Episódica

Já perdi o sono por causa de uma canção que ficou palpitando na mente, feito um latejo. Por isso, inventei uma regra. Dessas que a gente leva para toda a vida e indica para os amigos com aquele ar de fajuta sabedoria: nunca misturar os momentos e as pessoas com música.

Explico. As músicas têm esse poder de fazer a gente se lembrar do que não deveria. As lembranças, danadas que são, insistem em retornar por meio das notas. Quando a cadência  se encontra com o córtex auditivo, você se lembra do que achava nem existir mais. Basta ouvir a música, reconhecer a harmonia, que o seu cérebro irá ativar, de forma muito sofisticada, detalhes que passaram rapidamente pelos sentidos e ficaram naquela parte da memória que a gente chama de esquecimento. E a piada de mal gosto é que, uma vez reconhecidas, essas memórias se manifestarão constantemente.

O cheiro da pele, o gosto do cigarro (cujas cinzas você via caindo pelo lençol, de vez em quando), o suor compartilhado, o gesto grave no meio da piada mais sacana, as palavras ditas em tom de súplica (um poeta diria que soariam bêbadas, sinceras e urgentes). Se lembra até de como era fácil tirar a roupa – um gesto mecânico desse, se torna meio que um ritual em alguns momentos -, olhar o teto e falar do que nem tem importância.

Chego a pensar que tudo o que devíamos esquecer – e que de fato esquecemos – fica preso à tessitura das canções que se misturam com os momentos e as pessoas. Não cometa esse erro.

As coisas que não falamos

Ultimamente, sempre que vou vestir uma roupa, lembro de minha mãe, em nosso último encontro, apalpando-me as gorduras que até ontem não existiam e me dando motivos para que eu nunca queira estar em família. O motivo da lembrança tem duas vias. De primeiro, quase nenhuma roupa me serve mais, depois de 10 quilos respeitosamente conquistados em coisa de 3 anos de muita liberdade gastronômica, cervejas e, temo, a troca da pílula anticoncepcional. De segundo, todas as coisas que eu poderia ter dito para ser deixada em paz, mas não disse porque ia evidenciar que o incômodo é mais comigo do que com a minha progenitora.

Mas, esse texto não tem a ver com as minhas frustrações com o fato de eu ter engordado e estar envelhecendo e as duas coisas, que muito se relacionam, estarem perturbando a minha vida só pela atenção babaca que eu dou a elas. Esse texto tem a ver com o dia em que meu marido e eu esquecemos de alimentar o Joaquim (pelo menos ele começa assim). Na verdade, esquecemos a última refeição dele, que costuma ser dada à noite. Eu achei que, como de costume, meu marido o alimentaria, e ele achou que eu o faria, já que chegaria mais tarde do trabalho. Só não falamos sobre isso. Tudo ficou naquele plano das coisas implícitas que, de tão óbvias, não merecem ser mencionadas.

Uma coreógrafa, cujo nome não me lembro, disse que a gente só se esquece daquilo que não é importante. Na dança, um movimento precisa dar origem a outro e fazer sentido para o dançarino. Senão, cada passo precisa ser decorado mecanicamente, de forma que a memória é forçada a reter a informação em um processo não natural. Por outro lado, quanto mais você repete um movimento, menos se dá conta dele. Esquecer uma coisa que é parte da rotina  – como no caso da refeição do Joaquim – faz a gente pensar que a repetição está sendo de uma constância assustadora.

Contei um fato sobre mim para uma amiga; uma dessas histórias que a gente guarda pela vida inteira. Um dado sobre o qual evito falar há muitos anos; tanto que achei que já nem tinha importância, praticamente não existia mais e que já tinha conseguido enterrar em algum lugar da memória cujo acesso não é constante e que, uma vez lá, as coisas tornam-se esquecidas. Mas me enganei. Algumas coisas são fortes o suficiente para mudar quem você pensa que é. E aquilo que você esquece também faz parte de você, esteja ou não consciente disso. Decidi falar a respeito, porque minha amiga fez uma análise sobre mim que achei completamente superficial. Quis mostrar a ela que há muito mais sobre as pessoas, do que a gente pode imaginar. Mesmo as pessoas que conhecemos bem. A gente cria pressupostos sobre os outros e acredita tanto neles, que depois tem a certeza de que entende o outro melhor do que ele mesmo. E, com isso, criamos também os interditos. Uma vez revelado o fato, ela desconversou, mudou de assunto e passou para outra pauta menos constrangedora. (Pensando bem, ainda bem mesmo que não disse nada para a minha mãe.)

Outro dia, esperava meu marido depois da aula de desenho e uma mulher sentou perto de mim. Sacou um cigarro da bolsa, isqueiro e começou a fumar olhando em minha direção. Sorriu, como se soubesse de algo que eu não sei. Não consegui precisar a idade dela, assim de cara, pois tinha a pele bastante marcada pelo tempo e, ao mesmo tempo, conservava uma jovialidade de quem há muito percebeu que nada é tão sério que não mereça uma boa gargalhada. Perguntou se eu era daqui. Disse que sim, embora não seja verdade; não tenho motivos para explicar minhas andanças para quem não conheço. Ela continuou, explicando que acabara de concluir algo de extrema importância e, por isso, pensava em deixar a cidade. Riu novamente e, quase que num reflexo, disse: “você é muito jovem”. Apagou o cigarro e foi embora.

Indicação de leitura

Muito de minhas memórias da infância se resumem a uma manta que usei nos primeiros minutos de vida e que foi feita pela minha mãe. Nossos brinquedos, meus e de minhas irmãs, e nossas roupas de criança foram doadas. Menos a manta e outros itens que minha mãe considera de valor sentimental. Aprisionada naquela manta estão os primeiros vestígios da minha existência e o índice dos cuidados de minha mãe sobre mim, já que eu iria nascer nos primeiros dias de maio, os quais costumavam ser mais frios e, portanto, mais agressivos para um bebê.

As relações que criamos com os objetos que nos cercam são bem mais complexas do que gostamos de admitir. Quando a minha avó faleceu, fui até a sua casa e abri o guarda-roupa dela como se eu pudesse encontrá-la ali. E ela realmente estava ali. O cheiro, o zelo, os tecidos destruídos pelo tempo (o tempo de vida de minha avó), os detalhes que ela gostava de acentuar, como bordados e aplicações, eram a minha memória de minha avó. Eram os rastros dela por este mundo.

Percebo que, de tempos em tempos, escolho um item de vestuário como favorito e tento usá-lo de maneiras diferentes por algum tempo, até que as alternativas se esgotam e eu passe a escolher outro item e a adotar ideias semelhantes para o uso. Há a questão do fetiche, quando somos aprisionados pela ideia do consumo – e pelos objetos somos consumidos -, mas há também, a questão da memória que permanece nos objetos. As roupas permanecem neste mundo por mais tempo do que nós e são lastros da nossa existência.

É sobre as roupas, sua memória, sua importância para a vida em sociedade e para consumação de nossa identidade que se trata o livro “O casaco de Marx”.

Foto: The cactus tree