Essa coisa demodê que chamamos de “direitos”

Ser freela, tornar-se freela é fazer parte de uma pequena comunidade de pessoas desconhecidas, que não se falam ou se falam pouco, mas que tentam manter contato via grupos de Facebook ou de WhatsApp. Poderia ser o inferno, mas, ao menos, existe o recurso de silenciar notificações. Fico agradecida por isso.

De todos os assuntos mais discutidos nesses grupos há um que é bastante recorrente, mas, confesso, nunca tenho o ânimo de participar ativamente da discussão dele. Admito que sou uma pessoa de raciocínio lento; preciso sempre de um tempo maior para entrar em discussões; talvez por isso esteja sempre fugindo delas.

O assunto é a autonomia do freela. Na realidade, o assunto é “por que nós, freelas, continuamos comprometendo a maior parte de nossa renda com apenas um cliente?”. É assim: em geral, todos os freelas têm um cliente que paga por uns 80% dos vencimentos, enquanto outros clientes pagam por porcentagens bem menores. Na prática, estamos “na mão” de apenas um cliente que, se se decidir por cancelar os trabalhos, vai prejudicar os nossos ganhos de forma bastante preocupante.

O que está por trás dessa dúvida é a falsa ideia de que temos algum tipo de autonomia para escolher os clientes com quem queremos trabalhar, o que, na realidade, não acontece. Sim, eu já me recusei a trabalhar com algumas pessoas por diferentes razões: falta de conhecimento técnico para fazer o trabalho, falta de tempo para cumprir com os prazos exigidos pelo cliente, identificar que o valor a ser pago seria irrisório, nesse caso, no sentido de praticamente pagar para trabalhar mesmo.

Porém, o que nós, freelas, fazemos com muito mais frequência é topar todas. Nunca sabemos exatamente por quanto tempo o trabalho vai se estender. Nunca sabemos se no mês seguinte vamos receber o mesmo valor do mês anterior, portanto, qualquer trabalho que dê algum dinheiro a mais é válido. A coisa mais difícil para o freela é dispensar trabalho. O que significa que quando alguém oferece um valor alto – não se engane, nesses casos, a quantidade de trabalho também é alta – para que façamos um trabalho, não há a mais remota chance de recusarmos.

Essa ideia de que somos autônomos e temos liberdade para escolher como, quando e com quem trabalhar é falsa e, se continuarmos acreditando nela, penso que faremos muito pouco por nós, enquanto classe de trabalhadores “autônomos”. Precisamos aceitar que a instabilidade é um problema, que é impossível ter controle sobre o que ganhamos. Precisamos aceitar que estamos “na mão” de nossos clientes. A ideia de que há uma relação de parceria, de ganha-ganha, é ilusória e, temos de aceitar que há, isso sim, uma relação de dependência, como em qualquer relação trabalhista.

Seguir acreditando numa pretensa autonomia promove um distanciamento entre os freelas muito maior do que o que já promove o mundo digital. Distantes uns dos outros, deixamos de pensar em soluções, como a criação de fundos de emergência da parte do governo, deixamos de pensar que, mesmo fora da CLT, seguimos pagando impostos e, portanto, deveríamos ter nossos direitos garantidos. Eu não acredito em autonomia, mas sigo acreditando e defendendo essa coisa demodê que chamamos de “direitos”.