me deixa infeliz…

Não posso me queixar da vida. Estou fazendo uma pós que amo, trabalhando na área que sempre quis, fazendo curso de desenho, como sempre sonhei, e ainda voltei a cantar. E, apesar de meu impulso consumista estar dando as caras por aqui, tenho conseguido viver da maneira que acredito ser correta. Há muito a consertar, claro, mas nem em sonho pretendo buscar a perfeição.

Um dia desses, um amigo me contou a história da Doris Guisse, uma mulher que caiu do oitavo andar, segurando um gato, em cima de telhas de amianto. Daí, ele disse: “tipo de coisa que você faria ficar engraçado”. Eu contestei: “Eu não sou mais engraçada. Sou uma pessoa deprimida”. E antes que ele viesse tentar me ajudar, disse que era brincadeira.

Eu não sei se era brincadeira.