Não sejamos inocentes

Não sejamos inocentes. A roupa que vestimos carrega muito mais significado do que queremos admitir. Qualquer mulher que algum dia foi julgada pelo comprimento da saia sabe muito bem disso. Qualquer pessoa negra que sinta necessidade de se “vestir bem” sabe que existe um conjunto de regras que nos é imposto para que passemos despercebidos. Na história da moda, a primeira mulher que usou “calças masculinas” foi ridicularizada. Marx se viu impedido de ir até a biblioteca fazer os seus estudos por não ter roupas apropriadas para ser visto. Há não muito tempo atrás, haviam leis estabelecendo o que era correto usar ou não. De certa forma, elas ainda existem. As cores que usamos diariamente também são liberadas e validadas. Uma parte das pessoas que conheço bate no peito, afirmando que não se importa com o que veste. O problema é que tem muita gente que se importa.

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Caminho sem volta

Eu lembro de ter estragado o livro da escola. Aquele que a professora mandou encapar e cuidar bem para que durasse o ano todo. Mas o uso ou talvez o meu descaso natural fizeram com que as folhas se soltassem. Aos poucos, o livro que era novo me pareceu velho, com as folhas todas se perdendo pela casa. Eu me preocupei e recorri à mãe, que me deu a solução: “Sua avó pode costurar o livro”.

Costurar o livro. Me encantei por unir as páginas do livro por meio de um processo tão arcaico quanto a costura. O conhecimento sendo entrelaçado pela costura de minha avó. Era o fio de Ariadne marcando um caminho que, em meu caso, não teria volta. O texto (re-) construído pelas agulhas de minha avó. Cada ponto entrelaçando ideias. Reconstruindo fatos.

Era eu sendo salva pelas linhas para me trancafiar definitivamente entre o fio e as páginas do livro. Caminho sem volta.

O acaso e a covardia

Já faz tempo que passei a achar o acaso bem mais interessante do que a história do “destino”. Digam o que quiser, mas eu acredito muito mais na casualidade do que na destinação. Nem por isso, a vida fica menos interessante. O fato de estarmos sujeitos a uma série de acidentes – que irão nos levar ou não a algum lugar – só faz com que a gente deixe de esperar que as coisas caiam do céu e que consigamos aceitar a vida como ela é.

Vejam o que me aconteceu um dia desses. Eu e mais dois amigos, a Alexandra e o Marcos, decidimos dar uma força para o pessoal da Síria que veio se refugiar aqui em Rio Preto. Nossa ideia era ir até a igreja que está recolhendo doações para saber o que eles estão precisando. Roupas, comida, aulas de português, coisas do tipo. Faríamos uma lista e, depois, tentaríamos providenciar os itens. Só que, quando chegamos lá, descobrimos que o que mais está fazendo falta é de “braço” para ajudar a organizar o que já foi doado. De fato, vimos que tinha muita doação e pouca gente para dar conta do recado.

Chamados à missão, passamos a tarde separando e dobrando roupas. Observamos que muitas delas eram colocadas numa caixa com a inscrição “dispensadas”. O motivo é que muitas não estavam em condições de serem doadas. Tinham rasgos, manchas ou outros defeitos. Me ocorreu perguntar para onde é que iriam aquelas peças “sem serventia”. A Alexandra, tomada pelo mesmo sentimento que o meu, não só perguntou, como conseguiu que separássemos algumas delas para nós. Ninguém soube nos dizer o que seria feito delas, mas a mulher que nos deu a informação mencionou que, possivelmente, seriam incineradas (um arrepio percorre a espinha).

Se acreditasse nessa lorota de que “tudo está escrito”, eu diria que a nossa vontade de ajudar as pessoas teria como resultado o início de algo que quero muito fazer, que é trabalhar com upcycling. Porém seria o mesmo que dizer que esta guerra escrota horrível existe para me beneficiar. Eu não suportaria viver com isso. Mas, posso dizer que o acaso tem um jeito curioso de me forçar a começar as coisas.

Eu vinha desistindo dessa história de upcycling. Estou com uma certa “preguiça” da moda. Para não dizer raiva mesmo. Mas, preciso admitir que ter em minhas mãos cerca de 30 peças que iriam para o lixo – ou pior que iriam ser incineradas – me faz sorrir aquele sorriso de canto de boca, de quem está acumulando ideias. Por outro lado, me sinto completamente perdida. Eu não sei se tenho condições de fazer isso. Eu não sei se tenho competência. Aliás, depois de colecionar tantas frustrações profissionais, eu, que sempre me arrisquei, estou começando a achar que a idade está me deixando meio covarde. A idade ou a vida. Ou as duas.

Engraçado é que eu não paro de pensar nas caixas e mais caixas de roupas “dispensadas” que eu deixei por lá e estou morrendo de medo de pensar no que fazer com a que está bem aqui. Há poucos passos de mim.